Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Entrevista: Robert Meeropol
O nome do pai

Filho do casal Rosenberg, morto
na cadeira elétrica por espionagem
nos EUA, conta por que escondeu
o sobrenome por décadas


Rosana Zakabi

 

Rosenberg Fund dor Children

"Nos anos 90, quando surgiram novos documentos envolvendo meu pai em espionagem, pensei comigo: 'Bem, pode ser verdade'"

Ethel e Julius Rosenberg foram os primeiros civis executados por espionagem nos Estados Unidos, em 1953. Eram acusados de ter passado o segredo da bomba atômica a Moscou. As provas eram circunstanciais e pesou o fato de Julius ser membro do Partido Comunista. O julgamento provocou protestos dentro e fora do país e uma campanha pediu clemência. Em vão. Os dois filhos do casal, Michael, 10 anos, e Robert, 6, foram adotados e, para fugir ao estigma, tiveram o sobrenome mudado para Meeropol – o mesmo dos pais adotivos – e viveram anonimamente até os anos 70. Na década passada, Robert trocou a advocacia pelo comando da Rosenberg Fund for Children, que auxilia os filhos de ativistas dos direitos humanos que estejam presos. Há seis meses, aos 56 anos, ele lançou o livro An Execution in the Family (Uma Execução na Família, ainda sem tradução para o português), relato autobiográfico do trauma de ter os pais mortos na cadeira elétrica. Robert é casado com Elli e tem duas filhas. De Massachusetts, onde mora, ele concedeu esta entrevista a VEJA.

Veja – No livro, o senhor escreve que, devido a uma série de pesquisas, tem agora outra visão sobre a execução de seus pais. O que mudou?
Meeropol – Ainda não sei muita coisa a respeito de meus pais, mas sempre acreditei que eram inocentes. Comecei a ler mais sobre o caso nos anos 70 e fiquei ainda mais convencido disso. Só quando ingressei no curso de direito, na década seguinte, percebi que as coisas eram um pouco mais complicadas. Eu tenho certeza de que meus pais foram condenados por um crime que não cometeram. Ou seja, não roubaram o segredo da bomba atômica. Mas, se perguntarem se os Rosenberg estavam envolvidos em algum outro tipo de espionagem a favor da União Soviética, eu responderei: não sei. Nos anos 90, quando foram descobertos documentos envolvendo meu pai em um esquema de espionagem, eu pensei comigo: "Bem, pode ser verdade". Veja bem, não estou afirmando que ele seja culpado de alguma coisa. Estou apenas dizendo que não tenho a resposta para essa questão.

Veja – O senhor acredita que sua mãe também era uma espiã?
Meeropol – Em 2001, David Greenglass, irmão de minha mãe e a principal testemunha de acusação, admitiu em entrevista ao The New York Times que, para proteger a própria esposa, mentiu sobre a participação de minha mãe na questão em julgamento. Essa declaração, somada à documentação sobre o caso que conseguimos reunir nos últimos anos, confirma, de forma conclusiva, que Ethel Rosenberg não era uma espiã. Podemos afirmar ainda que o governo dos Estados Unidos sabia que ela não era uma espiã. Ou seja, apesar de o governo saber de sua inocência, Ethel foi executada. Provavelmente esse seja o maior crime de todos.

Veja – O senhor nunca se encontrou com seu tio Greenglass?
Meeropol – Depois do que aconteceu com meus pais, não.

Veja – O senhor pretende encontrá-lo algum dia?
Meeropol – Bem, eu não tenho nada a falar para ele, não há motivos para isso. Talvez algum dia os filhos ou os netos dele tenham vontade de me conhecer e venham me procurar. Eu adoraria se isso acontecesse. Mas isso teria de partir deles.

Veja – O senhor perdoa Greenglass pelo que aconteceu?
Meeropol – No meu livro, eu falo de um grupo formado por pessoas que tiveram familiares assassinados e conseguiram perdoar os criminosos por isso. Essas pessoas, na maioria, são católicas. Talvez elas tenham conseguido perdoar por causa de suas convicções religiosas. Eu não tenho essa convicção e não acho que o conceito do perdão funcione para mim.

Veja – O senhor é contra a pena de morte?
Meeropol – Sim, eu sou. Até hoje, muitas pessoas inocentes são condenadas à morte nos Estados Unidos e em outros países que adotam a pena capital. Não funciona porque um sistema judiciário que condena pessoas à morte precisa julgar com perfeição, e é impossível não errar. Faz parte da natureza do ser humano cometer erros.

