Edição 1938 . 11 de janeiro de 2006

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Todo o material publicado nesta página representa o ponto de vista parcial e preconceituoso de um indivíduo do século passado. Se você achar aqui afirmativas que lhe pareçam sexistas, xenófobas, racistas ou, de qualquer outra maneira, ofensivas a seus pontos de vista, pare de ler imediatamente. Ou prossiga a seu próprio risco.

AGORA VAMOS

Falei e disse, em 2005. Repito agora. É visível – o comunismo vem aí. Ou melhor, já está aí. Depois de uma experiência de 70 anos dominando a Rússia, agrupando-a com vários outros países, regiões e etnias, Letônia, Geórgia, Azerbaijão, eslavos, pra formar a gloriosa União Soviética, parecia que tínhamos chegado . Pois tinha ainda, em muitos países, a "infiltração", pra consumar a igualdade absoluta. Global. Só que havia um erro fundamental na filosofia comuna: a igualdade vinha por baixo, através da pobreza. Quer dizer, todo mundo ia ser igualmente pobre. Ora, os ricos não acreditavam que iam ser. E os pobres não queriam ser. Pois é, o erro foi o comunismo bater de frente com o capitalismo. Sem perceber que o capitalismo ia comendo o comunismo pelas beiradas.

Quase ao mesmo tempo em que o comunismo crescia (em 1917, na Rússia, uns 100 milhões de pessoas; em 1949, na China, 1 bilhão), o capitalismo, sempre esperto, inventava e assumia, assim como quem não quer nada, o primeiro grande símbolo comunista universal e perene, o Blue Jeans.

Cujo nascimento o Google explica de várias maneiras, sem saber que vem das calças usadas por marinheiros de Gênova (pelo francês, Gênes). O mesmo Google, Bíblia dos Insensatos, dá o grande estouro do Jeans acontecendo durante o baby boom dos anos 60.

Pois revelo. Em 1948 o Blue Jeans já andava pelas ruas de Nossa Senhora de Los Angeles de Porciúncula. Carmem Miranda, o físico César Lattes, Vinicius de Moraes e eu estávamos lá. O Google ainda não.

Agora, e vocês todos participam, a grande dominação comunista também é capitalista – o celular. Que, ao contrário do Jeans, não partiu de baixo pra cima (dos trabalhadores pro resto do universo), mas de cima pra baixo (elite primeiro, logo o proletariado).

É o Paraíso. A eficiência capitalista aliada à utopia comunista. A China já está nessa mistura – 1/6 da humanidade. Um bilhão, duzentos e vinte milhões de gentes.

Para a felicidade universal temos apenas que acabar com a guerra no Iraque, e outras dez por aí, a violência do tráfico de drogas e da política, erradicar a corrupção do chefe de Estado e do guarda da esquina, cuidar da camada de ozônio, evitar os tsunamis, controlar os efeitos da poluição – gelo nos trópicos, calor nos pólos. Ah, e acabar com a aids.

 

GIANNI RATTO

Ítalo-brasileiro, como tantos de nós somos, sem a sua dupla competência gentílica, Gianni Ratto era um extraordinário cenógrafo. Cenografia como resumo de vida. Uma arte ou profissão que mistura o trabalho braçal esmerado com o refinamento da concepção artística. E, no caso de Ratto, visão filosófica do que fazia e do que vivia, onde vivia. Em seu momento.

Eu o via como essa coisa nobre e vaga – um humanista.

Tivemos inúmeros contatos, a maioria de trabalho, desde que ele chegou ao Brasil, até o desvio geográfico dos últimos anos, quando ele foi morar em São Paulo – esse país irmão.

Transformou-me em cenógrafo (Guerra do Alecrim e da Mangerona e Memórias de um Sargento de Milícias, com Carlos Lyra) e me transformou também em tradutor de Shakespeare. Um dia, depois que recusei por três vezes traduzir A Megera Domada, ele entrou no meu estúdio e, fingindo um autoritário que nunca foi, jogou um pocket em cima da minha prancheta: "Tem um mês pra traduzir". Agora vai ter que se explicar com Shakespeare.

Co-fundador do Piccolo de Milão (com o também mítico Giorgio Strehler), escritor da mais profunda sinceridade, Gianni Ratto foi tudo o que, elogiosamente, se diz ou se dirá dele.

Se esquecem apenas de dizer, ou não sabem disso, que era, todo o tempo, um delicado, carinhoso, reto e inescapável sedutor. Por que só o Vinicius?

 
 
 
 
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