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Entrevista:
Robert
Meeropol
O
nome do pai
Filho do casal Rosenberg, morto
na cadeira elétrica por espionagem
nos EUA, conta por que escondeu
o sobrenome por décadas

Rosana
Zakabi
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Rosenberg Fund dor Children

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"Nos
anos 90, quando surgiram novos documentos envolvendo
meu pai em espionagem, pensei comigo: 'Bem, pode ser
verdade'"
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Ethel
e Julius Rosenberg foram os primeiros civis executados por espionagem
nos Estados Unidos, em 1953. Eram acusados de ter passado o segredo
da bomba atômica a Moscou. As provas eram circunstanciais
e pesou o fato de Julius ser membro do Partido Comunista. O julgamento
provocou protestos dentro e fora do país e uma campanha pediu
clemência. Em vão. Os dois filhos do casal, Michael,
10 anos, e Robert, 6, foram adotados e, para fugir ao estigma, tiveram
o sobrenome mudado para Meeropol o mesmo dos pais adotivos
e viveram anonimamente até os anos 70. Na década
passada, Robert trocou a advocacia pelo comando da Rosenberg Fund
for Children, que auxilia os filhos de ativistas dos direitos humanos
que estejam presos. Há seis meses, aos 56 anos, ele lançou
o livro An Execution in the Family (Uma Execução
na Família, ainda sem tradução para o português),
relato autobiográfico do trauma de ter os pais mortos na
cadeira elétrica. Robert é casado com Elli e tem duas
filhas. De Massachusetts, onde mora, ele concedeu esta entrevista
a VEJA.
Veja
No livro, o senhor escreve que, devido a uma série
de pesquisas, tem agora outra visão sobre a execução
de seus pais. O que mudou?
Meeropol Ainda não sei muita coisa a respeito
de meus pais, mas sempre acreditei que eram inocentes. Comecei a
ler mais sobre o caso nos anos 70 e fiquei ainda mais convencido
disso. Só quando ingressei no curso de direito, na década
seguinte, percebi que as coisas eram um pouco mais complicadas.
Eu tenho certeza de que meus pais foram condenados por um crime
que não cometeram. Ou seja, não roubaram o segredo
da bomba atômica. Mas, se perguntarem se os Rosenberg estavam
envolvidos em algum outro tipo de espionagem a favor da União
Soviética, eu responderei: não sei. Nos anos 90, quando
foram descobertos documentos envolvendo meu pai em um esquema de
espionagem, eu pensei comigo: "Bem, pode ser verdade". Veja bem,
não estou afirmando que ele seja culpado de alguma coisa.
Estou apenas dizendo que não tenho a resposta para essa questão.
Veja O senhor acredita que sua mãe também
era uma espiã?
Meeropol Em
2001, David Greenglass, irmão de minha mãe e a principal
testemunha de acusação, admitiu em entrevista ao The
New York Times que, para proteger a própria esposa, mentiu
sobre a participação de minha mãe na questão
em julgamento. Essa declaração, somada à documentação
sobre o caso que conseguimos reunir nos últimos anos, confirma,
de forma conclusiva, que Ethel Rosenberg não era uma espiã.
Podemos afirmar ainda que o governo dos Estados Unidos sabia que
ela não era uma espiã. Ou seja, apesar de o governo
saber de sua inocência, Ethel foi executada. Provavelmente
esse seja o maior crime de todos.
Veja
O senhor nunca se encontrou com seu tio Greenglass?
Meeropol Depois do que aconteceu com meus pais, não.
Veja
O
senhor pretende encontrá-lo algum dia?
Meeropol
Bem, eu não tenho nada a falar para ele, não há
motivos para isso. Talvez algum dia os filhos ou os netos dele tenham
vontade de me conhecer e venham me procurar. Eu adoraria se isso
acontecesse. Mas isso teria de partir deles.
Veja O senhor perdoa Greenglass pelo que aconteceu?
Meeropol No meu livro, eu falo de um grupo formado
por pessoas que tiveram familiares assassinados e conseguiram perdoar
os criminosos por isso. Essas pessoas, na maioria, são católicas.
Talvez elas tenham conseguido perdoar por causa de suas convicções
religiosas. Eu não tenho essa convicção e não
acho que o conceito do perdão funcione para mim.
Veja
O senhor é contra a pena de morte?
Meeropol Sim, eu sou. Até hoje, muitas pessoas
inocentes são condenadas à morte nos Estados Unidos
e em outros países que adotam a pena capital. Não
funciona porque um sistema judiciário que condena pessoas
à morte precisa julgar com perfeição, e é
impossível não errar. Faz parte da natureza do ser
humano cometer erros.
Veja O senhor escreveu que quando era criança
não tinha consciência de que seus pais haviam sido
executados. Quando o senhor soube realmente o que havia acontecido?
