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Urbanismo
A solução é derrubar
A prefeitura de São Paulo vai demolir
a parte mais degradada do centro da cidade
e oferecer os terrenos à iniciativa privada

Camila Antunes
Filipe Araújo/AE
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O ENDEREÇO
DO CRIME
A área a ser demolida e incluída na zona
de benefícios fiscais pela prefeitura paulistana ficou
conhecida como Cracolândia, por reunir traficantes e usuários
da droga que é sinônimo de pobreza e degradação
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Cesar Diniz/AE
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O centro de uma cidade deveria
ser como uma sala de visitas, onde se mostra o que se tem de melhor
em casa. O centro de São Paulo, no entanto, parece um depósito
de lixo. Sujo e degradado, foi abandonado por famílias, empresas
e bancos. Seus imóveis caindo aos pedaços foram invadidos
pela prostituição, pelo tráfico de drogas e
pelo comércio de produtos piratas. A decadência começou
nos anos 70, quando Paulo Maluf, então prefeito, construiu
um viaduto de 3 quilômetros, o Minhocão, para resolver
problemas de tráfego. A obra devastou o valor dos imóveis
próximos, mas os engarrafamentos continuaram. Os desastres
se sucederam nas administrações seguintes. Os calçadões
criados por Olavo Setúbal em 1976 dificultaram o acesso aos
escritórios e às lojas, levando a que muitos deles
fechassem as portas ou se mudassem para os bairros. Para completar
a degradação, Marta Suplicy instalou 400 famílias
sem-teto em imóveis abandonados, enterrando de uma vez a
possibilidade de recuperar a economia da região.
Fotos divulgação
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CARTÃO-POSTAL
No centro de Chicago, um estacionamento gigantesco deu
lugar a jardins e a um palco para shows criado pelo arquiteto
Frank Gehry (acima) |
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Alguns abnegados que ali permanecem
ainda tentam recuperar o centro de São Paulo, estimulando
a reforma de fachadas e fiscalizando a limpeza dos principais logradouros.
Nos últimos anos, os governos da capital e do estado de São
Paulo recuperaram muitos monumentos do centro, como a Estação
da Luz, a Pinacoteca e a Sala São Paulo, usada para concertos
de música erudita. Nenhuma dessas medidas interrompeu a degradação
do centro, que, sem alternativa econômica, continuou sendo
um reduto de pobreza. A ruína do centro paulistano é
tamanha que só há uma maneira de resolver o problema:
a demolição pura e simples de boa parte dele. O prefeito
José Serra já tomou essa iniciativa em relação
ao pedaço mais degradado, a Cracolândia. A região
engloba dez quarteirões distribuídos em 150.000 metros
quadrados próximos à Estação da Luz.
Como avisa o nome, é reduto de traficantes e viciados
e prostitutas e ladrões, obviamente. A área será
desapropriada e, em seguida, leiloada a empresas interessadas em
se instalar no centro. Todos os 850 imóveis desses quarteirões
poderão ser demolidos nenhum deles, registre-se, de
valor histórico. "São apenas um antro que atrapalha
o funcionamento da cidade", diz o subprefeito Andrea Matarazzo,
que chefia o projeto. Uma área maior, que compreende a Cracolândia
e seu entorno, tornou-se uma zona de incentivo fiscal. Quem investir
nos seus 25 quarteirões cerca de 250.000 metros quadrados
terá desconto de até 60% em todos os tributos
municipais.
Arquivo Nacional/Acervo Correio da Manhã
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NADA SAUDOSA
MALOCA
Na década de 60, a favela Praia do Pinto, no
bairro carioca do Leblon, foi erradicada. Em seu lugar, surgiu
um condomínio para a classe média |
Oscar Cabral
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Como não tem dinheiro em
caixa para tocar a idéia, a prefeitura paulistana recorreu
a uma peculiar engenharia financeira para reformar o centro. As
desapropriações só serão pagas depois
que o dinheiro arrecadado com a venda dos terrenos entrar no caixa
municipal. Ou seja, depois que os atuais ocupantes dos imóveis
já estiverem na rua. A idéia só dará
certo, portanto, se aparecerem compradores para os quarteirões
da Cracolândia. Para garantir o sucesso da licitação,
Andrea Matarazzo assedia potenciais investidores para convencê-los
a participar da concorrência. Sua meta é atrair gráficas,
laboratórios farmacêuticos, escolas e, principalmente,
call centers, que poderão aproveitar uma das maiores concentrações
de linhas telefônicas por metro quadrado do país. Cinqüenta
empresas já manifestaram interesse em transferir-se para
a região. Entre elas, está a Fundação
Getulio Vargas, que pretende construir um campus universitário
por lá.
Outras cidades já recorreram
a medidas drásticas para recuperar seus centros degradados.
Entre elas, Nova York e Londres. Chicago transformou um estacionamento
gigantesco num jardim com esculturas e um palco de shows projetado
por um dos mais famosos arquitetos vivos, Frank Gehry. Arrasada
por quinze anos de guerra civil, Beirute, a capital do Líbano,
consumiu 12 bilhões de dólares na reconstrução
de cada um de seus edifícios, ruas e monumentos. A Cidade
do México saiu de uma situação mais caótica
do que a de São Paulo. Também lá, o centro
era o endereço principal do crime. Pior: em 1985, um terremoto
condenou a estrutura de 1.500 edifícios históricos,
muitos deles construídos no século XVI. Uma década
depois, empresários mexicanos doaram 1 bilhão de dólares
para a recuperação da área. A iniciativa privada
foi acompanhada pela do poder público, que restaurou calçadas
e melhorou o policiamento. Atualmente, começam a ser construídos
apartamentos de luxo na região.
