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Em
foco: Sérgio Abranches
Luta
pelo poder?
"O
ministro José Dirceu sempre teve um viés
mais estatista
e intervencionista. Antônio
Palocci, entretanto, não é nenhum liberal"
Suspeito
que não seja exatamente uma disputa de poder o que rola entre
os ministros José Dirceu e Antônio Palocci. Suspeito
mais, que o projeto político-econômico de longo prazo
dos dois seja o mesmo. Não são tanto as distâncias
ideológicas que explicam as diferenças de posição
entre os dois. Eles cumprem suas funções em condições
muito distintas.
Ilustração Ale Setti
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Palocci é dirigente do "núcleo duro", encarregado
de uma política macroeconômica que não corresponde
aos ideais, programa e competência do partido e seus quadros.
Por isso, teve de recorrer a uma equipe "estrangeira" de alto nível:
Marcos Lisboa, Joaquim Levy e Henrique Meirelles. No dia-a-dia dessa
relação, adquiriu a confiança profissional
e pessoal necessária para apostar nas soluções
que sua equipe lhe apresenta, processá-las politicamente
e sustentá-las no círculo palaciano, no qual, tudo
indica, mantém a última palavra na matéria,
ad referendum do presidente Luiz Inácio.
O
paradigma macroeconômico do qual o ministro se socorre tem
uma matriz que é, de fato, estrangeira e hostil ao pensamento
petista. É natural e esperado que crie desconfiança
e oposição nos setores do governo que continuam a
ouvir e confiar nos economistas e intelectuais do PT e de seu entorno,
que pensam o oposto do que recomenda a equipe econômica de
Palocci.
O
ministro José Dirceu sempre teve um viés mais estatista
e intervencionista. Palocci, entretanto, não é nenhum
liberal. É um quadro da esquerda também, apenas mais
light que seus companheiros de governo. Tenta compatibilizar o projeto
geral desse campo ideológico, encarnado pelo presidente e
seu grupo palaciano, com uma política macroeconômica
necessária e que lhes é estranha.
O
ambiente do chefe da Casa Civil é outro, inteiramente político.
Ele executa uma missão política que sempre esteve
nos cálculos do grupo hoje no poder. Faz, portanto, o que
sabe e estava planejado. Mesmo quando tem de fazer ajustes entre
o desejado e o real, enfrenta muito menos oposição
fundamentalista do que Palocci na sua missão econômica.
O principal problema de Dirceu é conduzir o lado político
do projeto, sacrificando o desejo histórico de uma aliança
só de esquerda para formar uma grande coalizão majoritária.
O PT objeta menos a uma aliança política com Orestes
Quércia ou José Sarney do que a uma política
econômica que julga "fazer a vontade do mercado".
Nessa
tarefa, Dirceu não precisa do apoio de "estrangeiros", pode
contar com gente sua. Precisa, eventualmente, da ajuda política
de gente "do outro lado". Mas essa gente não alcança
o perímetro mais próximo do poder. É por isso
que, na reforma ministerial, a função operacional
da articulação política ficou com Aldo Rebelo,
do PCdoB, um aliado do lado esquerdo, que tem apenas dez votos na
Câmara, e não com o PMDB (77 votos), com o PTB (52)
ou com o PL (43).
Palocci
tem mais contato com os agentes econômicos, principalmente
dos setores financeiro e empresarial, e sofre mais pressões
deles, a maioria favorável à política econômica.
Dirceu lida mais com os agentes políticos e com setores do
partido, todos contrários à política econômica.
Na relação com os outros ministros, um é o
gestor do superávit fiscal; o outro, o formulador da estratégia
político-administrativa de construção de um
Estado mais forte e mais intervencionista, ponto central do projeto
histórico do partido. É o que está fazendo,
via reforma regulatória e, agora, com o comando direto do
aparato de controle administrativo, que retirou do Planejamento.
É previsível que Dirceu seja puxado mais para a visão
tradicional de esquerda e Palocci mais para o espectro contemporâneo
de escolhas políticas.
Essas
diferenças devem aparecer no relacionamento dos dois. Mas
o sucesso da tarefa de Palocci é essencial ao sucesso da
missão de José Dirceu. Eles todos sabem que não
é possível um Estado forte debilitado por uma crise
fiscal profunda. Enfrentar a crise fiscal do Estado lhes é
essencial. Diminuir a dívida é um passo crítico
na redução da dependência externa, objetivo
central do projeto petista clássico. Todos aprenderam com
a rejeição popular, na campanha de 1994, quando combateram
o Plano Real, que o povo não quer inflação.
Portanto, a estabilidade de preços é necessária
a seu projeto político.
As
divergências e as pressões existem e aumentarão.
Mas o consenso que se formou no núcleo dirigente, nascido
da necessidade, afasta a hipótese, no contexto atual, de
mudanças significativas na condução da política
macroeconômica. Se, porém, mudar o contexto, esse consenso
provavelmente será rediscutido.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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