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Brasil
O pacote que é
uma vergonha
Trinta bilhões de reais serão gastos
em obras inúteis ou improvisadas,
para tentar salvar Lula do vexame
nas próximas eleições

Otávio Cabral
Ilustração Baptistão
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Ano eleitoral é ano de
pacote de obras e período de abrir as burras de dinheiro
público. Todo governante que quer se reeleger segue essa
cartilha. Mas Lula mais uma vez surpreendeu negativamente. Como
resume um editorial do jornal O Estado de S. Paulo: "O presidente
Lula acaba de lançar o mais descarado pacote eleitoral da
história brasileira, o de orçamento mais caro e o
mais ostensivamente improvisado". O governo gastará cerca
de 30 bilhões de reais para tentar remendar o estrago causado
pelo descalabro administrativo dos últimos três anos.
O dinheiro será empregado em obras de grande visibilidade,
como hidrelétricas e ferrovias, e numa megaoperação
tapa-buracos nas rodovias federais. Para não falar, é
claro, dos tais programas sociais que consistem em colocar dinheiro
nas mãos dos pobres. Ainda que com objetivos eleitoreiros,
as obras seriam uma boa iniciativa, caso resultassem em benefícios
concretos e duradouros para o país. Não é disso
que se trata. A farra bilionária só servirá
mesmo para maquiar os aspectos mais feios da falta de infra-estrutura
brasileira.
O mais curioso é que Lula
finge não ser candidato. Na semana passada, na entrevista
ao Fantástico, da Rede Globo, disse que ainda não
decidiu se vai disputar a reeleição em outubro. A
decisão, contudo, está mais do que sacramentada. Lula
já começou a escolher a equipe de campanha, organiza
a agenda de acordo com o calendário das eleições
e prepara uma estratégia para tentar convencer os cidadãos
de que sua administração conseguiu conciliar a estabilidade
econômica com progresso, o que justificaria um segundo mandato
é aí que entram os 30 bilhões de reais.
A verdade é que não resta alternativa ao presidente
a não ser concorrer. As últimas simulações
feitas pelos institutos de pesquisa mostram que, se as eleições
fossem hoje, Lula seria derrotado e dificilmente o quadro
mudará até outubro. Se desistisse da disputa, no entanto,
o presidente estaria soterrando sua carreira política e deixando
em agonia o próprio PT uma saída por demais
humilhante e que poderia ser interpretada como confissão
de culpa.
E lá vamos nós
gastar dinheiro. Quer dizer, lá vai Lula gastar o nosso dinheiro.
O destino dos recursos do pacotão está sendo definido
diretamente pelo presidente da República. Tudo a toque de
caixa, bem ao estilo petista de administrar. Na véspera do
Natal, por exemplo, Lula convocou o ministro dos Transportes, Alfredo
Nascimento, para uma reunião no Planalto. Determinou a ele
que providenciasse um plano emergencial de recuperação
das rodovias. Apenas três dias depois, o ministro retornou
ao gabinete do presidente com a proposta de investir 440 milhões
de reais para tapar buracos em 26.000 quilômetros de rodovias.
O presidente deu sua chancela, mas o próprio ministro dos
Transportes, em um lapso de sinceridade, admitiu que os remendos
têm um prazo de validade curto, não devendo ultrapassar
o fim do ano. O engenheiro Ivan Whately, coordenador da divisão
de transportes do Instituto de Engenharia de São Paulo, explica
que as estradas brasileiras estão tão envelhecidas
que a sua base precisa ser recuperada. "É preciso refazer
a drenagem, recuperar os pisos inferiores, para só então
recolocar o asfalto", afirma Whately. Ou seja, sem isso, os 440
milhões de reais vão literalmente para o buraco. Os
especialistas afirmam que um trabalho sério de recuperação
das estradas consumiria 1 bilhão de reais e levaria sete
anos.
Na semana passada, dando prosseguimento
à formatação do pacote eleitoral, Lula reuniu
ministros para anunciar um conjunto de obras de infra-estrutura
que deveriam sair do papel neste ano. São seis hidrelétricas
e duas ferrovias. O anúncio, de novo, foi precipitado no
caso das hidrelétricas. Como não convidaram o Ministério
do Meio Ambiente para a reunião, ninguém lembrou que,
para iniciar a construção de uma hidrelétrica,
o governo precisa de licença ambiental. Das seis obras anunciadas,
apenas três estão em condições de realmente
ser começadas, já que uma, no Paraná, está
embargada exatamente por problemas ambientais e duas, em Rondônia,
dificilmente terão o processo de licenciamento concluído
a tempo. Vale lembrar que no mês passado o governo fracassou
em atrair investidores privados para o leilão de grandes
projetos de usinas.
O cronograma de obras prevê,
ainda, o anúncio de liberação de dinheiro para
a transposição das águas do Rio São
Francisco, outra gastança que só servirá mesmo
para transpor verbas para os bolsos dos coronéis nordestinos.
O governo criou até uma espécie de comitê de
inaugurações, cujos responsáveis são
os ministros Jaques Wagner e Luiz Dulci, que já estão
agendando a inauguração de quatro universidades federais
e 25 escolas técnicas. Agora vai.
"O Lula está com a manga
arregaçada. É um candidato em campanha", disse a VEJA
um ministro próximo ao presidente. Além das obras,
Lula pretende viajar o país inteiro e, é lógico,
investir mais em publicidade. A verba para 2006 é 46% maior
que a do ano passado. Isso mesmo, leitor, 46% maior do que aquela
do carequinha. O presidente também assumiu as articulações
políticas. Sua candidatura será oficialmente anunciada
em março. Até lá, pretende cuidar pessoalmente
da composição de alianças, missão que,
na eleição passada, foi executada por José
Dirceu com a ajuda das malas do tesoureiro Delúbio Soares.
Este talvez seja o maior de todos os problemas políticos
do presidente em busca da reeleição: a falta de malas
de dinheiro. Hoje, do amplo leque de partidos que apoiaram sua eleição
e sustentaram o início de seu mandato no Congresso, Lula
conta apenas com os nanicos PSB e PCdoB para a reeleição.
O principal alvo da cobiça do governo é o PMDB. Com
ou sem alianças, Lula não desiste mais da campanha.
Conforme disse a um de seus ministros antes de sair de férias,
na semana passada, quer ao menos entregar o cargo ao sucessor com
um gordo cartel de realizações, uma espécie
de legado de governo do PT. Acha que, assim, salva o partido da
morte prematura e preserva sua biografia, para, se for o caso, voltar
a concorrer mais adiante. Lula é mesmo um sonhador
com o dinheiro alheio.
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