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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A
santa e a senadora
Heloísa
Helena,
com
seu drama
e sua
paixão,
é
a Maria Madalena
da
cena brasileira
Santa Maria Madalena está na moda. A senadora Heloísa
Helena também. Uma é MM, a outra HH, e talvez não
seja absurdo considerar que entre as duas haja mais pontos em comum
do que as consoantes dobradas das iniciais. HH entrará mais
tarde nesta história. Onde MM está na moda é
nos Estados Unidos, e isso graças sobretudo a um best-seller
em que é protagonista, The Da Vinci Code, de Dan Brown,
com mais de 4 milhões de exemplares vendidos em poucas semanas.
MM, de quebra, figurou na capa da última revista Newsweek,
é tema de uma peça de teatro (Magdalene's Mind,
de Gloria Amendola) e ganhou um site (magdalene.org). Também
é objeto de estudos acadêmicos, sobretudo de professoras,
cujo traço comum é o esforço de reapreciar
e revalorizar seu papel no Novo Testamento.
Quem seria essa Maria Madalena, e por que voltar a ela a esta altura
dos acontecimentos? Não há nos evangelhos senão
cinco referências a ela, nenhuma das quais a pinta na pele
que a legenda a consagrou a de prostituta arrependida. MM
aparece, no evangelho de Lucas, como a mulher de quem Jesus tinha
expulsado sete demônios, e que a partir de então passou
a segui-lo. Depois disso só haverá referência
a ela nos acontecimentos que cercaram a morte de Jesus. Ela será
citada então três vezes como testemunha da crucifixão,
como acompanhante do enterro e como uma das mulheres que, em visita
ao túmulo, perceberam que estava vazio. Enfim, em sua mais
gloriosa figuração, será a primeira a quem
Jesus aparecerá, depois de ressuscitado. A ela caberá
anunciar a boa-nova aos apóstolos.
Isso quanto à mulher que, explicitamente, é chamada
de Maria Madalena nos textos. Ocorre que há neles uma profusão
de Marias, além de uma anônima "pecadora" que banha
os pés de Jesus com as próprias lágrimas e
os enxuga com os cabelos e, segundo antiga e popular interpretação,
essa anônima, algumas das Marias e MM não passariam
da mesma pessoa. A "pecadora" rendeu a MM a fama de prostituta,
e os cabelos com que enxugou os pés de Jesus premiaram-na,
em séculos e séculos de representação
iconográfica, com generosa cabeleira. Por fim, a tais passagens
somam-se aquelas em que MM é referida nos evangelhos chamados
apócrifos os não reconhecidos pela Igreja.
Num deles, o de Felipe, ela aparece como a "companheira" de Jesus,
aquela que amava "mais que a todos os discípulos", e "costumava
beijar". Tal passagem dá lastro a outra popular interpretação,
a de que MM e Jesus manteriam relacionamento íntimo.
O motivo pelo qual MM é trazida de volta à tona, a
esta altura dos acontecimentos, o leitor já adivinha
o feminismo. Os recentes estudos acadêmicos, assim como as
obras populares que se detêm em sua figura, insistem em que
ela teve papel muito mais importante, no cristianismo primitivo,
do que o que o registro patriarcal e machista deixa
perceber. MM, como primeira testemunha da ressurreição,
encarna uma figura, a de "apóstolo dos apóstolos"
a que nunca se deu o merecido peso. Também não se
levou em devida conta sua proximidade com Jesus. Fosse ou não
sua mulher, ela seria uma das principais guardiãs de sua
herança. MM, quando reposta na integralidade de seu papel,
ilumina as páginas dos evangelhos com a chama da emoção
feminina. Pecadora ou portadora de sete demônios, ela é
o oposto dos santinhos bem-comportados de nascença. Corajosa
a ponto de seguir Jesus até o túmulo, representou
a compaixão e a coerência, no momento em que os discípulos
fugiam. MM aporta a essa velha história um tanto de paixão
que a enriquece e eleva e é nesse ponto que, com perdão
pela passagem abrupta do sagrado para o profano, das alturas dos
textos antigos para os baixios da política, e do maravilhoso
para o pedestre, nos voltamos para HH.
Há pontos de contato, para o bem ou para o mal, entre Maria
Madalena e Heloísa Helena. Alguns veriam HH como a MM de
antes da expulsão dos sete demônios rebelde,
incômoda, intratável. Outros, como o "apóstolo
dos apóstolos", a luz primeva, rocha de coerência.
Para uns e outros, tal qual MM, ela seria a encarnação
da paixão. Isso sem falar que os cabelos de HH dariam, como
os de MM, para enxugar os pés do mestre, se ela tivesse algum.
HH é a MM da cena política brasileira. Assim como
a outra, ela confere drama e fúria, além de uma certa
violência própria da mística feminina, ao enredo
em que está metida.
Nota: O general Alvir Souto, em carta, afirma que seu pai, o
também general Álcio Souto, não foi nazista,
como afirmado duas semanas atrás nesta página, a propósito
do livro A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari, mas um admirador
do Exército alemão. Também não levou
cadetes sob seu comando a sessões de cinema que mostravam
as proezas militares de Hitler. Enfim, o missivista corrige um erro
que não é do livro, mas deste articulista. O general
Álcio Souto não comemorou em casa a queda de Paris.
Quem o fez foi o general Eurico Dutra.
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