Meeropol Eu sabia que alguma coisa muito grave estava
acontecendo, mas não entendia o que era. Só fui entender
quando já tinha uns 16 ou 17 anos. Durante toda a minha infância
e adolescência procurei manter distância do assunto.
Eu e meu irmão fomos adotados e tivemos o sobrenome trocado.
Assim, conseguimos viver anonimamente. Mas eu sabia que, em algum
momento, alguém iria perguntar sobre meus pais biológicos
e eu não saberia o que responder. Foi quando resolvi pesquisar
sobre o caso e ler alguns livros que tratavam da questão.
Veja
O que o senhor sentiu quando teve consciência
do que aconteceu?
Meeropol É difícil responder a essa
pergunta, porque a forma que eu encontrei para me proteger foi negar
a mim mesmo que aquilo havia acontecido e que eu fazia parte daquela
história. Era uma forma não apenas de me proteger
dos outros, mas, principalmente, de me poupar de emoções
negativas. Eu fingia que havia me esquecido de tudo e nunca tocava
no assunto. Mesmo quando finalmente comecei a ler sobre meus pais,
fiz de tudo para tentar entender o caso como mero espectador, sem
deixar a emoção tomar conta de mim. Só bem
mais tarde é que fui me envolvendo, assumindo quem eu era
de fato.
Veja
O senhor e seu irmão conseguiram levar uma
vida normal depois do que aconteceu?
Meeropol Por incrível que pareça, sim,
graças a meus pais adotivos, Abel e Anne Meeropol. Posso
dizer que dos 7 até os 25 anos levei uma vida absolutamente
comum. Eu vivi com meus pais biológicos somente até
os 3 anos de idade, época em que eles foram presos. Quando
eles morreram, eu tinha 6 anos. Por isso, posso dizer que a influência
de meus pais adotivos em minha vida foi muito maior.
Veja
Foi difícil manter a identidade em segredo?
Meeropol Foi fácil, provavelmente por
causa do meu mecanismo natural de defesa, de fingir que nada havia
acontecido e tentar levar uma vida normal. O fato de ter o nome
trocado também nos ajudou bastante. Eu me acostumei a manter
esse segredo.
Veja
O que poderia ter ocorrido se as pessoas conhecessem
sua verdadeira identidade?
Meeropol Teria sido um desastre. Manter nossa identidade
em segredo foi a única forma de conseguir levar uma vida
normal. Era uma maneira de nos proteger não apenas de pessoas
que poderiam nos atacar, mas também dos militantes que transformaram
meus pais em mártires e nos transformariam em celebridades.
Depois do que aconteceu, tudo de que precisávamos era uma
vida comum, anônima.
Veja
O senhor tem alguma lembrança de como era seu
dia-a-dia com seus pais biológicos?
Meeropol A única recordação que
tenho é que o apartamento em que vivíamos era muito
pequeno e que a convivência com meus pais era boa. Recentemente,
minha sobrinha produziu um documentário sobre a execução
deles. Durante o trabalho, ela conseguiu permissão dos atuais
moradores para filmar o apartamento. Eu e meu irmão fomos
até lá com ela pela primeira vez em cinqüenta
anos. E, quando entrei, percebi que não me lembrava de absolutamente
nada, era como se estivesse em um lugar completamente desconhecido.
Eu consegui apenas confirmar a impressão que tinha, de que
o local onde morávamos era realmente apertado.
Veja
O senhor e seu irmão visitaram várias
vezes seus pais na prisão. O senhor lembra como eram esses
encontros?
Meeropol Disso eu me lembro muito bem. Aliás,
essas são as recordações mais vívidas
que tenho de meus pais. Eu me lembro da aparência deles, que
eles conversavam e brincavam com a gente animadamente durante as
visitas. Eu vivia perguntando quando eles iriam voltar para casa
e não conseguia entender por que não podiam fazer
isso. Também me recordo muito bem de como era a prisão,
os corredores pelos quais tínhamos de passar até chegar
ao encontro de nossos pais. Foi traumático o bastante para
eu nunca mais querer pensar nisso.
Veja Seus pais também mandavam cartas a
vocês. É possível dizer qual delas marcou mais
a sua vida?
Meeropol A última carta que meus pais
mandaram para mim e para meu irmão foi particularmente marcante.
Eles diziam que jamais ficaríamos desamparados, sempre haveria
alguém para tomar conta da gente. Na carta, eles tentaram
nos passar muita confiança e tranqüilidade, com boas
perspectivas para o nosso futuro. E acho que eles estavam certos.
Nós nunca ficamos desamparados.
Veja Manter o segredo sobre sua origem prejudicava
seus relacionamentos com as mulheres?
Meeropol Não exatamente. Para algumas namoradas,
eu revelei minha verdadeira identidade e elas mantiveram segredo.
