Edição 1 623 -10/11/1999

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Nem sempre o que
falta é dinheiro

Falta é encarar o problema,
ao contrário do que sugere
o governo paulista,
com sua taxa para a segurança

Se fosse outro, o adequado seria falar em fraude ou mistificação. Como se trata de um governo honesto, como é o atual governo paulista, chamemos de equívoco, só de equívoco, a proposta de Mário Covas de cobrar uma taxa da população para aparelhar a polícia. A idéia, explique-se aos leitores de outros Estados, é lançar 2,50 reais por mês na conta telefônica de cada cidadão. Uma campanha publicitária na TV defende a "teletaxa", como foi batizada a invenção, com o slogan: "São Paulo já tem a melhor polícia do Brasil. Com a teletaxa, terá uma das melhores do mundo".

O slogan tem alto grau de propaganda, se não enganosa, pelo menos de alto risco. Faz uma afirmação temerária em sua primeira parte e, não satisfeito, torna-se mais temerário ainda na aposta contida na segunda. Mas não é isso o mais grave. Nem o fato de o governo estar investindo numa campanha publicitária para dizer que não tem dinheiro. Nem o de a "teletaxa" representar mais um golpe no bolso do contribuinte. E nem mesmo o de inserir-se na discutível política de, não bastassem os impostos gerais, ir-se instituindo contribuições específicas para cada atividade do poder público, uma para o lixo, outra para a saúde, outra para as estradas, agora para a segurança... Não. O mais grave é vender a idéia de que o problema é dinheiro.

Não que não se precise de dinheiro. Dinheiro ajuda sempre. Ajuda até os milionários consórcios estrangeiros que, sem o dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, não se dignariam investir nas privatizações brasileiras. O problema é fechar o foco no dinheiro quando tanto precisaria ser feito antes. Ou, então, reclamar mais dinheiro quando tanta incerteza persiste quanto à boa aplicação do já disponível. A idéia não é perniciosa apenas porque tende a iludir o público. Seus efeitos maléficos estendem-se ao próprio governo, na medida em que o convida à autocomplacência e à inoperância. Como a questão é de dinheiro, e o governo não o tem, ele se sente desde logo desobrigado de suas responsabilidades. Ele e seus agentes – no caso, os policiais.

O especialista em segurança pública José Vicente da Silva, coronel aposentado da PM paulista, hoje dedicado a pesquisas sobre o assunto no Instituto Fernand Braudel, tem apontado, em seus estudos, uma sucessão de casos em que não a falta de dinheiro, mas sua má aplicação ou a falta de disposição para enfrentar antigos vícios entravam a ação da polícia. No orçamento para o ano 2000 enviado pelo governo à Assembléia Legislativa, dos 3,7 bilhões de reais destinados à segurança pública, 3,3 bilhões – 90%! – referem-se a despesas com pessoal, sendo que a despesa com inativos (1,4 bilhão) é quase igual à com os ativos (1,9 bilhão).

A Polícia Militar de São Paulo tem 53 coronéis na ativa e mais de 1.000 na inatividade. Todo membro da PM é promovido automaticamente, ao se aposentar. Da Polícia Florestal de 2 000 homens à banda de música de 600, passando pela fantasiosa "Casa Militar" do governador – como se o Estado fosse fazer guerra, hipótese longínqua mesmo no caso das Minas Gerais de Itamar Franco –, a PM oferece inúmeros nichos por onde escapar do trabalho duro do policiamento. Ao todo, calcula o coronel José Vicente, 20 000 PMs, de um total de 84 000, estão fora dos serviços próprios de polícia.

Passa-se à Polícia Civil e verifica-se que em 1997, segundo dado emanado dela própria, a porcentagem de esclarecimento de crimes na cidade de São Paulo foi de 2,5% – miseráveis 2,5%! Qual seja: enquanto a Polícia Militar, que devia policiar, não policia, a Civil, que devia investigar, não investiga. O Estado adota a política de ter um delegado em cada um de seus 645 municípios. Isso significa que os 106 municípios com até 5 000 habitantes, onde a média é de dezoito ocorrências por ano, segundo os estudos do coronel, também têm, cada um, seu delegado, enquanto em muitas áreas da Grande São Paulo, onde está o grosso do problema, eles faltam. O município de Aparecida D'Oeste, de 4.760 habitantes, tem um delegado, dois investigadores, cinco PMs e quatro veículos – um Opala, dois Fiat Uno e um Ipanema. Nos últimos cinco anos, o crime mais grave ali ocorrido foi um roubo.

Não consta que o governo Covas tenha atacado de rijo tais problemas. Deixou correr solta a mesma falta de organização e de gerência de sempre. Mostrou a mesma indisposição em mexer nos interesses corporativos. E ainda quer mais dinheiro... É como reivindicar aumento de salário a um funcionário inoperante. Certa vez o grande Millôr Fernandes premiou o então prefeito do Rio Saturnino Braga, político honesto, mas que, por inércia ou laxismo, levou a prefeitura à bancarrota, com o título de "o homem que desmoralizou a honradez". Eis o perigo que ronda Mário Covas. O pior é que seu fracasso trabalha em favor dos desonrados. Aqueles que, no governo, favorecem as brutalidades policiais e as matanças, sem falar na corrupção, mas que a população, por falta de exemplos eficazes que a eles se contraponham, identifica como vigilantes e duros no combate ao crime.