Edição 1840 . 11 de fevereiro de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
Luta pelo poder?

"O ministro José Dirceu sempre teve um viés
mais
estatista e intervencionista. Antônio
Palocci, entretanto, não é nenhum liberal"

Suspeito que não seja exatamente uma disputa de poder o que rola entre os ministros José Dirceu e Antônio Palocci. Suspeito mais, que o projeto político-econômico de longo prazo dos dois seja o mesmo. Não são tanto as distâncias ideológicas que explicam as diferenças de posição entre os dois. Eles cumprem suas funções em condições muito distintas.


Ilustração Ale Setti


Palocci é dirigente do "núcleo duro", encarregado de uma política macroeconômica que não corresponde aos ideais, programa e competência do partido e seus quadros. Por isso, teve de recorrer a uma equipe "estrangeira" de alto nível: Marcos Lisboa, Joaquim Levy e Henrique Meirelles. No dia-a-dia dessa relação, adquiriu a confiança profissional e pessoal necessária para apostar nas soluções que sua equipe lhe apresenta, processá-las politicamente e sustentá-las no círculo palaciano, no qual, tudo indica, mantém a última palavra na matéria, ad referendum do presidente Luiz Inácio.

O paradigma macroeconômico do qual o ministro se socorre tem uma matriz que é, de fato, estrangeira e hostil ao pensamento petista. É natural e esperado que crie desconfiança e oposição nos setores do governo que continuam a ouvir e confiar nos economistas e intelectuais do PT e de seu entorno, que pensam o oposto do que recomenda a equipe econômica de Palocci.

O ministro José Dirceu sempre teve um viés mais estatista e intervencionista. Palocci, entretanto, não é nenhum liberal. É um quadro da esquerda também, apenas mais light que seus companheiros de governo. Tenta compatibilizar o projeto geral desse campo ideológico, encarnado pelo presidente e seu grupo palaciano, com uma política macroeconômica necessária e que lhes é estranha.

O ambiente do chefe da Casa Civil é outro, inteiramente político. Ele executa uma missão política que sempre esteve nos cálculos do grupo hoje no poder. Faz, portanto, o que sabe e estava planejado. Mesmo quando tem de fazer ajustes entre o desejado e o real, enfrenta muito menos oposição fundamentalista do que Palocci na sua missão econômica. O principal problema de Dirceu é conduzir o lado político do projeto, sacrificando o desejo histórico de uma aliança só de esquerda para formar uma grande coalizão majoritária. O PT objeta menos a uma aliança política com Orestes Quércia ou José Sarney do que a uma política econômica que julga "fazer a vontade do mercado".

Nessa tarefa, Dirceu não precisa do apoio de "estrangeiros", pode contar com gente sua. Precisa, eventualmente, da ajuda política de gente "do outro lado". Mas essa gente não alcança o perímetro mais próximo do poder. É por isso que, na reforma ministerial, a função operacional da articulação política ficou com Aldo Rebelo, do PCdoB, um aliado do lado esquerdo, que tem apenas dez votos na Câmara, e não com o PMDB (77 votos), com o PTB (52) ou com o PL (43).

Palocci tem mais contato com os agentes econômicos, principalmente dos setores financeiro e empresarial, e sofre mais pressões deles, a maioria favorável à política econômica. Dirceu lida mais com os agentes políticos e com setores do partido, todos contrários à política econômica. Na relação com os outros ministros, um é o gestor do superávit fiscal; o outro, o formulador da estratégia político-administrativa de construção de um Estado mais forte e mais intervencionista, ponto central do projeto histórico do partido. É o que está fazendo, via reforma regulatória e, agora, com o comando direto do aparato de controle administrativo, que retirou do Planejamento. É previsível que Dirceu seja puxado mais para a visão tradicional de esquerda e Palocci mais para o espectro contemporâneo de escolhas políticas.

Essas diferenças devem aparecer no relacionamento dos dois. Mas o sucesso da tarefa de Palocci é essencial ao sucesso da missão de José Dirceu. Eles todos sabem que não é possível um Estado forte debilitado por uma crise fiscal profunda. Enfrentar a crise fiscal do Estado lhes é essencial. Diminuir a dívida é um passo crítico na redução da dependência externa, objetivo central do projeto petista clássico. Todos aprenderam com a rejeição popular, na campanha de 1994, quando combateram o Plano Real, que o povo não quer inflação. Portanto, a estabilidade de preços é necessária a seu projeto político.

As divergências e as pressões existem e aumentarão. Mas o consenso que se formou no núcleo dirigente, nascido da necessidade, afasta a hipótese, no contexto atual, de mudanças significativas na condução da política macroeconômica. Se, porém, mudar o contexto, esse consenso provavelmente será rediscutido.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 

 
 
 
 
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