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Entrevista:
Jorge Bornhausen "Lula
não se elege" O presidente do PFL
diz que a temporada longe do poder fez bem ao seu partido e comenta o cenário
eleitoral de 2006  Felipe
Patury e Marcelo Carneiro
| Tarcisio Mattos/Tempo  | "A
sorte foi ter um presidente incompetente com o mundo crescendo. Se o cenário
fosse de recessão, estaríamos em convulsão social" |
Em quarenta anos de vida pública,
o senador Jorge Bornhausen quase nunca esteve na oposição. Mas não
deixou de tomar decisões que levaram a grandes reviravoltas. Há
21 anos, rompeu com o governo militar para fundar o PFL. Em 1992, tornou-se ministro
para tentar salvar o combalido governo Collor. No ano seguinte, dissolveu o PFL
paulista, que era usado como legenda de aluguel no principal estado do país.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Planalto, Bornhausen levou o
partido para a oposição e ameaçou com expulsão aqueles
que queriam aderir ao governo. A fase mais fulgurante de sua carreira começou
em 2005, quando se descobriu a bandalha petista do mensalão. O escândalo
amplificou o peso de Bornhausen dentro e fora de seu partido. Ainda assim, o "Alemão",
apelido que ganhou por causa da ascendência germânica e do comportamento
draconiano, não quer mais disputar eleições. Aos 68 anos,
diz que só volta atrás se for para disputar a sucessão de
Lula. Bornhausen recebeu VEJA para um almoço em seu apartamento em Florianópolis.
Na entrada, serviu seu prato predileto: espetada de lula. O molusco, bem entendido.
Veja O PT passou oito anos infernizando o governo tucano-pefelista.
Desde 2003, o PFL tem atazanado a vida do PT. O PFL é o PT do PT? Bornhausen
O PFL fundou a oposição ao Lula. O povo escolheu um presidente
da República do PT, um partido que é o oposto ideológico
e programático do PFL. Dessa forma, também escolheu o caminho da
oposição para nossa legenda. Isso ficou claro para nós na
eleição de Lula. Por isso, a executiva do PFL decidiu quatro dias
depois do segundo turno adotar uma oposição responsável e
fiscalizadora ao governo petista. Nessa época, as pesquisas de opinião
indicavam que 84% da população tinha a expectativa de que o governo
daria certo, contra apenas 2% que não acreditavam nele. Eu fiquei entre
os 2%. Veja Por que
tanta certeza? Bornhausen Eu achava que faltava ao candidato
vencedor experiência administrativa e preocupação em ter conhecimentos
mais amplos. Não estou falando de diploma, mas de estudo, de estar inteirado
de soluções adotadas por outros países. Eu não acreditava
que pudesse dar certo um presidente da República, eleito com essa esperança
toda, sem experiência administrativa nem conhecimento para enfrentar o triângulo
do atraso que existe no Brasil a injustiça social, o Estado máximo
e o cidadão mínimo. Nossa sorte foi ter um presidente incompetente
com o mundo crescendo. Se o cenário fosse de recessão, estaríamos
em convulsão social. Veja
O PFL sempre teve fama de adesista e fisiológico. No governo
Lula, pela primeira vez, foi empurrado para longe do poder. A oposição
fez bem ao partido? Bornhausen O PFL só foi governo
quando ganhou eleições. Nunca fomos governo de carona, como adesistas.
Essa história de fisiológico e ser governista desde Pedro Álvares
Cabral é preconceito. Veja
Mas não é desprovida de fundamento. Bornhausen
Reconheço que tem pitadas verdadeiras no caso do fisiologismo.
Muita gente entrou no partido quando fazíamos parte do governo, na tentativa
de ocupar espaços. Na oposição, o partido tornou-se respeitado
pela sociedade. Esse estágio mudou nossa imagem.
Veja Há um ano, a direção do PFL chegou
a pensar em mudar o nome do partido para se livrar do que o senhor classifica
como preconceito. A imagem estava tão desgastada assim? Bornhausen
Tivemos essa discussão duas vezes, mas o assunto está
liquidado. A primeira foi em 1993. Havia um sentimento de que o partido caminhava
para a dissolução, apesar de ter governadores importantes. Eu fui
contra, porque é a atuação de seus líderes
e não a legenda que leva o partido a ficar fora de sintonia com
a sociedade. Tínhamos de ver onde estavam nossos erros, fazer um mea-culpa
e corrigi-los. Chegamos a atos extremos. Concluímos que, em São
Paulo, o PFL era um câncer político. Estava desmoralizado porque
só funcionava para vender espaço de rádio e televisão.
