O preço do crime

Pesquisa inédita calcula o prejuízo econômico
causado pelo banditismo no Rio de Janeiro

Altair Thury Filho e Silvio Ferraz

Foto: Oscar Cabral
Cirurgia para remoção de bala no hospital Souza Aguiar: centro de referência em medicina de guerra

Ficou pronto o mais alentado levantamento sobre o impacto da criminalidade já feito no Brasil. Coordenado pelo Instituto de Estudos da Religião, o Iser, o trabalho tem seu foco num único município, o Rio de Janeiro, mas é uma aula sobre banditismo em todo o território nacional. O estudo traz dois ingredientes novos para a discussão. O primeiro é recomendar que a criminalidade seja encarada como doença, já que, a exemplo de outras enfermidades, produz internações hospitalares, invalidez e mortes. O outro é uma conta. Computou-se o gasto anual com o tratamento das vítimas de tentativas de assassinato e agressões físicas durante assalto e estupro, entre outros crimes. Somou-se a isso o que se paga em pensões por invalidez. E calculou-se ainda a queda na renda das famílias que tiveram um parente assassinado ou gravemente ferido. Só no Rio, estima-se que a violência gere prejuízos da ordem de 1 bilhão de reais por ano. "Nós todos já sabíamos que a violência tinha um impacto grande. Mas essa pesquisa trouxe números e parâmetros para a discussão", explica o sociólogo Rubem César Fernandes, secretário executivo do Iser.

O trabalho foi feito com a consultoria do Centro para Controle e Prevenção de Doenças, CDC, de Atlanta, nos Estados Unidos, um dos mais respeitados institutos de pesquisa do mundo, e tomou como base o ano de 1995. Foram cometidos naquele ano 5.261 assassinatos, o que dá uma morte a cada hora e meia. De acordo com os dados, nove em dez vítimas eram homens, mais da metade tinha entre 15 e 29 anos de idade e 71% foram mortos com armas de fogo. Os especialistas computaram quantos anos de vida foram perdidos nesse massacre. O cálculo considera a expectativa de vida das pessoas e a idade que tinham ao morrer. Feita uma conta de diminuir, chega-se à conclusão de que, na média, as vítimas do banditismo foram mortas 28 anos mais cedo do que se acabassem falecendo por causa natural. O levantamento fala em 148902 anos de vida prematuramente ceifados a cada ano, e ressalta outra chaga: morre-se mais de homicídio do que por acidente de trânsito no Rio. "A criminalidade priva a sociedade de boa parte de seu potencial econômico e intelectual", diz o trabalho. "Outro problema relevante e de fácil observação é o impacto da violência sobre o turismo na cidade."

Policiais militares invadem um morro do Rio de Janeiro: luta contra um arsenal de 500.000 armas ilegais
Foto: Oscar Cabral  

Patrocinado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID, o trabalho acompanhou o entra-e-sai de pessoas baleadas, esfaqueadas e agredidas nos sete maiores hospitais da cidade. Foram checados os números de assassinatos, suicídios e tentativas de homicídio no município, tomando-se precauções para evitar os erros comuns nas estatísticas oficiais. Constatou-se que um em cada seis óbitos ocorre por homicídio. Com o trabalho, cai o mito segundo o qual a criminalidade carioca seria apenas igual à de outras grandes cidades, como São Paulo ou Maceió, e que a presença de favelas entre os bairros de classe média é a grande responsável por uma impressão exagerada de banditismo. O estudo prova que o Rio é especialmente violento. Para cada 100.000 habitantes, 79 são mortos todos os anos. A taxa é quase o dobro da de São Paulo e seis vezes a taxa de Nova York.

Um dos indicadores mais evidentes de que o crime no Rio é endêmico é a freqüência de mortes por balas perdidas, que fazem vinte vítimas fatais por ano. É mais do que o total de mortos à bala na Austrália. Os traficantes, do alto dos morros, se divertem disparando sem direção suas armas, com a displicência de quem solta fogos de artifício. No dia da vitória do Brasil sobre a Itália na última Copa do Mundo, o hospital Miguel Couto registrou doze vítimas de balas perdidas. Nas noites de réveillon, a média é de nove pessoas atingidas. A dona de casa Dagmar dos Santos Queirós, 64 anos, é uma das vítimas dessa doença singular. Ao voltar para sua casa no Cachambi, subúrbio do Rio, sentiu "algo como uma pedrada" no ombro. O filho Douglas, sargento do Exército, diagnosticou na hora: tratava-se de um disparo de grosso calibre. Dagmar foi levada ao hospital e escapou por milagre, mas os médicos não puderam retirar a bala e ela perdeu parte dos movimentos do braço esquerdo.

