Edição 1 623 -10/11/1999

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O golpe do baú

Faltou criatividade?
O jeito é regravar canções antigas
que o público já conhece

Rogerio Voltan

Falcão: antologia do brega como arma para voltar a vender discos

A julgar pelos lançamentos de MPB neste final de ano, a criatividade do gênero anda mesmo em baixa. Muitos de seus nomes mais conhecidos, em vez de gravar discos com músicas novas, dedicaram-se a regravar canções antigas, de sua própria lavra ou de outros artistas. Na semana passada, chegou às lojas o CD As Dez Mais, dos Titãs, cujas atrações são sucessos de Lulu Santos e dos Mamonas Assassinas. O grupo Ira! contra-atacou com Isso É Amor, onde cantam Sentado à Beira do Caminho, de Roberto e Erasmo Carlos, entre outras velharias. Na área popularesca, Falcão está lançando 500 Anos de Chifre, uma espécie de antologia do brega em todos os tempos. Gal Costa também optou pelo passado em seu Gal Canta Tom Jobim. O compositor Djavan, por seu turno, está com um CD duplo na praça, no qual passa em revista o seu repertório. Em dezembro, o grupo Barão Vermelho sai com Balada MTV, que resgata do baú hits de Raul Seixas e do Legião Urbana.

Rui Mendes

Titãs: músicas de Lulu Santos e dos Mamonas para driblar a crise

"Não optamos pelas regravações por uma questão de marketing, mas porque não estávamos com energia para aprontar canções inéditas", admite Marcelo Frommer, dos Titãs. A falta de criatividade explica apenas em parte essa mania de regravações. A onda também atende a uma demanda do público. E que demanda. O mercado vem apostando nesse recurso desde que Maria Bethânia gravou um CD só com músicas de Roberto Carlos, em 1993, e pulou da média de 100.000 discos vendidos para mais de 1 milhão. As gravadoras estão achando tudo ótimo. Pela simples razão de que o risco de perder dinheiro é mínimo, ao contrário do que acontece com os discos realmente novos. "Toda vez que o mercado passa por dificuldades, como agora, em que as vendagens caíram, é natural que as regravações surjam com mais força", diz Sérgio Affonso, presidente da WEA. As regravações por motivos mercadológicos não são uma exclusividade brasileira. No exterior, quando dois discos de um artista famoso vão mal consecutivamente, o truque é usado com freqüência. Foi o que aconteceu há pouco com o cantor George Michael, que acaba de lançar um CD com músicas manjadas de Cole Porter e George Gershwin. As regravações representam um bom caça-níqueis, mas a longo prazo servem apenas para banalizar a carreira dos artistas.