Veja – O senhor escreveu que quando era criança não tinha consciência de que seus pais haviam sido executados. Quando o senhor soube realmente o que havia acontecido?
Meeropol – Eu sabia que alguma coisa muito grave estava acontecendo, mas não entendia o que era. Só fui entender quando já tinha uns 16 ou 17 anos. Durante toda a minha infância e adolescência procurei manter distância do assunto. Eu e meu irmão fomos adotados e tivemos o sobrenome trocado. Assim, conseguimos viver anonimamente. Mas eu sabia que, em algum momento, alguém iria perguntar sobre meus pais biológicos e eu não saberia o que responder. Foi quando resolvi pesquisar sobre o caso e ler alguns livros que tratavam da questão.

Veja – O que o senhor sentiu quando teve consciência do que aconteceu?
Meeropol – É difícil responder a essa pergunta, porque a forma que eu encontrei para me proteger foi negar a mim mesmo que aquilo havia acontecido e que eu fazia parte daquela história. Era uma forma não apenas de me proteger dos outros, mas, principalmente, de me poupar de emoções negativas. Eu fingia que havia me esquecido de tudo e nunca tocava no assunto. Mesmo quando finalmente comecei a ler sobre meus pais, fiz de tudo para tentar entender o caso como mero espectador, sem deixar a emoção tomar conta de mim. Só bem mais tarde é que fui me envolvendo, assumindo quem eu era de fato.

Veja – O senhor e seu irmão conseguiram levar uma vida normal depois do que aconteceu?
Meeropol – Por incrível que pareça, sim, graças a meus pais adotivos, Abel e Anne Meeropol. Posso dizer que dos 7 até os 25 anos levei uma vida absolutamente comum. Eu vivi com meus pais biológicos somente até os 3 anos de idade, época em que eles foram presos. Quando eles morreram, eu tinha 6 anos. Por isso, posso dizer que a influência de meus pais adotivos em minha vida foi muito maior.

Veja – Foi difícil manter a identidade em segredo?
Meeropol – Foi fácil, provavelmente por causa do meu mecanismo natural de defesa, de fingir que nada havia acontecido e tentar levar uma vida normal. O fato de ter o nome trocado também nos ajudou bastante. Eu me acostumei a manter esse segredo.

Veja – O que poderia ter ocorrido se as pessoas conhecessem sua verdadeira identidade?
Meeropol – Teria sido um desastre. Manter nossa identidade em segredo foi a única forma de conseguir levar uma vida normal. Era uma maneira de nos proteger não apenas de pessoas que poderiam nos atacar, mas também dos militantes que transformaram meus pais em mártires e nos transformariam em celebridades. Depois do que aconteceu, tudo de que precisávamos era uma vida comum, anônima.

Veja – O senhor tem alguma lembrança de como era seu dia-a-dia com seus pais biológicos?
Meeropol – A única recordação que tenho é que o apartamento em que vivíamos era muito pequeno e que a convivência com meus pais era boa. Recentemente, minha sobrinha produziu um documentário sobre a execução deles. Durante o trabalho, ela conseguiu permissão dos atuais moradores para filmar o apartamento. Eu e meu irmão fomos até lá com ela pela primeira vez em cinqüenta anos. E, quando entrei, percebi que não me lembrava de absolutamente nada, era como se estivesse em um lugar completamente desconhecido. Eu consegui apenas confirmar a impressão que tinha, de que o local onde morávamos era realmente apertado.

Veja – O senhor e seu irmão visitaram várias vezes seus pais na prisão. O senhor lembra como eram esses encontros?
Meeropol – Disso eu me lembro muito bem. Aliás, essas são as recordações mais vívidas que tenho de meus pais. Eu me lembro da aparência deles, que eles conversavam e brincavam com a gente animadamente durante as visitas. Eu vivia perguntando quando eles iriam voltar para casa e não conseguia entender por que não podiam fazer isso. Também me recordo muito bem de como era a prisão, os corredores pelos quais tínhamos de passar até chegar ao encontro de nossos pais. Foi traumático o bastante para eu nunca mais querer pensar nisso.

Veja – Seus pais também mandavam cartas a vocês. É possível dizer qual delas marcou mais a sua vida?
Meeropol – A última carta que meus pais mandaram para mim e para meu irmão foi particularmente marcante. Eles diziam que jamais ficaríamos desamparados, sempre haveria alguém para tomar conta da gente. Na carta, eles tentaram nos passar muita confiança e tranqüilidade, com boas perspectivas para o nosso futuro. E acho que eles estavam certos. Nós nunca ficamos desamparados.

Veja – Manter o segredo sobre sua origem prejudicava seus relacionamentos com as mulheres?
Meeropol – Não exatamente. Para algumas namoradas, eu revelei minha verdadeira identidade e elas mantiveram segredo. Para Elli, minha esposa, por quem eu estava apaixonado, não tive coragem de contar quem eu era. Ela notou que eu estava escondendo alguma coisa e resolveu terminar o namoro. Depois, descobriu minha real identidade por intermédio de um amigo em comum e resolveu me dar outra chance. Estamos juntos há 36 anos.

