Edição 1 623 -10/11/1999

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O fim do contrato social

"Depois de 499 anos,
o Brasil volta ao estado de natureza
retratado por Thomas Hobbes,
em que imperava a guerra
do homem contra o homem"

Ilustração Pepe Casals

A taxa de homicídios praticados no Brasil é assustadora. Em cidades como São Paulo, atinge a marca de 55 assassinatos por 100.000 habitantes ao ano. À primeira vista, esse número não parece tão terrível, afinal é uma chance em 1.818, ou 0,05%, de sermos a vítima. Mas, analisando esses números um pouco mais a fundo, a coisa se complica.

Se conseguirmos sobreviver ao ano, a estatística incidirá novamente no ano seguinte, como uma espada de Dâmocles pairando sobre nossas cabeças. Se sua expectativa de vida for de 72 anos, típica de um leitor ou leitora de VEJA, a probabilidade de ser assassinado pula para quase 4%, ou uma chance em 25. Agora a situação começa a ficar mais perigosa.

Se você for casado e tiver a média de 2,8 filhos, a possibilidade de um de seus entes queridos ser assassinado sobe para 19.008 por 100.000 habitantes, ou quase 20%. Uma chance em cinco.

Se você incluir os seus pais, seu sogro e sua sogra, as chances aumentarão para 34.000 por 100.000, ou uma chance em três. Incluindo seu irmão, cunhada, 2,8 sobrinhos, e se sua esposa incluir a irmã, cunhado e mais 2,8 sobrinhos, o perigo de alguém da família ser assassinado aumenta para 72%. Ou quase três chances em quatro.

Isso se o governo conseguir estancar o assustador aumento na taxa de homicídios. Nesse ritmo, em pouco tempo chegaremos a 75 homicídios por 100.000, e aí a possibilidade de alguém de sua família ser assassinado é de 100%, repito 100%. Tiro certeiro, batata, só falta escolher a cor do caixão. Aliás, oito cidades já ultrapassam esse nível de assassinatos e em Diadema já chegou a 140 homicídios por 100.000. Em Roma, capital da Máfia, a taxa de homicídios é de somente 1,7 por 100.000.

Nos últimos dez anos, nossos governantes, mais preocupados em pagar vultosas aposentadorias, reduziram o salário dos policiais, que nem revólveres modernos possuem, às vezes nem mesmo munição.

Quando morre um policial, são pouquíssimos os políticos, empresários ou cidadãos que vão ao enterro, ninguém manda telegrama para a viúva, nenhuma fundação empresarial se compromete a custear a educação dos filhos. Nossos policiais vão nos proteger até quando com esse tipo de estímulo social?

Depois de 499 anos, o Brasil volta ao estado de natureza retratado por Thomas Hobbes, em que imperava a guerra do homem contra o homem. Hobbes foi o primeiro a sugerir um contrato social, Rousseau veio 100 anos depois. Do contrato social veio a nossa Constituição, só que a de Hobbes teria uma única cláusula. "A função do Estado é, sobretudo, promover a segurança e o direito de vida dos seus membros, para que todos possam progredir em paz."

Assustava Hobbes ver duques se armando até os dentes, contratando mercenários, e o perigo que isso representava para a nação inglesa da época. Hoje, empresas brasileiras e condomínios gastam 1% do PIB em segurança, empresários andam com verdadeiras escoltas. Temos três vezes mais seguranças privados do que policiais, voltamos ao estado de natureza hobbesiano. Se ele estivesse vivo, não hesitaria em declarar que nossos políticos já romperam o contrato social. Diria até que não temos mais governo, algo que muitos brasileiros já suspeitavam.

Hobbes aconselharia políticos a cuidar do item mais vital de uma Constituição sob o risco de não somente perderem seus mandatos como também sua vida. A Ordem dos Advogados do Brasil, seção de São Paulo, saiu a público conclamando a nação contra essa guerra permanente pela inação do governo. Logo logo serão as mulheres marchando pelo bem do Brasil.

Será que teremos de torcer por uma greve dos policiais que fazem a segurança dos nossos governantes para que estes caiam na real?

Quanto aos estupros, assaltos, furtos e atos de violência, o Brasil detém uma das taxas mais elevadas do mundo. Ultrapassa 800 por 100.000 habitantes ao ano. À primeira vista, esse número não parece assustar...

Stephen Kanitz é administrador (http://www.kanitz.com.br)