A única saída foi dissolver o diretório estadual e todos
os que estavam estabelecidos nos municípios. A idéia de mudar o
nome voltou recentemente, quando começamos a nos afirmar como um partido
liberal-social. Mas o comportamento do PFL como oposição melhorou
nossa imagem e apagou completamente essa idéia.
Veja Todos os partidos deveriam passar uma temporada na oposição? Bornhausen
Creio que sim. Para o PFL, fez muito bem. Admito que, no início,
foi difícil. O governo Lula partiu para a cooptação e perdemos
cerca de 25 deputados para partidos da base aliada do governo. Em boa parte dos
casos, foi por efeito da lipoaspiração do mensalão. Só
dois deputados deixaram o PFL para entrar no PSDB, que também está
na oposição. No fim, ganhamos em qualidade. Veja
Por que os tucanos fazem uma oposição mais tímida
que o PFL? Bornhausen O PSDB é um partido social-democrata.
O PT se diz um partido socialista, em transição para a social-democracia.
Há algumas semelhanças programáticas entre eles. Esse não
é o caso do PFL. Além disso, o PSDB, por ter sido governo, sabe
que as metralhadoras também se voltam para trás.
Veja O senhor acredita que o PSDB temia que o PT fizesse uma
devassa nos oito anos de administração Fernando Henrique Cardoso? Bornhausen
Não estou dizendo que foi por medo, mas por cautela, a fim de
não atiçar a tendência natural de quem assume fazer uma devassa
no governo anterior. Não creio que se encontrasse nada de mais grave, mas
devassas incomodam. Veja
O PFL é o partido da direita brasileira? Bornhausen
O PFL é um partido de centro. Por opção, pertencemos à
Internacional Democrata de Centro, que defende um liberalismo social. Não
pertencemos à Internacional Liberal, que é puramente liberal. Somos
de centro porque, de um lado, estamos distantes do imobilismo conservador. E,
do outro, longe do populismo demagógico.
Veja Por que ninguém assume ser de direita no Brasil? Bornhausen
A direita não cabe dentro do figurino brasileiro. Temos de considerar
nossas condições sociais. Não podemos querer uma economia
de mercado pura, sem um Estado regulador. Temos de fazer com que o Estado seja
um instrumento a serviço do cidadão, especialmente o menos favorecido.
Sem isso, os pobres não terão oportunidades justas nem seus direitos
básicos preservados. Não é a questão de Estado máximo
e Estado mínimo, mas do Estado necessário.
Veja O senhor tem medo de ser classificado como de direita? Bornhausen
Não se trata de medo, é que não há como
existir direita em um país que não é desenvolvido.
Veja Reformulando: o PFL é o partido mais à direita
no espectro político brasileiro? Bornhausen Não.
Há partidos que se colocam muito mais à direita, como o PP e o PTB.
Ambos com intensa convivência com Lula e seu governo. Não somos de
direita, mas direitos. Veja
O que o senhor quis dizer quando se declarou "encantado" com a possibilidade
de tornar-se "livre dessa raça pelos próximos trinta anos", ao referir-se
aos petistas? Bornhausen O termo "raça" não
teve nenhuma relação com etnia. Eu me referia aos corruptos ou corruptores
que estavam no governo. Mas intelectuais e sindicalistas ideologicamente empedernidos
quiseram transformar isso em um ato de racismo e estenderam seu significado como
se fosse uma palavra contra a esquerda. O PDT e o PPS são de esquerda e
de oposição. Os criadores do P-SOL foram expulsos do PT. Nada têm
a ver com os corruptos. Para tentar me desmoralizar, houve quem produzisse cartazes
em que eu aparecia como Hitler. Aquilo, sim, foi um ato de racismo nazi-fascista.
A polícia de Brasília identificou os autores dos cartazes. Um líder
sindical, Avel de Alencar, e seu irmão, Alvemar, encomendaram esses cartazes
ao senhor Marcos Wilson, que era assessor da liderança do PT na Câmara
em Brasília. Veja
O senhor memorizou os nomes e o cargo de cada um dos envolvidos? Bornhausen
Tenho quarenta anos de vida pública. Respondo e aciono judicialmente
todos que me acusam. Vou processá-los por calúnia, injúria
e difamação assim que a polícia terminar o inquérito.
Eles certamente também serão enquadrados no crime de racismo. Esse
Avel, aliás, não é um joão-ninguém. Era freguês
de audiências do ministro do Trabalho, Luiz Marinho.
