Edição 1832 . 10 de dezembro de 2003

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Entrevista: Arthur Agatston
Regime sem dor

O cardiologista americano que faz sucesso
com a dieta de South Beach diz que é
possível emagrecer sem sofrimento


Paulo Cunha

 

Divulgação

"As outras dietas não funcionam porque pregam o hábito da fome. As pessoas comem os alimentos errados e logo sentem fome"

A dieta de South Beach, o regime para emagrecer que é a sensação no momento, leva o nome de uma praia de Miami conhecida pela boa forma física de seus freqüentadores e onde vive e tem consultório seu criador, o cardiologista americano Arthur Agatston. O método é, pode-se dizer, uma versão light da popular dieta do doutor Atkins, aquela que prega o consumo radical de proteínas e gorduras. Agatston diz que sua intenção foi mesmo criar uma alternativa, pois não suportava mais ver seus pacientes cardíacos entupir-se de gorduras. Depois de um período inicial de privações, a dieta de South Beach permite o consumo moderado de itens como vinho, chocolate, massas, pães e até doces. Com todo esse apelo, é o tema de um dos livros mais vendidos nos Estados Unidos. A versão em português foi lançada neste ano no Brasil pela Editora Sextante. Agatston mora em Miami com a mulher, Sari, e os dois filhos. Aos 56 anos, leva uma vida pacata, pratica esportes com moderação e é um chocólatra assumido. Atende diariamente em seu consultório, de onde concedeu a VEJA a seguinte entrevista.

Veja – Os Estados Unidos são o país das dietas. E também o país dos obesos. Não é contraditório?
Agatston – É, porque os Estados Unidos são o país das dietas erradas. A de South Beach é baseada nos mais recentes estudos científicos. Ela é uma evolução. As outras dietas pregam o hábito da fome. As pessoas comem e, logo depois, sentem fome novamente. Isso porque comem os alimentos errados. Minha dieta propõe que elas selecionem o que vão comer, de modo inteligente.

Veja – Antes as dietas pregavam que a gordura era a grande inimiga da saúde. O vilão agora é o carboidrato. Como não ficar perdido?
Agatston – Nos anos 60, o número de ataques cardíacos e derrames aumentou drasticamente nos Estados Unidos. Os estudos realizados na época mostraram que os países com os níveis mais baixos desses males eram os subdesenvolvidos, que consumiam pouca gordura e muito carboidrato. Passou-se então a adotar a dieta do Terceiro Mundo. O resultado foi desastroso, pois o consumo exagerado de carboidratos errados tornou-se o responsável direto pela epidemia de obesidade. Por outro lado, viu-se que nem toda gordura é ruim. Há gorduras boas, como a do salmão e do azeite de oliva, que fazem bem ao coração.

Veja – Como a alimentação nos países subdesenvolvidos, onde há tanta fome, pode ser mais saudável que a dos países ricos?
Agatston – Nos países em que a indústria é pouco desenvolvida, ingere-se uma quantidade de fibras muito maior que nos lugares onde os alimentos são muito processados. Nos Estados Unidos, as indústrias começaram a criar produtos com baixo teor de gordura, pouco colesterol, com sabores maravilhosos. Porém, altamente processados, com um altíssimo nível de açúcar e fartura de produtos químicos. São as chamadas calorias vazias, desprovidas de fibras e nutrientes necessários. É como se já viessem digeridos da fábrica.

Veja – Por que o carboidrato engorda?
Agatston – Antigamente se acreditava que os carboidratos engordavam menos que as gorduras. Hoje não se pensa mais assim. O tipo de carboidrato encontrado nos alimentos processados é ruim porque provoca rápidas variações na taxa de açúcar no sangue. Ela sobe rapidamente, logo após a ingestão, e depois cai, dando a sensação de fome. A pessoa não fica saciada, continua comendo e, obviamente, engorda.

Veja – O senhor concorda que sua receita é uma versão light da dieta do doutor Atkins?
Agatston – Sim, de certa forma. A dieta do doutor Atkins não distingue gordura boa da má, nem carboidrato bom do ruim. É aí que meu programa é diferente. Eu entendo que a gordura extraída dos peixes e o azeite de oliva, por exemplo, são fundamentais. Mas devemos evitar as carnes vermelhas, que têm outro tipo de gordura, a má. Além disso, há carboidratos que devem ser consumidos, como as frutas e os grãos integrais, porque contêm fibras. Posso dizer que minha dieta é mais saudável que a dele.

Veja – Como saber a hora de começar uma dieta?
Agatston – É comum ver pessoas com pernas e braços finos, mas com a barriga em constante crescimento. De modo geral, a gordura acumulada na região da cintura pode ser um bom sinal de que é hora de começar uma dieta. Mas isso é muito pessoal. Vários casos de obesidade têm razões hormonais, e não basta improvisar uma dieta.

