|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Entre
um Machado de Assis e outro
Contrastes
entre o autor e o homem suscitados
por uma nova biografia do grande escritor
Esse Machado de Assis... Um clássico, segundo Italo
Calvino, é uma obra que nunca esgota o que tem a dizer. É o caso
de Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Dom Casmurro.
Mas também uma vida, e especialmente a vida dos autores de clássicos
desse porte, nunca esgota o que tem a dizer. O Machado de Assis que ressurge na
biografia escrita pelo jornalista Daniel Piza (Machado de Assis Um Gênio
Brasileiro) nos diz coisas diferentes do Machado das biografias anteriores.
Esta é a primeira biografia em que o grande escritor aparece já
em plena posse da condição de crítico social a que foi ungido
por estudos como os de Roberto Schwarz ou Raimundo Faoro. O Machado de Daniel
Piza apresenta-se numa interação com seu tempo muito maior do que
na biografia pioneira de Lúcia Miguel Pereira, de 1936, ou na de Raimundo
Magalhães Júnior, de 1981. Nas palavras do novo biógrafo,
Machado "conseguiu descrever um mundo e, ainda, revelar sua dinâmica subjacente".
Esse Machado... Como aqui não
é lugar de resenha literária, fiquemos com sugestões menos
graves trazidas pela leitura do livro, rico de informações e análises,
de Daniel Piza. Esse Machado... Como todo ser humano de boa cepa, ei-lo um poço
de contradições. Em certa época, exerceu o cargo de examinador
dos textos que se candidatavam à montagem nos teatros. Quer dizer: foi
um censor. E a seu lápis não faltou rigor contra as situações
"vulgares" e os termos "impróprios". O mesmo Machado, na crítica
que escreveu, em 1878, a O Primo Basílio, de Eça de Queiroz,
mostra-se escandalizado com a "concupiscência" das personagens. Eis um autor
severo e moralista. No entanto, moralismo por moralismo, a adúltera Luísa
de O Primo Basílio acaba condenada por Eça à desgraça
e à morte. Já as adúlteras de Machado escapam ilesas
seja a Virgília das Memórias Póstumas, seja a Capitu
do Dom Casmurro, a considerar que foi mesmo adúltera.
O Machado dos livros prima por um ceticismo vizinho da anarquia. Brás Cubas
é um anárquico já a partir da dedicatória de suas
memórias, em louvor "ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu
cadáver". Já o Machado da vida real tinha a vocação
da ordem. Foi um exemplar funcionário do Ministério da Agricultura.
Um de seus chefes, Francisco Glycério feito ministro já no
período republicano , pintou-o como um subordinado que se desfazia
em mesuras. Era tão amigo das instituições que não
escapou à tentação de institucionalizar a literatura, fundando
a Academia Brasileira de Letras. Depois, opôs-se ao ingresso nela de tipos
como o poeta satírico Emílio de Meneses, conhecido pela língua
indomável e pelos hábitos boêmios. Machado dissecou, em seus
livros, a sociedade do privilégio e do pistolão que era a sociedade
do Segundo Reinado. Ele próprio, no entanto, agarrou-se ao que ela poderia
lhe dar. Cultivou relações com os políticos mais importantes
do período, e a alguns, como o visconde do Rio Branco, se ligou intimamente.
Na obra, o ceticismo visceral levava-o
a rir dos regimes políticos. É famosa a passagem do livro Esaú
e Jacó em que o dono da Confeitaria do Império tem o azar de
mandar pintar uma nova tabuleta para seu estabelecimento justamente às
vésperas da proclamação da República. E agora, que
fazer? Trocar o nome para Confeitaria da República? Mas... e se sobreviesse
nova reviravolta política? Uma idéia foi adotar o nome "Confeitaria
do Governo". Mas, nesse caso, as oposições não poderiam vir
a apedrejá-la? O jeito foi rebatizar a casa com o nome do proprietário.
Virou a "Confeitaria do Custódio".
O Machado de Assis pessoa física primou pelo respeito tanto à Monarquia
quanto à República. Na mocidade, escreveu versos em louvor de dom
Pedro II. Na maturidade, foi condecorado pela princesa Isabel. A proclamação
da República chocou-o, ainda mais do jeito como se deu por um golpe
militar que expulsou do país um imperador já velho e doente. Logo,
porém, conciliou-se com o regime. Em 1897, compareceu à festa de
inauguração do Palácio do Catete como sede da Presidência
da República. Em sua crônica seguinte, considerou que o evento deixou
"impressão forte e profunda" e caracterizou-se por "raro esplendor".
Não se tomem os contrastes entre vida e obra, aqui alinhavados meio ao
desalinho, como desrespeitosos ao mestre. Já não fosse que artista
algum tem a obrigação de viver de acordo com a obra, considere-se
que suas reações são de alguém que nasceu na pobreza,
com pele mestiça, e, ao contrário de seus personagens ociosos, teve
de batalhar cada centímetro de avanço na vida. Se aqui se registraram
os vaivéns entre o homem e o escritor, foi para justificar uma conclusão
suscitada pelo livro de Daniel Piza: que prato não seria o Machado de Assis
de carne e osso para o escritor Machado de Assis! Que grande personagem de Machado
de Assis não é o Machado de Assis de verdade que viveu no Rio de
Janeiro, escreveu livros, amou Carolina e não teve filhos: não transmitiu
a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. |