Cinco baleados por noite Os médicos não precisam de estatísticas para detectar o aumento da criminalidade. Basta olhar para o estado dos pacientes. No Miguel Couto, os registros mostram um aumento no número de vítimas com balas na cabeça e no tórax e menos gente com ferimentos de raspão, nos braços ou nas pernas. Prova de que os disparos não são obra de amadores, mas de profissionais do gatilho. Maior centro de atendimento de emergência da América Latina, o hospital Souza Aguiar recebe em média cinco pacientes baleados por noite. No último dia 29, o clínico João Pedro Celidônio Silveira, um dos chefes da emergência, se preparava para uma noite de horror. "Final de mês é pior", explica, observando que nessa época o salário alimenta mais bebedeiras e os assaltantes atacam mais. O primeiro baleado da noite foi um rapaz da favela de Vigário Geral, que levou um tiro de fuzil na bacia enquanto assistia ao enterro de um amigo. Passada uma hora, o jovem saiu da sala de cirurgia sem parte do intestino. A vítima seguinte levou um tiro na testa e acabou morrendo. Uma hora depois, surgiu outro baleado, também na testa. O paciente pôde ser salvo, mas viverá o resto da vida com a bala na cabeça. Certamente terá seqüelas.

Por conta da grande quantidade de casos graves como esses, os hospitais públicos do Rio são reconhecidos no mundo inteiro por uma inusitada especialidade, a "medicina de guerra". Graças a essa especialização, cirurgiões de hospitais cariocas são convidados a dar palestras na França e na Inglaterra sobre extração de balas e tratamento de pacientes com ferimentos múltiplos. E o serviço está cada vez mais duro. "Os bandidos estão usando armas de calibres mais grossos", explica o cirurgião Leonardo Sardou. "Fiquei oito anos sem operar um tiro de calibre 22, mas tiro de fuzil aparece todo dia", exemplifica.

Colaboração policial A exemplo de doenças como a malária e o mal de Chagas, o homicídio vitima preferencialmente os pobres e a população de baixa escolaridade. Entre os assassinados, apenas 1,7% possuem nível universitário, embora 8% da população total tenha feito uma faculdade. "A pirâmide social das vítimas da violência é mais desigual que a pirâmide social do conjunto da população", descreve a pesquisa. É um perfil parecido com o da criminalidade nos Estados Unidos, onde as taxas de homicídio são desproporcionalmente mais altas nos bairros pobres. O trabalho mostra que contribui para agravar o quadro a extrema facilidade com que se comercializam armas de fogo. Em apenas três anos, a venda legal de armas cresceu 70%. Segundo a Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos da Polícia Civil, o número de armas registradas legalmente no Rio é de meio milhão. A estimativa oficial, conservadora, é de que haja uma arma irregular para cada arma legal. São, portanto, 1 milhão de armas. "A população está muito armada, qualquer que seja o parâmetro de comparação", avalia Luciana Phebo, uma das pesquisadoras do Iser. O depósito da polícia já acomoda com dificuldade as 150.000 armas apreendidas. O governador Marcello Alencar admite-se impotente. "Apreender armas é como enxugar gelo. Há uma fantástica rede de contrabando do Paraguai e de Miami, armando os traficantes de drogas."

Como uma de cada treze vítimas assassinadas em 1995 morreu em confrontos com a polícia, a PM carioca ganhou um bom espaço no estudo. De acordo com os números, a polícia mata quase tanta gente na cidade quanto todas as forças policiais dos Estados Unidos juntas. Outro dado espantoso é que 61% das vítimas da polícia foram baleadas na cabeça, uma pontaria acima do normal, e 46% receberam mais de três tiros. Houve casos de até 25 disparos. Além disso, a proporção de suspeitos mortos para cada policial assassinado é de 36 para 1. Em Nova York, tida como uma das cidades mais violentas do mundo, onde os bandidos estão no mínimo tão bem armados quanto no Rio, o índice é de 8 para 1. "Quando são mortos dez ou quinze vezes mais civis do que policiais, então isso sugere que a força mortal da polícia pode estar em uso para propósitos outros que o da proteção da vida em emergências", diz o criminologista Paul Chevigny, que analisou a atuação dos policiais de Nova York e Chicago durante os anos 80.




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