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Brasil
A nova conta
secreta de Duda
Autoridades americanas descobrem
conta milionária e clandestina que o
publicitário do PT mantém num banco
da Flórida. Em novembro, a filha de
Duda tentou sacar todo o dinheiro

Alexandre Oltramari
O publicitário Duda Mendonça
foi responsável por um dos momentos mais eletrizantes da
CPI que investiga a corrupção no governo petista.
Em agosto passado, num depoimento de dez horas no qual chegou a
chorar, o marqueteiro responsável pela campanha presidencial
de Lula confessou que seu serviço foi pago por meio de operações
clandestinas no exterior. Dos 25 milhões de reais que cobrou
para fazer cinco campanhas para o PT em 2002, entre elas a do presidente
Lula, 10,5 milhões foram depositados em uma conta secreta
nos Estados Unidos, em nome de uma empresa de fachada, a Düsseldorf.
"O dinheiro era claramente de caixa dois. Nós sabíamos,
mas não tínhamos outra opção. Queríamos
receber", disse o publicitário, em tom de madalena arrependida,
atribuindo toda a responsabilidade da operação ao
lobista Marcos Valério. Duda não estava falando toda
a verdade. No fim do ano passado, as autoridades americanas descobriram
uma nova conta secreta e milionária operada por ele nos Estados
Unidos. A conta foi bloqueada depois que a filha do publicitário,
Eduarda Mendonça, foi flagrada tentando sacar todo o dinheiro.
Desde então, investigações sigilosas estão
sendo feitas pelo Ministério Público e pela Polícia
Federal, para tentar rastrear a nova conta do publicitário,
aberta em um banco de Miami.
A notícia sobre a existência
da conta omitida por Duda chegou ao Brasil em 17 de novembro passado,
por meio da promotoria de Nova York. Por telefone, o promotor Adam
Kaufmann informou à Procuradoria da República a descoberta
de uma outra conta do publicitário, que, assim como a Düsseldorf,
foi aberta em um banco na Flórida e estava em nome de uma
empresa de fachada. Por intermédio das autoridades monetárias
americanas, Kaufmann, que integra um grupo que investiga lavanderias
de dólares, soube que a filha do marqueteiro, a também
publicitária Eduarda Mendonça, tentou resgatar todo
o dinheiro disponível e fechar a conta. Eduarda só
não teve sucesso porque o nome do pai consta de uma relação,
chamada nos Estados Unidos de watching list, na qual estão
pessoas suspeitas de lavagem de dinheiro. Duda passou a figurar
na relação depois que admitiu ser dono da conta Düsseldorf,
usada para receber dinheiro do PT. Desde então, todas as
operações ligadas a ele nos Estados Unidos são
obrigatoriamente acompanhadas. Além disso, a natureza igualmente
estranha da operação tentada por Eduarda, com resgate
total de fundos e encerramento da conta, levou o banco a bloquear
por alguns dias o dinheiro e comunicar o fato às autoridades
americanas.
J. F. Diorio/AE
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| O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,
foi informado da existência da conta |
A existência de outra conta
clandestina de Duda no exterior é comprometedora para o marqueteiro
e pode acabar respingando de novo no partido do presidente Lula.
Primeiro, sugere que a estrutura de financiamento das campanhas
petistas pode ter sido bem mais ampla do que se imagina. Depois,
revela que o marqueteiro do presidente é reincidente na arte
de ludibriar o Fisco e sonegar impostos, já que a manutenção
de uma conta no exterior não declarada à Receita Federal
é um crime previsto em lei que pode render até cinco
anos de cadeia. E Duda sabe disso como ninguém. Logo após
ter confessado o recebimento de dinheiro do valerioduto na conta
da Düsseldorf, o publicitário achou que poderia ser
preso. Durante uma semana, passou a acordar de madrugada e a sair
de casa antes das 6 horas da manhã, horário a partir
do qual a polícia pode entrar na casa de um suspeito para
prendê-lo. Aconselhado por advogados, Duda pagou 4,3 milhões
de reais em impostos à Receita Federal, para evitar um processo
por sonegação. Ele já foi informado de que
a sua segunda conta clandestina foi descoberta, mas, ao contrário
da vez passada, não parece muito preocupado. Em vez de se
esconder, ele comemorou tranqüilamente o réveillon na
sua casa de praia em Maraú, na Bahia. Duda sabe que, apesar
da ação imediata da Justiça americana, por
aqui as coisas não são assim tão rápidas
e ele ainda pode contar com a colaboração de alguns
amigos no poder.
Celso Junior/AE
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| Valério: investigadores apuram se a nova conta
também foi usada para receber recursos do valerioduto |
O promotor Adam Kaufmann advertiu os colegas brasileiros que o bloqueio
do dinheiro de Duda era temporário. Para congelar os recursos
com segurança, o Ministério Público deveria
encaminhar um pedido formal aos Estados Unidos. Os tratados de cooperação
internacional assinados entre Brasil e Estados Unidos estabelecem
que isso deve ser feito pelo Departamento de Recuperação
de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional
(DRCI), subordinado ao ministro da Justiça, Márcio
Thomaz Bastos. VEJA apurou com uma fonte do DRCI, que pediu para
não ser identificada, que a solicitação de
bloqueio da conta de Duda foi de fato enviada aos Estados Unidos.