Fotos Aymantrawi
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DEPOIS DA TERRA
ARRASADA
Beirute, a capital do Líbano, renasceu dos escombros
após quinze anos de guerra civil. A reconstrução,
bancada pela iniciativa privada, custou 12 bilhões de
dólares |
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Mesmo no Brasil já foram
feitas grandes reformas que mudaram a paisagem urbana. O Rio de
Janeiro é pródigo nessas intervenções.
Em 1902, o presidente Rodrigues Alves derrubou 1.600 edifícios
de cortiços e abriu no lugar novas avenidas, ruas e praças.
Até hoje, essas são as vias onde ficam as empresas
mais importantes da cidade. O problema é que o bota-abaixo
de 1902 tirou os pobres do centro, mas, como sói acontecer
em terras brasileiras, não foi seguido de uma solução
para essa horda que acabou se refugiando nos morros, iniciando
a formação das favelas. O Aterro do Flamengo é
fruto de uma intervenção bem planejada dos anos 50.
Nos anos 60, a favela da Praia do Pinto, no meio do Leblon, foi
eliminada para dar lugar a um conjunto de apartamentos de classe
média que se tornou conhecido como Selva de Pedra.
Um dos objetivos da demolição
de parte do centro de São Paulo é reavivar a idéia
de espaço público. O tecido urbano não pode
ser dividido ou degradado sem mais nem menos por soluções
da conveniência de ricos ou pobres. Assim como seria absurdo
cercar os bairros elegantes com muros eletrificados, é também
um despautério erguer paredes de lixo em torno dos centros
empobrecidos. Evidentemente, os demagogos de plantão (veja
quadro) classificam iniciativas como a da prefeitura
paulistana de "higienistas". É um ponto de vista completamente
equivocado. "Não se resolvem problemas urbanos sendo benevolente
com os pobres, porque a única forma de eles saírem
da miséria é recuperar a economia", diz o sociólogo
Richard Sennett, da Universidade Harvard. Para os sem-teto da área
central que atualmente dormem ao relento ou em buracos, a prefeitura
de São Paulo oferece abrigos limpos e nos quais há
vagas de sobra (por isso é só mais um ato de demagogia
comparar o que está em curso na capital paulistana ao que
ocorreu no Rio de Janeiro de 1902). O centro paulistano só
estará recuperado quando a iniciativa privada acreditar que
poderá se instalar nele e auferir lucros com isso
empregando decentemente, inclusive, pobres que hoje sobrevivem de
expedientes informais. À demolição, pois.
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O que mudará
no centro de São Paulo
ÁREA LARANJA
(a ser derrubada)
EXTENSÃO
150 000 metros quadrados
10 quarteirões
COMO É HOJE
500 dos 850 imóveis da região estão
irregulares, muitos servem à prostituição
e ao tráfico de drogas
ÁREA VERDE (que
terá incentivo fiscal)
EXTENSÃO
250 000 metros quadrados
25 quarteirões
COMO É HOJE
Concentra o comércio de bugigangas e de
eletrônicos, em grande parte piratas. Quem investir
nessa região só pagará metade dos
impostos municipais
Fonte: Prefeitura
de São Paulo
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O
PECADO DA DEMAGOGIA
Antonio Milena
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| Lancelotti, seus pupilos e paróquia:
protegidos por cerca elétrica |
O padre Júlio
Lancelotti, líder de uma organização
política ligada ao PT chamada Pastoral da Rua
(atenção, papa Bento XVI), comete todos
os dias um pecado mortal o da demagogia. Ele
é o criador de uma categoria que leva o nome
de "Povo da Rua". É a denominação
de Lancelotti para mendigos, menores abandonados e loucos
que vagam pelas ruas de São Paulo. A pretexto
de defender o "Povo da Rua", o padre quer transformar
uma situação precária a
dos sem-teto e que tais em permanente. Toda e
qualquer iniciativa para colocar esse pessoal em abrigos,
custeados pela prefeitura, limpar os logradouros públicos
de barracas e excrementos e livrar os transeuntes do
risco de assaltos protagonizados por pivetes é
torpedeada por Lancelotti com a classificação
de "prática higienista". Os motivos do padre
estão longe de ser religiosos. O que ele quer
mesmo é ter à sua disposição
um rebanho de manobra para fazer política.
Rogerio Cassimiro/Folha
Imagem
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| A calçada da passagem que leva
à Avenida Paulista: por que o padre não vai morar
lá? |
Se Lancelotti fosse
mesmo sensível às necessidades do seu
"Povo da Rua", começaria por oferecer abrigo
na igreja da qual é pároco: a de São
Miguel Arcanjo, no bairro paulistano da Mooca. A igreja,
porém, tem grades nas portas e cerca elétrica
nos muros um aparato suficiente para definir
aquela casa de Deus como um "bunker antimendigo". "Antimendigo"
é a expressão usada por ele e por
jornalistas amigos seus para classificar pejorativamente
a iniciativa da prefeitura de São Paulo de colocar
rampas de superfície áspera sob o viaduto
que leva à Avenida Paulista. A administração
municipal recorreu a esse expediente para desalojar
os marginais que, instalados no local, assaltavam as
pessoas que transitam por ali. Lancelotti continua a
esbravejar que "as rampas antimendigo" fazem parte de
uma "visão higienista". Pois bem, propõe-se
aqui um acordo: a prefeitura retira as rampas e o padre
abandona o seu bunker e passa a morar debaixo do viaduto.
Lá, poderá controlar os assaltantes e
encontrar a santa felicidade junto ao "Povo da Rua".
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