Veja – Depois de tantos anos vivendo no anonimato, o que levou o senhor e seu irmão a revelar que eram filhos do casal Rosenberg?
Meeropol – Foi a publicação de um livro sobre a execução de nossos pais, em 1973. O autor era um advogado famoso que mentia muito sobre o caso. Se permanecêssemos quietos, ficaria subentendido que o que ele dizia no livro era real. Além disso, ele publicou a correspondência pessoal que meus pais recebiam na prisão sem a nossa autorização. Naquele momento, tínhamos de defender nosso legado, preservar a memória de nossos pais.

Veja – Quais foram as conseqüências imediatas dessa revelação?
Meeropol – Foram melhores do que eu esperava. O macartismo (referente ao senador Joseph McCarthy, que promoveu uma caça aos comunistas nos anos 50) havia terminado, o caso Watergate, envolvendo o presidente Richard Nixon, estava no auge e a população mostrava-se mais disposta a aceitar nosso ponto de vista. No final, a opinião pública ficou a nosso favor, ganhamos muito apoio. Estávamos preocupados com o impacto do caso em nossos filhos, mas não houve nada negativo para eles.

Veja – Como isso afetou seu dia-a-dia?
Meeropol – Eu era uma pessoa reservada, que levava uma vida tranqüila e, de uma hora para outra, tornei-me uma figura pública, comecei a viajar pelos Estados Unidos para falar sobre o caso e limpar o nome de meus pais. Foi muito turbulento, porque minhas filhas eram pequenas e passei a ter pouco tempo para elas. Tudo aquilo virou minha vida de cabeça para baixo. Apesar da boa aceitação do público, foi uma fase difícil.

Veja – Após os atentados de 11 de setembro, os Estados Unidos tornaram-se obsessivos com segurança. O senhor vê semelhança entre o que está ocorrendo hoje nos Estados Unidos e o clima de guerra fria existente quando seus pais foram executados?
Meeropol – Quando o presidente George Bush anunciou que iria fazer o que fosse necessário para combater o terrorismo, a primeira coisa que pensei foi: "O 11 de setembro terá sido o primeiro dia de uma nova era McCarthy?". Há muitas semelhanças entre os dois períodos. Como os terroristas morreram nos ataques, o governo instaurou uma verdadeira perseguição contra possíveis suspeitos de cumplicidade. Eu sou contra essa política do governo americano. Em vez de aumentar a segurança doméstica, Bush promoveu a maior ofensiva contra as liberdades civis desde o período McCarthy. Essa atitude serviu apenas para expor a fragilidade de nossa autonomia como cidadãos.

Veja – Qual era sua intenção ao fundar a Rosenberg Fund for Children, no início dos anos 90?
Meeropol – O objetivo da instituição é arrecadar fundos para garantir a educação e dar apoio psicológico aos filhos de ativistas dos direitos humanos presos por defender suas causas. Na fundação, tento explicar às crianças o que está ocorrendo com seus pais, digo que elas não foram abandonadas. Eu acredito que é importante para as crianças saberem o que realmente está acontecendo. No meu caso, ninguém me contava exatamente o que estava ocorrendo com os meus pais, mas eu sentia que havia algo errado e ficava muito mais angustiado por não entender a situação. Nenhuma criança merece passar por isso.

Veja – O senhor é feliz?
Meeropol – De modo geral, sim. Vivo bem com minha esposa, minhas filhas cresceram, estão se dando bem em suas carreiras, têm a vida que sempre sonharam. Sou um homem de sorte. Trabalho exatamente no que gosto e faço o que quero todos os dias. Não sei se posso dizer que tenho uma vida normal, mas com certeza ela é muito produtiva.

Veja – Um ex-agente da KGB, Aleksandr Feklisov, diz que seus pais nada sabiam sobre a bomba atômica, mas que seu pai forneceu informações sobre a indústria bélica durante a II Guerra. O que o senhor pensa disso?
Meeropol – Francamente, não acredito em nada do que esse e outros ex-agentes soviéticos contaram sobre meus pais. A maioria, na minha opinião, apenas buscava notoriedade e ganhar algum dinheiro em cima disso.

Veja – O governo americano admitiu alguma vez que seus pais poderiam ser inocentes?
Meeropol – Organizações não-governamentais e mesmo entidades ligadas ao governo já afirmaram várias vezes que documentos sobre o caso comprovam que houve erro na execução de meus pais e que eles eram inocentes do crime pelo qual foram condenados. Mas o governo nunca admitiu oficialmente e nem sei se um dia isso vai acontecer.

 
 
 
 
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