Veja O PFL se coligará com o PSDB na eleição
presidencial? Bornhausen Há um ano, optamos pela candidatura
própria. Na ocasião, verificamos que havia uma possibilidade de
a candidatura Lula, mesmo com um governo medíocre, ser vitoriosa no primeiro
turno em razão da inércia da oposição. Procuramos,
então, o prefeito do Rio, Cesar Maia, que havia vencido a eleição
municipal, e o convidamos para ser pré-candidato. Ele aceitou, com a condição
de poder dar uma posição definitiva até março deste
ano. Aceitamos a condição.
Veja Mas o prefeito Cesar Maia já declarou apoio à
candidatura do prefeito de São Paulo, José Serra. Bornhausen
O que Cesar disse foi que Serra e ele têm as mesmas características
administrativas. Por isso, se Serra for candidato, ele não será.
Essa declaração foi interpretada como apoio e desistência,
mas não era isso. Até porque ninguém sabe se Serra será
o candidato do PSDB. Veja
A disputa pela candidatura no PSDB está polarizada entre Serra e o governador
paulista, Geraldo Alckmin. Qual deles tem mais chance na disputa contra Lula? Bornhausen
Sou do PFL. Deixo os problemas dos tucanos para eles resolverem. A
dificuldade que eles têm não é por falta de qualidade de candidatos.
Isso é uma grande vantagem.
Veja Em 2002, o senhor atribuiu ao então candidato Serra
a responsabilidade pelas denúncias que destruíram a candidatura
de Roseana Sarney à Presidência. O senhor ainda acha que ele foi
responsável pelo episódio? Bornhausen Um dia,
o Serra pediu para me visitar no Senado. A conversa começou justamente
por aí. Ele disse que queria esclarecer sua posição. Respondi
que não era preciso, porque não se faz política olhando para
o retrovisor. Disse-lhe também que precisávamos fazer política
de maneira conjunta, entre dois partidos que são oposição.
Dali para a frente, estabelecemos um nível de entendimento cordial, amigo.
Serra compreendeu o papel do PFL e a necessidade de estabelecermos essa parceria.
Não tenho divergências com ele.
Veja Até agora, a senadora Roseana tem apoiado o governo
Lula. Há risco de ela vir a apoiar também o candidato do PT na eleição? Bornhausen
Não. Eu tenho certeza absoluta de que ela vai acompanhar a decisão
do nosso partido. Veja
Mesmo que o PFL se coligue com o PSDB, e que o candidato seja o prefeito José
Serra? Bornhausen Eu acho que sim, mas vamos conferir.
Veja Por que a oposição evita investigar o presidente
Lula e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci? Bornhausen
Não sou daqueles que acham que Palocci deva ser poupado e não estou
falando dos episódios que ocorreram quando ele foi prefeito de Ribeirão
Preto. Esses já estão sendo investigados pelos promotores paulistas.
O problema é que algumas das principais denúncias de corrupção
deste governo atingem órgãos subordinados a ele, como o IRB, a Casa
da Moeda, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil. Além disso, ele
fez um gerenciamento medíocre da economia brasileira. Não o defendo
nem como gerente da economia nem no que diz respeito à questão ética.
No PSDB, há uma visão diferente. Acham que é melhor com Palocci
do que com outro. Não penso assim. A política econômica do
governo não mudará se o ministro da Fazenda for outro, porque ela
é comandada pelo Banco Central.
Veja E quanto ao presidente? Bornhausen
Lula adotou a política do "eu não sabia", na qual ninguém
acredita. Participei de muitos governos. No governo Collor, fui o equivalente
ao ministro da Casa Civil. Sei que o presidente da República é sempre
um homem bem informado. Essa esperteza não levará Lula a lugar nenhum,
a não ser à reprovação popular.
Veja Quais serão as principais tarefas do próximo
presidente? Bornhausen Haverá uma grande mudança
na política a partir de 2007. Apenas seis ou sete legendas sobreviverão
depois que for aplicada a cláusula de desempenho eleitoral, que exige que
os partidos tenham, pelo menos, 5% das cadeiras na Câmara Federal e no mínimo
2% em nove estados. É uma mudança grande o suficiente para permitir
que façamos a reforma política nos primeiros seis meses de governo
do próximo presidente. E só posso dizer uma coisa: esse presidente
não será o Lula, porque ele não ganhará a eleição.
Veja O senhor acha que tem condições de garantir
isso? Bornhausen Pode escrever.
Veja O senhor está considerando a hipótese de Lula
não concorrer à reeleição? Bornhausen
Digamos que esse cenário só tem 20% de chance de se realizar. Mas,
se Lula não concorrer, teremos uma reprise da eleição de
1989, quando todos os partidos lançaram candidatura própria. Nesse
caso, o PSDB deverá estar no segundo turno de qualquer forma. Todos os
outros disputarão a segunda vaga. É um quadro preocupante porque
abre espaço para um aventureiro. |