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Justiça
Emperrada há mais de 40
anos
Medida que poderia dobrar a
velocidade
de tramitação dos processos aguarda
votação desde a década de 60. E ainda
assim os políticos continuam falando
que querem modernizar a Justiça

Maurício
Lima
Fotos Rafael Neddermeyer/AE
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| O
presidente Lula e Maurício Corrêa: divergências
atrasam a reforma |
Na
semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve
no Supremo Tribunal Federal para uma solenidade que marcou o início
do ano judiciário depois de dois meses de férias,
diga-se. A visita estava cercada de expectativa, pois seria o primeiro
encontro entre Lula e o presidente do Supremo Tribunal Federal após
a ácida entrevista que Maurício Corrêa concedeu
a VEJA, em setembro do ano passado, criticando o governo petista.
Durante a solenidade, apesar da cordialidade de parte a parte, os
dois chefes de poder divergiram em seus discursos. Corrêa
condenou a criação de um órgão externo
à magistratura para fiscalizar a atuação dos
juízes, idéia defendida pelo Palácio do Planalto.
Lula, que falou em seguida, foi taxativo: o governo não abre
mão de um conselho independente de controle do Judiciário.
No dia seguinte, outro ministro do STF, Nelson Jobim, pronunciou-se
favorável ao controle externo. Nos debates em Brasília,
a discussão sobre a necessidade ou não do controle
externo ganhou uma dimensão gigantesca. Muito mais importante
do que essa questão do controle externo da magistratura é
a reforma das leis que provocam a lentidão no trabalho dos
juízes. O mesmo processo que dura em média quatro
meses nos Estados Unidos, no Brasil dura doze anos. "Não
são raros os casos em que o autor de um processo morre antes
de conhecer a sentença final", diz o ex-ministro da Justiça
José Carlos Dias, um dos mais respeitados advogados criminalistas
do Brasil. Portanto, a história do controle externo dos magistrados,
embora importante, está tomando o lugar da discussão
de fato essencial.
A Justiça brasileira se submete a um sistema de controle
relativamente bem concebido. Cada tribunal possui uma corregedoria
e um conselho de magistrados encarregados de zelar pela conduta
ética e pelo bom uso dos recursos públicos. Há
ainda um Conselho da Justiça Federal, que analisa em última
instância os atos de improbidade. O problema é que
o sistema está entregue à corporação,
o que permite aos magistrados viver num mundo paralelo, com regras
próprias. O modelo não evita o nepotismo nem a ação
dos Lalaus. Em Brasília, discute-se atualmente se o órgão
fiscalizador dos magistrados deve ser composto apenas de representantes
da categoria ou se deveria, ao contrário, incorporar pessoas
de fora da Justiça. A discussão lembra o interminável
debate sobre se o Brasil deveria ou não ter Banco Central
independente ou aquele outro a respeito das vantagens do parlamentarismo
sobre o presidencialismo.
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| Jobim:
a favor do controle externo ao Poder Judiciário |
O
mundo oferece exemplos bem-sucedidos para todos os lados. Não
faz muita diferença se o conselho de acompanhamento dos trabalhos
da Justiça vai ser externo, como quer o presidente, ou interno,
como defende Maurício Corrêa. O importante é
que a lei que organiza os sistemas de controle não seja vaga
como é atualmente. "Externo ou interno, estamos discutindo
apenas um adjetivo", afirma Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal
Federal. "Independentemente de quem ficará encarregado de
zelar pelo funcionamento dos tribunais, o Congresso poderia estabelecer
em lei que juízes tivessem metas de produtividade e ficassem
impedidos de contratar parentes."
Algo
muito diferente acontece com a reforma do Judiciário, que
precisa ser feita imediatamente. As mudanças requeridas na
tramitação dos processos se relacionam diretamente
com a vida de cada cidadão que bate às portas da Justiça.
Até mesmo as outras reformas serão beneficiadas pela
reestruturação da Justiça. Sem mudanças
que dinamizem o sistema judicial, as conquistas proporcionadas pela
reforma agrária, previdenciária e tributária
podem não sair do papel. Como as ações demoram
demais, vive-se num clima de terra de ninguém. Investidores
são afugentados porque não conseguem cobrar suas dívidas,
pessoas prejudicadas por planos de previdência não
têm como cobrar seus direitos e o agricultor não consegue
receber o título de propriedade de sua terra. Além
de tudo, é um sistema profundamente injusto. Os mais afortunados
têm mais chances de se defender e, conseqüentemente,
de ver seus direitos respeitados.
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Mario Rodrigues
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A
situação é tão desconfortável
que os discursos em favor de mudanças costumam ser impetuosos.
Ao tomar posse, Lula usou a expressão "caixa-preta" para
referir-se à Justiça. Na semana passada, entrevistado
sobre a reforma do Judiciário, Márcio Thomaz Bastos,
ministro da Justiça, declarou: "O país não
pode mais esperar pelas mudanças". Tão fortes quanto
as palavras, no entanto, são as forças que atuam para
que as mudanças não aconteçam. No projeto de
reforma do Judiciário que está no Congresso Nacional,
existe uma medida chamada súmula vinculante, remédio
eficaz contra a lerdeza judicial. Sua mecânica é simples.
Uma vez que o Supremo Tribunal Federal tenha julgado determinado
caso, todos os demais juízes ficam proibidos de se pronunciar
sobre processos semelhantes. No caso desses processos, a decisão
automaticamente aplicada é aquela que já foi dada
uma vez pelo Supremo. Calcula-se que a aprovação da
súmula eliminaria metade das ações em tramitação
no Brasil. Na prática, equivale dizer que as ações
restantes andariam no dobro da velocidade atual.
Desde
1963 tramita no Congresso Nacional um projeto de adoção
da súmula vinculante. Em quarenta anos, a medida nunca foi
votada por um motivo simples. A súmula não conta com
a simpatia de advogados, da maioria dos juízes e até
dos governos em todas as esferas. Com menos processos, os advogados
perdem campo de trabalho. Com a obrigatoriedade, os juízes
perdem liberdade. A derrota do governo é igualmente significativa.
Levantamento recente mostra que os governos são parte interessada
em cerca de 80% das ações que tramitam nos tribunais,
em grande número delas como réus. Se os casos fossem
resolvidos de uma só vez, o governo perderia mais do que
ganharia. Resta saber se a súmula sai do papel desta vez.
Pedro Henrique
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Ed Ferreira/AE
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