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Perfil
O desculpador-geral
da República
O biógrafo Fernando Morais tem um
problema: é muito solidário com
gente que deveria estar na cadeia

Jerônimo Teixeira
Cleo Veleda/Folha Imagem
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| Morais: Zé Dirceu pode ser para ele
o que Zélia foi para Fernando Sabino |
Pela obra publicada, o jornalista
e escritor Fernando Morais pode ser considerado um dos melhores
biógrafos em atividade no Brasil. Ele é autor de livros
como Olga, sobre a militante comunista Olga Benário,
e Chatô O Rei do Brasil, que narra a trajetória
do magnata da imprensa Assis Chateaubriand. Mas Morais acaba de
embarcar numa empreitada duvidosa: um anunciado volume de memórias
do petista José Dirceu, deputado cassado e homem-chave no
escândalo do mensalão. Ele atuará como copidesque
de luxo da obra e já vem mexendo os pauzinhos para ajudar
o ex-ministro a descolar uma editora. Os dois viraram amigos do
peito. Recentemente, Morais esteve com Dirceu numa festança
no Rio de Janeiro. Ele também levou o petista a tiracolo
para o sul da França, para comemorar o réveillon em
companhia do escritor Paulo Coelho de quem, aliás,
também faz uma biografia. Ao fazer par com Dirceu, Morais
pode estar compondo o seu Zélia Uma Paixão.
O livro, para quem não lembra, foi aquele em que o consagrado
romancista Fernando Sabino relatou os amores de Zélia Cardoso
de Mello e Bernardo Cabral, ministros do malfadado governo Collor.
Um constrangimento completo.
É uma surpresa Morais
se envolver num projeto como esse? Nem tanto. Há tempos ele
dá demonstrações de que os célebres
e poderosos vivos lhe são mais convenientes do que os personagens
históricos. Em 2005, lançou Na Toca dos Leões,
sobre o publicitário Washington Olivetto e sua agência
de propaganda. Atualmente, além de Coelho e Dirceu, coleta
material sobre o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA).
Como sabem todos os biógrafos, a tentação de
ser condescendente com os pecados de um personagem vivo está
sempre à espreita sobretudo quando o biografado colabora
na coleta de informações. O risco talvez seja maior
ainda para alguém como Morais, sempre muito generoso com
aqueles de quem se aproxima uma espécie de "desculpador-geral
da República".
Ainda nos anos 70, Morais escreveu
um livro apologético sobre o regime comunista de Cuba. Sempre
que pode, sai a campo para minimizar as barbáries do ditador
Fidel Castro, de quem é próximo. Também é
amigão de Hugo Chávez, o líder populista que
está levando a Venezuela ao buraco. Nos anos 80, Morais aderiu
de corpo e alma à turma do ex-governador paulista Orestes
Quércia. Foi inclusive secretário em sua gestão,
sobre a qual pairavam suspeitas de corrupção (as loas
ao quercismo cessaram em 2002, quando ambos romperam). Mais tarde,
ele se solidarizou com o ator Guilherme Fontes, aquele que captou
o equivalente a 30 milhões de reais em incentivos fiscais
para adaptar Chatô para o cinema e até
hoje não entregou o filme. Morais não tem mesmo do
que reclamar: ele recebeu seus direitos autorais em dia.
Marlene Bergamo/Folha Imagem
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| Moraes, Coelho e Zé Dirceu na França:
réveillon farto |
Curiosamente, todos os projetos
de Morais estão um pouco emperrados. O escritor já
recolheu uma farta documentação sobre Coelho e ACM.
São montanhas de papéis e horas de depoimentos
só com o autor de O Alquimista são cerca de
160. Mas a redação não deslanchou em nenhum
dos casos. Para dar um empurrãozinho no biógrafo,
Coelho disse um basta neste fim de ano: não vai gravar mais
entrevistas. O livro deve ser entregue até meados de 2006.
O caso com José Dirceu também está complicado.
Os dois se entenderam de forma que Morais prestasse uma consultoria.
Caberia ao próprio mentor do mensalão pôr suas
memórias no papel. Mas ele ainda não escreveu uma
linha.
"O homem está travado",
disse Morais a Coelho, como desculpa para arrastar sua nova companhia
aos festejos e ver se ele se soltava. Talvez a questão seja
outra: desde que virou um cadáver político, o ex-ministro
parece mais interessado em aproveitar a vida. Logo depois de cassado,
ele passou uns tempos na flauta, num apartamento de luxo na Zona
Sul do Rio de Janeiro pertencente à ex-mulher de Walter Appel,
dono do Banco Fator, que em 2004 teve problemas com as autoridades
do mercado financeiro. Dirceu e a mulher também viajaram
para a França no fim do ano de primeira classe. Pelo jeito,
dinheiro não é problema.
Na França, Morais introduziu
o político recém-caído em desgraça no
mundo de Coelho que acaba de embolsar 800.000 dólares
para se transferir para uma nova editora no Brasil, a Planeta. O
trio degustou iguarias como coquilles st. jacques com trufas
e vinhos caros (o ex-ministro acostumou-se a tomar tintos acima
de 300 reais). Amigos de Paulo Coelho não gostaram de ver
o escritor ao lado de José Dirceu. Acham que é má
propaganda. Acham também que Morais se aproveitou de sua
recente proximidade com o escritor para jogar em causa própria.
Coelho teria sido usado por ele, em suma. De fato, ele deve se cuidar:
na próxima virada de ano, Morais bem pode querer levar um
bode como Hugo Chávez a tiracolo.
Colaboraram
Sérgio Martins e Antonio Ribeiro
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Mui amigo
FIDEL CASTRO
Ficha corrida:
o ditador comunista de Cuba reprime e fuzila opositores
O que Fernando
Morais disse sobre ele: "Continuo solidário
à Revolução Cubana. O país
tem problemas, e o comandante Fidel sabe. Mas Cuba está
a 160 quilômetros dos Estados Unidos. Na hora
em que piscar o olho, os Estados Unidos invadem"
HUGO CHÁVEZ
Ficha corrida:
populista, o presidente da Venezuela trouxe pobreza
e menos democracia ao país
O
que Fernando Morais disse sobre ele: "O que
está acontecendo na Venezuela hoje é historicamente
a coisa mais importante que já aconteceu no mundo
desde a Revolução Cubana"
ORESTES QUÉRCIA
Ficha
corrida: ex-governador paulista, fez uma gestão
marcada por suspeitas de corrupção
O
que Fernando Morais disse sobre ele: "Fui
secretário de Cultura no governo dele e foi uma
maravilha. Se fosse para fazer aquilo de novo, eu voltaria
à política" (em 2000, dois anos antes
de romper com Quércia)
GUILHERME FONTES
Ficha
corrida: seu filme Chatô, que consumiu
cerca de 30 milhões de reais em dinheiro de renúncia
fiscal, não foi concluído até hoje
O
que Fernando Morais disse sobre ele: "A mídia
passou a imagem de que o Guilherme enriqueceu com dinheiro
público, mas ele foi vítima de uma campanha
brutal. Ele é uma sardinha que entrou no mar
de tubarões dos cineastas"
JOSÉ
DIRCEU
Ficha
corrida: o ex-ministro de Lula foi cassado por
chefiar o mensalão
O
que Fernando Morais disse sobre ele: "Ninguém
chega aos 60 anos tendo dedicado os melhores
anos de sua vida a uma idéia para emporcalhar
a biografia por causa de dinheiro"
Fotos José Goitia/AP,
Marcelo Hernande/Amilton Michida/AE,
João Cordeiro Jr./Folha Imagem, Ana Araújo
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