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Diogo
Mainardi
Deficientes
discriminados
"Ter
um filho deficiente não é nenhum drama, nenhum peso,
nenhum problema. Basta que
os outros não perturbem. Os
pais de crianças
deficientes não querem favores nem comiseração.
O que eles querem é que as crianças tenham a
oportunidade de conviver com outras crianças"
Rio
de Janeiro. Teimei em morar de frente para o mar. Difícil
encontrar apartamento. Tudo caro demais. Comicamente, os melhores
que visitei pertenciam a gente ligada à política.
O primeiro era de Antonio Carlos Magalhães. O segundo era
da filha de Tancredo Neves, mãe de Aécio. Perdi este
último para uma herdeira de Getúlio Vargas, ex-mulher
de Moreira Franco. Estou pensando em lançar minha candidatura
a governador de Roraima.
Mais
difícil que encontrar apartamento é encontrar escolinha
para meu filho. Ele é deficiente físico. Escolinhas
não querem deficientes por perto. Três delas já
nos enxotaram. Eram escolas alternativas, piagetianas, daquelas
que ensinam a plantar feijão e a melecar as paredes com tinta
vermelha. Mil reais de mensalidade. Você pode achar que não
é problema seu. Engana-se. É em escolinhas como essas
que seus filhos estão estudando. Aprendem o preconceito desde
cedo. Aprendem a afastar quem parece diferente deles.
Na
Escola Nova, a diretora barrou meu filho na porta. Disse que não
estava preparada para educar quem não sabe andar. Se ela
não está preparada para educar uma criança
deficiente de 3 anos, não está preparada para educar
ninguém. Como sou endinheirado, ofereci algumas facilidades:
material escolar adaptado, orientação por parte das
terapeutas de meu filho e uma assistente de plantão na sala
de aula para ajudar sempre que necessário. No caso de deficientes,
porém, nem o indefectível privilégio de classe
brasileiro funciona: ricos e pobres são discriminados do
mesmo jeito.
Em
outra escolinha, chamada Vilhena de Moraes, a coordenadora informou
que aceitava portadores de todos os tipos de deficiência,
menos os deficientes físicos. Criou uma discriminação
dentro da discriminação, como num sistema de castas.
O pária é meu filho. No Espaço Educação,
a coordenadora recusou-o alegando falta de pessoal. Eu repeti que
estava disposto a pagar o salário de uma assistente, em tempo
integral. Não adiantou. Fomos despachados.
Ter
um filho deficiente não é nenhum drama, nenhum peso,
nenhum problema. Basta que os outros não perturbem. Os pais
de crianças deficientes não querem favores nem comiseração.
Pelo contrário: sentem um orgulho desmesurado de seus filhos.
O que eles querem é que as crianças tenham a oportunidade
de conviver com outras crianças. Nada de muito complicado.
Outro
dia, Lula posou para fotografias com os atletas paraolímpicos.
Foi mais uma manobra eleitoreira do presidente. Quando chegou a
hora de agir, ele escolheu o lado oposto: vetou a transferência
de recursos para entidades particulares que atendem deficientes
e vetou a isenção de IPI e do imposto de importação
sobre equipamentos como cadeiras de rodas. Nos anos 70, todo mundo
tinha um contrabandista de uísque escocês. Eu, agora,
tenho de apelar para um contrabandista de apetrechos ortopédicos.
Acabo de receber um moderno andador de alumínio. É
a muamba fisioterápica.
O
Brasil discrimina portadores de deficiência assim como discrimina
negros. O maior entrave para o crescimento do país é
a nossa infinita ignorância. Quando eu for governador de Roraima,
garanto que todos terão acesso à escola e todos terão
apartamentos de frente para o mar, se é que Roraima tem mar.
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