Veja – É possível mudar qualquer tipo de corpo?
Agatston – Depende. Com uma dieta adequada, é muito fácil reduzir a chamada obesidade central, aquele excesso de gordura localizado na barriga. Mas a gordura que se esconde embaixo da pele ou entre as costelas é mais difícil de tirar. Só com dieta e muito exercício.

Veja – Por que é mais fácil reduzir a gordura da barriga do que de outras partes do corpo?
Agatston – Porque ela é a gordura criada pelas variações da taxa de açúcar no sangue. Quando essa taxa estaciona, a gordura é facilmente eliminada. E isso se dá com a supressão do carboidrato, que é exatamente a proposta da primeira fase da dieta. Por isso, afirmo que é possível perder de 3 a 5 quilos nos primeiros catorze dias, exatamente os quilos da barriga.

Veja – É correto aplicar uma mesma dieta para pessoas com idades muito diferentes?
Agatston – Eu garanto que sim. A epidemia de obesidade ataca tanto crianças quanto adultos de meia-idade e velhos. Todos comem os mesmos alimentos inadequados e fazem poucos exercícios. A idéia básica da dieta de South Beach é que qualquer um deve ingerir boas proteínas e bons carboidratos. As crianças podem e devem consumir frutas, verduras, azeite de oliva e evitar comida artificial, como fast food, batatas fritas, bolachas, doces.

Veja – O correto não seria comer de tudo com moderação?
Agatston – Sim, sem dúvida. E esse é o objetivo da dieta, que é colocado em prática, progressivamente, a partir da segunda fase. Uma alimentação saudável inclui a combinação de proteínas, gorduras e carboidratos de forma balanceada. Entretanto, para atingir esse estágio, que corresponde à terceira e última fase da minha dieta, é preciso passar pelas duas primeiras.

Veja – Quando o senhor depara com um prato de macarronada, de onde tira forças para dizer não?
Agatston – Eu não digo não. Minha dieta não proíbe que a pessoa coma aquilo de que gosta. Nos outros regimes, as pessoas estão em constante tensão, algumas chegam a ficar deprimidas, têm o que eu chamo de "fissura" durante a noite. Minha dieta exige esforço nas duas primeiras semanas. Depois, gradualmente, muitos dos itens inicialmente proibidos vão sendo reintroduzidos.

Veja – O senhor está de dieta agora?
Agatston – Sim. Eu fui minha primeira cobaia. Agora estou no que seria a terceira fase, de manutenção, feita para durar para sempre. A South Beach é muito fácil e flexível. Quando saio de férias e ganho alguns quilos a mais, volto à primeira fase. Perco o que ganhei e retomo minha vida, sem maiores problemas, a partir da segunda fase.

Veja – O senhor acha possível passar o resto da vida de dieta sem ficar aborrecido?
Agatston – Sim. A questão primordial é não sentir fome. Segundo, saber variar, combinar diversos tipos de alimento, todos eles de boa qualidade. Por último, tomar cuidado com as extravagâncias, sobretudo quando não se tem muita escolha, como numa festa.

Veja – Por que a gordura não preocupava no passado?
Agatston – Séculos atrás era muito difícil ser gordo. Primeiro porque se gastava muito mais energia do que hoje. Para comer carne, era preciso matar o animal. Para tomar um suco de laranja, era preciso espremê-la, e sempre vinha muita polpa junto. Era a fibra necessária ao corpo. Agora não há mais nada disso. A comida e a bebida vêm processadas. As fibras ficam na fábrica.

Veja – O senhor acredita em dieta preventiva, isto é, para evitar a obesidade?
Agatston – Sim. É a idéia da alimentação saudável desde criança. Aliás, minha dieta serve também para quem está no peso e quer manter-se assim. Basta se acostumar a escolher pão integral em vez de pão comum, peixe em vez de carnes gordurosas, e assim por diante. Acaba virando um estilo de vida.

Veja – A retirada drástica de carboidrato não pode causar problemas à saúde?
Agatston – Diferentemente da dieta do doutor Atkins, a minha não retira o carboidrato. A dele pregava que, com a retirada do carboidrato, o corpo teria de extrair energia da gordura, um fenômeno chamado cetose. Uma das críticas era que esse fenômeno poderia causar prejuízos à saúde, principalmente no caso de idosos. Minha dieta fornece a cota ideal e suficiente de carboidratos, o que afasta a possibilidade da cetose.

Veja – Dietas desse tipo são acusadas de aumentar o colesterol. Existe esse perigo?
Agatston – Hoje em dia, não se pode levar em conta o colesterol total. As frações de colesterol têm de ser consideradas, isto é, há colesterol bom e colesterol ruim. Minha dieta influi positivamente no nível de colesterol e de triglicérides.