Para Elli, minha esposa, por quem eu estava apaixonado, não
tive coragem de contar quem eu era. Ela notou que eu estava escondendo
alguma coisa e resolveu terminar o namoro. Depois, descobriu minha
real identidade por intermédio de um amigo em comum e resolveu
me dar outra chance. Estamos juntos há 36 anos.
Veja Depois de tantos anos vivendo no anonimato,
o que levou o senhor e seu irmão a revelar que eram filhos
do casal Rosenberg?
Meeropol Foi a publicação de um
livro sobre a execução de nossos pais, em 1973. O
autor era um advogado famoso que mentia muito sobre o caso. Se permanecêssemos
quietos, ficaria subentendido que o que ele dizia no livro era real.
Além disso, ele publicou a correspondência pessoal
que meus pais recebiam na prisão sem a nossa autorização.
Naquele momento, tínhamos de defender nosso legado, preservar
a memória de nossos pais.
Veja
Quais foram as conseqüências imediatas
dessa revelação?
Meeropol Foram melhores do que eu esperava. O
macartismo (referente ao senador Joseph McCarthy, que promoveu
uma caça aos comunistas nos anos 50) havia terminado,
o caso Watergate, envolvendo o presidente Richard Nixon, estava
no auge e a população mostrava-se mais disposta a
aceitar nosso ponto de vista. No final, a opinião pública
ficou a nosso favor, ganhamos muito apoio. Estávamos preocupados
com o impacto do caso em nossos filhos, mas não houve nada
negativo para eles.
Veja
Como isso afetou seu dia-a-dia?
Meeropol Eu era uma pessoa reservada, que levava uma
vida tranqüila e, de uma hora para outra, tornei-me uma figura
pública, comecei a viajar pelos Estados Unidos para falar
sobre o caso e limpar o nome de meus pais. Foi muito turbulento,
porque minhas filhas eram pequenas e passei a ter pouco tempo para
elas. Tudo aquilo virou minha vida de cabeça para baixo.
Apesar da boa aceitação do público, foi uma
fase difícil.
Veja Após os atentados de 11 de setembro,
os Estados Unidos tornaram-se obsessivos com segurança. O
senhor vê semelhança entre o que está ocorrendo
hoje nos Estados Unidos e o clima de guerra fria existente quando
seus pais foram executados?
Meeropol Quando o presidente George Bush anunciou
que iria fazer o que fosse necessário para combater o terrorismo,
a primeira coisa que pensei foi: "O 11 de setembro terá sido
o primeiro dia de uma nova era McCarthy?". Há muitas semelhanças
entre os dois períodos. Como os terroristas morreram nos
ataques, o governo instaurou uma verdadeira perseguição
contra possíveis suspeitos de cumplicidade. Eu sou contra
essa política do governo americano. Em vez de aumentar a
segurança doméstica, Bush promoveu a maior ofensiva
contra as liberdades civis desde o período McCarthy. Essa
atitude serviu apenas para expor a fragilidade de nossa autonomia
como cidadãos.
Veja Qual era sua intenção ao fundar
a Rosenberg Fund for Children, no início dos anos 90?
Meeropol O objetivo da instituição é
arrecadar fundos para garantir a educação e dar apoio
psicológico aos filhos de ativistas dos direitos humanos
presos por defender suas causas. Na fundação, tento
explicar às crianças o que está ocorrendo com
seus pais, digo que elas não foram abandonadas. Eu acredito
que é importante para as crianças saberem o que realmente
está acontecendo. No meu caso, ninguém me contava
exatamente o que estava ocorrendo com os meus pais, mas eu sentia
que havia algo errado e ficava muito mais angustiado por não
entender a situação. Nenhuma criança merece
passar por isso.
Veja O senhor é feliz?
Meeropol De modo geral, sim. Vivo bem com minha esposa,
minhas filhas cresceram, estão se dando bem em suas carreiras,
têm a vida que sempre sonharam. Sou um homem de sorte. Trabalho
exatamente no que gosto e faço o que quero todos os dias.
Não sei se posso dizer que tenho uma vida normal, mas com
certeza ela é muito produtiva.
Veja
Um ex-agente da KGB, Aleksandr Feklisov, diz que seus
pais nada sabiam sobre a bomba atômica, mas que seu pai forneceu
informações sobre a indústria bélica
durante a II Guerra. O que o senhor pensa disso?
Meeropol Francamente, não acredito em nada
do que esse e outros ex-agentes soviéticos contaram sobre
meus pais. A maioria, na minha opinião, apenas buscava notoriedade
e ganhar algum dinheiro em cima disso.
Veja
O governo americano admitiu alguma vez que seus pais
poderiam ser inocentes?
Meeropol Organizações não-governamentais
e mesmo entidades ligadas ao governo já afirmaram várias
vezes que documentos sobre o caso comprovam que houve erro na execução
de meus pais e que eles eram inocentes do crime pelo qual foram
condenados. Mas o governo nunca admitiu oficialmente e nem sei se
um dia isso vai acontecer.
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