Mas o documento foi considerado tão desprovido de consistência
pelos americanos que até hoje, passados quase dois meses
desde a descoberta do dinheiro, a conta ainda não foi bloqueada
em definitivo. Estranhamente, o pedido não nominava nem o
banco nem o número da conta. Isso, no mínimo, deu
a Duda tempo suficiente para fazer o que já fizera antes
com a conta Düsseldorf, que, embora tenha recebido depósitos
de 10,5 milhões de reais, tinha saldo de apenas 175 dólares
quando finalmente foi bloqueada por solicitação das
autoridades brasileiras. Não se sabem ainda as razões
que levaram o DRCI a fazer um pedido juridicamente tão desleixado.
Procurada por VEJA, a coordenadora-geral
do DRCI, Wanine Santana Lima, que era procuradora da Fazenda Nacional
antes de assumir a nova função, não quis comentar
o caso que envolve a nova conta do publicitário. "Esse assunto
é confidencial. A única coisa que eu posso dizer é
que todas as informações foram repassadas às
autoridades competentes e que elas se manifestaram imediatamente.
Todos os pedidos foram devidamente encaminhados", diz. Em novembro
passado, um relatório da Polícia Federal, divulgado
pelo jornal Folha de S.Paulo, acusava Wanine de atrapalhar
uma missão de delegados e agentes enviados aos Estados Unidos
para obter documentos sobre a conta já conhecida de Duda
Mendonça. "Enquanto as equipes policiais trabalhavam nas
investigações no Brasil e operacionalizavam a ida
a Nova York, a representante do DRCI ,Wanine Lima, encontrava-se
no exterior buscando influenciar as autoridades americanas a não
repassar as informações solicitadas às autoridades
de investigação constituídas e legitimadas",
dizia o relatório. É uma acusação grave
que agora ganha um forte ingrediente para reforçar a suspeita
de que Duda conta com uma malha de proteção dentro
do governo.
Ailton de Freitas/Ag. O Globo
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| Wanine Lima, responsável pelo pedido de bloqueio:
acusada pela PF de proteger Duda |
Desde que expôs ao país as ligações do
PT com o valerioduto no exterior, Duda Mendonça se tornou
um problema. Para mostrar que nada tinha a ver com as maracutaias
do publicitário, o governo cancelou quase todos os contratos
com a agência de Duda. Desde então, o publicitário
e o governo iniciaram uma luta nos bastidores. A Petrobras, principal
cliente de sua agência, chegou a anunciar que não renovaria
o contrato com a agência do publicitário. O marqueteiro
reagiu espalhando boatos de que estava disposto a voltar à
CPI e contar o que sabia. Na noite de 10 de outubro passado, Duda
Mendonça foi recebido por Lula na Granja do Torto, onde passou
mais de uma hora a sós com o presidente. Foi o primeiro encontro
dos dois desde o início do escândalo. Dois amigos de
Duda ouvidos por VEJA disseram que Lula ofereceu ao marqueteiro,
como contrapartida de uma eventual quebra de contrato com a Petrobras,
campanhas eleitorais do PT em 2006. Duda disse que não faria
mais campanhas políticas e exigiu a manutenção
da conta da estatal. A pressão deu certo. No fim de novembro,
a empresa prorrogou o contrato por mais um ano.
A nova conta secreta de Duda
Mendonça, mesmo que a eventual negligência das autoridades
brasileiras tenha permitido a migração do dinheiro
para algum outro lugar, é uma pista importante para a polícia
e o Ministério Público descobrirem a amplitude do
esquema de financiamento clandestino das campanhas petistas. Se
ela foi aberta antes da Düsseldorf, fica evidente que eram
falsas tanto as lágrimas do publicitário como a indignação
que ele tentou demonstrar ao revelar que foi coagido a abrir uma
conta no exterior como única forma de receber seus honorários.
Se a conta na Flórida foi aberta depois, é sinal de
que ele aprovou o mecanismo, o que deixa seu depoimento mais falso
ainda. Além disso, restará a suspeita de que o PT
continuou abastecendo o publicitário por linhas de crédito
clandestinas. O empresário e a filha serão chamados
a prestar depoimento à Justiça. É possível
que Duda também seja convocado a depor novamente na CPI,
que tenta descobrir o destino da bolada de 337 milhões de
reais que o publicitário movimentou em suas contas oficiais,
no Brasil. Procurado por VEJA na semana passada, Duda Mendonça
não quis falar sobre o assunto. Na sexta-feira, ele embarcou
em sua lancha para uma pescaria em águas profundas do litoral
da Bahia, em busca de um marlim-azul peixe grande, cobiçado,
difícil de fisgar.
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