Veja – As dietas desaparecem tão rapidamente quanto surgem. Por que a sua seria diferente?
Agatston – Há dietas que são muito específicas, que dizem o que você pode comer durante um breve período. Dão certo por pouco tempo, mas são impensáveis para ser adotadas como estilo de vida. Minha dieta é simples e fácil de ser levada em frente. Não há nenhum cálculo de calorias, de carboidratos, pela única razão de não existir ninguém que possa ficar contando o que come durante muito tempo sem que fique louco. Basta escolher os alimentos certos.

Veja – Essa livre escolha não é um perigo para aqueles que comem movidos pela ansiedade?
Agatston – A epidemia de obesidade tem estreita ligação com o stress geral da sociedade surgido na década de 90, quando começaram os problemas com a economia americana. Os ansiosos tendem a se alimentar rápido demais, o que faz com que normalmente comam mais do que precisam. As pessoas devem comer com calma, mastigar bem os alimentos, e algumas devem ingerir porções menores.

Veja – O senhor acredita em dieta sem exercício físico?
Agatston – Não. Enfatizo a prática de exercícios físicos e eu mesmo os pratico. Algumas pessoas, com o intuito de testar o resultado de minha dieta, param com os exercícios quando a iniciam. Na verdade, elas vão emagrecer, mesmo sem os exercícios. Mas é um erro, porque os exercícios são vitais para uma boa saúde. Quando a pessoa perde peso, perde também massa muscular e o esporte é importante para reduzir essa perda.

Veja – O senhor é um chocólatra assumido e chocolate engorda. Como lida com isso?
Agatston – Minha dieta permite comê-lo a partir da segunda fase, com moderação. O chocolate tem um tipo de gordura saturada que não possui colesterol ruim. A gordura encontrada nele até faz bem à saúde. O problema do chocolate é o açúcar e isso pode ser contornado com as versões amargas, que contêm pouco ou nenhum açúcar. Quanto mais escuro o chocolate, melhor, pois tem menos açúcar.

Veja – Em que países as pessoas comem mal?
Agatston – Nos Estados Unidos, com certeza, é onde comem pior. Infelizmente, parece que estamos exportando para o mundo nossos péssimos hábitos alimentares. Vivemos o apogeu da cultura fast food, que está chegando a outros países. Veja os níveis de colesterol em Hong Kong, que já preocupam os médicos de lá. É algo que surgiu desde a chegada dos restaurantes fast food.

Veja – Por que os fast foods são tão abomináveis?
Agatston – Porque, além de servirem comida processada industrialmente, carregada de gorduras e carboidratos ruins, a própria idéia da rapidez não deveria estar ligada à alimentação. Comer é algo que não pode ser feito com pressa. O pior é que as pessoas carregam o stress do trabalho para a hora da refeição. Comem voando, sem ao menos saber o que estão comendo, e já pensando no que terão de fazer quando voltarem ao trabalho.

Veja – Qual é o maior inimigo de quem deseja estar em forma?
Agatston – A cerveja. Nunca ninguém falou em "barriga de vinho", mas é comum a expressão "barriga de cerveja". Temos nos Estados Unidos a cultura de assistir ao futebol bebendo cerveja. E ela sempre vai bem com salgadinhos, como a batata frita. Isso faz com que a taxa de açúcar no sangue tenha variações enormes em pouco tempo e a pessoa ainda sente fome, por mais que coma. Acho que vocês têm esse problema no Brasil também.

Veja – O senhor acha que as pessoas estão ficando paranóicas com a mania de perder peso?
Agatston – Essa cultura veiculada pela mídia de que as pessoas, principalmente as mulheres, devem ser tão magras é uma das responsáveis por isso. Mas também há uma constatação, trazida à tona por estudos sérios, de que realmente as pessoas estão acima do peso. O número é quatro vezes maior do que era há vinte anos. Minha dieta tem o nome de South Beach, a meca da beleza física, só porque surgiu lá. South Beach deve ser um dos poucos lugares dos Estados Unidos em que as pessoas não precisam de dieta.

Veja – Não é um problema alterar hábitos alimentares que muitas vezes representam até mesmo um traço cultural?
Agatston – As sociedades estão mudando muito rapidamente. Hoje, por exemplo, não é mais um hábito tão comum sentar-se à mesa com a família para comer, como quando eu era criança. Comer rápido, não se reunir com a família para almoçar ou jantar são hábitos que fazem parte do dia-a-dia do homem moderno. Por ser muito flexível, minha dieta é facilmente adaptável aos diferentes hábitos culturais aonde quer que ela chegue.

Veja – Uma refeição brasileira típica tem por base o arroz e o feijão. Para ficar magro seria preciso abrir mão desse prato?
Agatston – Feijão é bom, porque contém proteínas, ferro e fibras, mas o arroz pode ser problema. Nos países orientais, o arroz é feito com grãos integrais, a partir de um processamento diferente do que existe nos Estados Unidos e também no Brasil.

 
 
 
 
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