Edição 1 623 -10/11/1999

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De fôlego novo

Já era tempo – com Corra Lola, Corra,
o cinema alemão volta a dar sinais de vitalidade

Isabela Boscov

Bernd Spauke
Franka Potente, que vive a protagonista: amor em embalagem transgressiva


Há quase vinte anos Werner Herzog não lança um filme digno de nota. Rainer Werner Fassbinder morreu em 1982 e Wim Wenders continua rodando, só que em falso. Privado de seus expoentes, não é de estranhar que o cinema alemão tenha praticamente sumido do cenário mundial. A produção do país continua viva, mas raras vezes alcança aquela ressonância que fez dela uma das mais celebradas da década de 70. Um bom indício de que a Alemanha pode voltar a dar o tom chega nesta sexta-feira aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro. Corra Lola, Corra (Lola Rennt, Alemanha, 1998) não tem nomes célebres na frente ou atrás das câmaras. Também não é uma alegoria sobre crises históricas ou existenciais, como tantos filmes daquele país. O drama aqui é o mais imediato possível: a jovem Lola tem apenas vinte minutos para reunir uma fortuna em dinheiro e impedir que um gângster execute seu namorado. Sua correria desenfreada, porém, vai se desenrolar aos olhos da platéia não apenas uma, mas três vezes. Como se fossem universos paralelos. Em cada um deles, mudanças mínimas na ação ou no humor dos personagens acarretam desfechos radicalmente diferentes.

Não é difícil perceber que Corra Lola, Corra tem laços bem mais fortes com produções como o americano Pulp Fiction e o inglês Trainspotting do que com a tradição alemã. Ainda assim, pela originalidade e vigor com que o diretor Tom Tykwer aborda esse enredo tão simples, sua fita é um exemplar digno do melhor que seu país já produziu. O mais surpreendente em Lola, no entanto, não é o visual transgressivo ou a trilha sonora tecno que pontua a ação aeróbica. Dentro dessa embalagem moderna, há uma boa e velha história de amor. E o diretor Tykwer não poderia ter escolhido melhor figura para ancorá-la do que a atriz Franka Potente, que vive a protagonista. Com sua determinação, sua energia física e seus gritos capazes de quebrar vidro, ela cumpre tudo aquilo que seu sobrenome promete.