|
Em
foco: Gustavo Franco
Até
onde podem
cair os juros?
"Passadas
a estabilização e as crises externas,
e observado que a esquerda no Brasil não tem
nada de revolucionária, os juros, agora sim,
têm muito espaço para baixo"
Por
que tem sido tão difícil para o Brasil baixar as taxas
de juros para números de um só dígito, como
foi feito em tantos outros países até mais complicados?
Não faz muito tempo assim, em 1994, a mesma pergunta era
feita com relação à inflação:
por que tínhamos inflação de 30% mensais ou
mais, coisa que não existia em parte alguma? E pior: muito
tempo foi desperdiçado com bobagens do tipo a inflação
está "neutralizada pela indexação" ou "é
apenas inercial". Demoramos a concluir que a hiperinflação
era a expressão de profundos desequilíbrios de ordem
fiscal refletindo o colapso de um modelo de crescimento baseado
em idéias que ficaram para trás, ainda que vivas aqui
e ali.
Com os juros se passa algo muito semelhante, e também aqui
existem várias camadas de equívocos a afastar. A primeira,
e mais básica, é a de que o problema depende de "vontade
política". A designação técnica para
isso é "tautologia", termo muito usado na matemática
para definir uma proposição que é sempre verdadeira,
e por isso mesmo inútil. "Vontade política", em Brasília,
é necessária até para atravessar a rua, mas
sozinha não compra nem um cachorro-quente.
Ilustração Alê Setti
 |
Um segundo equívoco comum é achar que os juros são
altos porque as pessoas que estão no Banco Central são
más e sem coração, pois são "monetaristas"
que não gostam de crescimento nem de muito movimento, e aumentam
os juros quando há engarrafamentos de trânsito ou filas
nos restaurantes. A esse respeito, fique claro que não é
um problema crônico com os dirigentes do BC, presentes e passados,
a maior parte dos quais gente de bom coração, mas
que nem por isso foi capaz de resolver o problema.
Um terceiro engano é travestir a questão como ideológica
e alegar que existe uma "visão alternativa" do problema.
O leitor deve ter clareza de que não existe Papai Noel nem
"política monetária zen" para nos levar a juros de
Primeiro Mundo.
Em resumo, o problema tem parentesco, em natureza e complexidade,
com aquele que produziu a própria hiperinflação,
e qualquer ilusão de que a solução é
simples deve ser eliminada.
Existem pelo menos dois ângulos para observar o problema.
De um lado, são muitos anos de uma "tradição"
formada no período de inflação alta segundo
a qual a taxa de juros real para o "overnight", ou seja, para empréstimos
por um dia com garantia em papéis do Tesouro, tem de ser
alta, uns 8% (acima da inflação!).
De outro, há o problema de os capitais fugirem, ou seja,
se os juros domésticos forem mais baixos que os juros em
dólares para riscos brasileiros, vai sair capital até
que, no limite, toda a poupança financeira nacional vai embora,
como ocorreu na Argentina.
Com respeito ao financiamento do Tesouro, tenha-se claro que um
governo desesperado para tomar emprestado para pagar suas contas
não tem alternativa a pagar juros reais altos para empréstimos
curtos. Essa situação é absurda, mas inevitável
quando se tem déficit fiscal, como ainda temos, e um longo
histórico de irresponsabilidade nesse domínio. Assim
sendo, a regra de ouro para reduzir os juros é simples: aumentar
o superávit primário. Ou seja, trata-se de usar o
produto da "economia" gerada pela redução dos juros
para abater dívida pública, em vez de criar gasto,
da mesma maneira que se fazia com o dinheiro das privatizações.
Com respeito aos movimentos de capital em razão de diferenciais
de juros internos e externos, é preciso ter claro que as
taxas locais devem estar equilibradas com as taxas em dólares
para o risco "Tesouro Nacional", as quais estão entre 0,60%
e 10,5% anuais conforme o prazo. Para transformar taxas em dólares
em taxas em reais teríamos de somar um prêmio relativo
ao "risco de flutuação cambial", mas assim mesmo é
difícil chegar a 17,5% para o prazo de um dia.
Conclusão: passadas a estabilização e as crises
externas, e observado que a esquerda no Brasil não tem nada
de revolucionária, os juros, agora sim, têm muito espaço
para baixo, uma vez obedecida a regra de ouro acima explicada.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
|