Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A santa e a senadora

Heloísa Helena, com seu drama e sua paixão,
é a Maria Madalena da cena brasileira

Santa Maria Madalena está na moda. A senadora Heloísa Helena também. Uma é MM, a outra HH, e talvez não seja absurdo considerar que entre as duas haja mais pontos em comum do que as consoantes dobradas das iniciais. HH entrará mais tarde nesta história. Onde MM está na moda é nos Estados Unidos, e isso graças sobretudo a um best-seller em que é protagonista, The Da Vinci Code, de Dan Brown, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos em poucas semanas. MM, de quebra, figurou na capa da última revista Newsweek, é tema de uma peça de teatro (Magdalene's Mind, de Gloria Amendola) e ganhou um site (magdalene.org). Também é objeto de estudos acadêmicos, sobretudo de professoras, cujo traço comum é o esforço de reapreciar e revalorizar seu papel no Novo Testamento.

Quem seria essa Maria Madalena, e por que voltar a ela a esta altura dos acontecimentos? Não há nos evangelhos senão cinco referências a ela, nenhuma das quais a pinta na pele que a legenda a consagrou – a de prostituta arrependida. MM aparece, no evangelho de Lucas, como a mulher de quem Jesus tinha expulsado sete demônios, e que a partir de então passou a segui-lo. Depois disso só haverá referência a ela nos acontecimentos que cercaram a morte de Jesus. Ela será citada então três vezes – como testemunha da crucifixão, como acompanhante do enterro e como uma das mulheres que, em visita ao túmulo, perceberam que estava vazio. Enfim, em sua mais gloriosa figuração, será a primeira a quem Jesus aparecerá, depois de ressuscitado. A ela caberá anunciar a boa-nova aos apóstolos.

Isso quanto à mulher que, explicitamente, é chamada de Maria Madalena nos textos. Ocorre que há neles uma profusão de Marias, além de uma anônima "pecadora" que banha os pés de Jesus com as próprias lágrimas e os enxuga com os cabelos – e, segundo antiga e popular interpretação, essa anônima, algumas das Marias e MM não passariam da mesma pessoa. A "pecadora" rendeu a MM a fama de prostituta, e os cabelos com que enxugou os pés de Jesus premiaram-na, em séculos e séculos de representação iconográfica, com generosa cabeleira. Por fim, a tais passagens somam-se aquelas em que MM é referida nos evangelhos chamados apócrifos – os não reconhecidos pela Igreja. Num deles, o de Felipe, ela aparece como a "companheira" de Jesus, aquela que amava "mais que a todos os discípulos", e "costumava beijar". Tal passagem dá lastro a outra popular interpretação, a de que MM e Jesus manteriam relacionamento íntimo.

O motivo pelo qual MM é trazida de volta à tona, a esta altura dos acontecimentos, o leitor já adivinha – o feminismo. Os recentes estudos acadêmicos, assim como as obras populares que se detêm em sua figura, insistem em que ela teve papel muito mais importante, no cristianismo primitivo, do que o que o registro patriarcal – e machista – deixa perceber. MM, como primeira testemunha da ressurreição, encarna uma figura, a de "apóstolo dos apóstolos" a que nunca se deu o merecido peso. Também não se levou em devida conta sua proximidade com Jesus. Fosse ou não sua mulher, ela seria uma das principais guardiãs de sua herança. MM, quando reposta na integralidade de seu papel, ilumina as páginas dos evangelhos com a chama da emoção feminina. Pecadora ou portadora de sete demônios, ela é o oposto dos santinhos bem-comportados de nascença. Corajosa a ponto de seguir Jesus até o túmulo, representou a compaixão e a coerência, no momento em que os discípulos fugiam. MM aporta a essa velha história um tanto de paixão que a enriquece e eleva – e é nesse ponto que, com perdão pela passagem abrupta do sagrado para o profano, das alturas dos textos antigos para os baixios da política, e do maravilhoso para o pedestre, nos voltamos para HH.

Há pontos de contato, para o bem ou para o mal, entre Maria Madalena e Heloísa Helena. Alguns veriam HH como a MM de antes da expulsão dos sete demônios – rebelde, incômoda, intratável. Outros, como o "apóstolo dos apóstolos", a luz primeva, rocha de coerência. Para uns e outros, tal qual MM, ela seria a encarnação da paixão. Isso sem falar que os cabelos de HH dariam, como os de MM, para enxugar os pés do mestre, se ela tivesse algum. HH é a MM da cena política brasileira. Assim como a outra, ela confere drama e fúria, além de uma certa violência própria da mística feminina, ao enredo em que está metida.

Nota: O general Alvir Souto, em carta, afirma que seu pai, o também general Álcio Souto, não foi nazista, como afirmado duas semanas atrás nesta página, a propósito do livro A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari, mas um admirador do Exército alemão. Também não levou cadetes sob seu comando a sessões de cinema que mostravam as proezas militares de Hitler. Enfim, o missivista corrige um erro que não é do livro, mas deste articulista. O general Álcio Souto não comemorou em casa a queda de Paris. Quem o fez foi o general Eurico Dutra.

 
 
 
 
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