Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Minas Gerais
O governador estilo garotão

Jovem e solteiro, Aécio mostra que fazer
política também pode ser divertido


Marcelo Carneiro

 
Xicão Jones
Aécio na noite, com Luciano Huck e Álvaro Garnero, ao lado de Gisele Bündchen e no Mineirão: poder e prazer
Lucia Sebe/Imprensa MG
Antônio Guaudécio/Folha Imagem

Aos 43 anos, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, tem um currículo de veterano. Foi quatro vezes deputado federal, presidiu a Câmara – o que o levou a ocupar, interinamente, a Presidência da República – e hoje comanda a terceira maior economia do país. Aécio ainda carrega no sobrenome duas linhagens, os Neves e os Cunha, uma espécie de Cruzeiro e Atlético da tradicional política mineira. Mas a biografia não parece um fardo no cotidiano do governador. Muito pelo contrário. Alegre, divorciado e bem-sucedido, Aécio tornou-se um tipo raro de político, que aparece em revistas de celebridades, geralmente acompanhado de belas mulheres, artistas de televisão ou jogadores de futebol. E, em geral, fora dos limites de Minas Gerais. Nem a agenda oficial do governador escapa desse estilo. Há duas semanas, na abertura da São Paulo Fashion Week, onde esteve a convite de estilistas mineiros, deixou-se fotografar em uma conversa para lá de animada com a modelo Gisele Bündchen. Também já circulou, muitíssimo bem acompanhado, pela quadra da Mangueira, escola de samba carioca que neste ano homenageia Minas Gerais. Para quem vê algum problema em tamanha animação, Aécio tem uma resposta pronta. "A alegria é a coisa mais séria da vida", diz o governador, recitando um verso da escritora americana Gertrude Stein.

Aécio não parece preocupado nem mesmo quando alguém insinua que deveria passar mais tempo em Minas Gerais. Não raro, o governador pode ser encontrado nos fins de semana pedalando na orla do Rio de Janeiro, onde mora sua filha Gabriela, de 13 anos, e onde o próprio Aécio viveu dos 10 aos 20 anos, ou descansando em Búzios e Angra dos Reis, pontos badalados do litoral fluminense. "Essas críticas nunca partem dos mineiros, que já estão acostumados ao meu jeito, e sim do eixo Rio–São Paulo, que prefere que Minas Gerais seja apenas parte do folclore político", rebate. "Há pessoas que, para fazer carreira, mantêm casamentos de fachada ou deixam de ir a festas. Eu não sou hipócrita." Até o momento, as pesquisas de opinião têm lhe dado razão. Segundo o Instituto Vox Populi, Aécio ostenta hoje um dos maiores índices de aprovação entre os governadores. Em janeiro do ano passado, quando assumiu o mandato, 43% dos mineiros consideravam seu governo bom ou ótimo. No fim do ano, quando o normal seria a perda de alguns pontos, esse porcentual havia subido para 55%.

Boa parte desse sucesso explica-se pela comparação com seu antecessor, Itamar Franco. Aécio herdou de Itamar um Estado em frangalhos. A folha de pagamento engolia 74% da receita, havia treze anos os servidores não recebiam o 13º em dia e o déficit chegava a 2,4 bilhões de reais. Adotando uma política fiscal rigorosa, o governador reduziu de 22 para quinze o número de secretarias, extinguiu empresas públicas e diminuiu as despesas com pessoal. Só de leis para a reforma administrativa do Estado, foram quase setenta. Nem nos períodos mais complicados, como no enfrentamento com os servidores, que perderam boa parte dos privilégios, seus índices de popularidade apresentaram queda.

Nada mais natural, portanto, que Aécio, ex-surfista, ex-motoqueiro, ex-mochileiro, peladeiro esforçado e vaidoso assumido – "Corro 10 quilômetros em cinqüenta minutos, tenho corpo de atleta", orgulha-se –, continue dando pouca atenção à liturgia do cargo. Ele só se rende diante do inevitável. Em 2002, o então candidato às eleições em Minas deixou de ir à festa de 40 anos de um de seus melhores amigos, o empresário carioca Alexandre Accioly. O rega-bofe para 1 000 convidados ganhou as colunas sociais e foi lembrado pela ostentação. Atualmente, o governador recusa pedidos de entrevista de revistas de celebridades e masculinas. Mas, sempre que pode, escapa do protocolo. O que, às vezes, leva sua equipe à loucura. No início do mandato, o governador informou ao gabinete militar que não precisaria de escolta quando passasse os fins de semana no Rio de Janeiro. Os assessores não levaram o recado a sério e deslocaram um carro com seguranças para a portaria do prédio. Descoberta, a equipe recebeu ordens do governador para retornar a Belo Horizonte no mesmo dia.

Na noite de quarta-feira passada, Aécio, torcedor fanático do Cruzeiro, podia ser encontrado, também sem nenhum segurança, no estádio do Mineirão. "Em Belo Horizonte, não tem mesmo muita coisa para fazer, além de um futebolzinho", diz, com o olhar perdido de quem anda com saudade das noites cariocas ao lado de figuras como o apresentador Luciano Huck, o craque Ronaldo e o playboy Álvaro Garnero, famosos por ilustres conquistas amorosas. Nesse campeonato, Aécio não faz feio. Em seu currículo, estão três apresentadoras de televisão: Doris Giesse, hoje fora do vídeo, Cynthia Howlett e Ana Luiza Castro. Futebol, amigos, festas, namoradas. Ele bem que gostaria, mas não é o inventor da arte de governar sem abrir mão de certos prazeres. "O Brasil criou uma geração de políticos, como Juscelino Kubitschek, para quem exercer o poder nunca foi um fardo, e sim uma alegria", diz a cientista política Lúcia Hipólito. Aécio Neves, pelo visto, está nessa turma.

 
 
 
 
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