Edição 1 623 -10/11/1999

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Guerra é guerra

Para enfrentar a concorrência,
o velho e bom Aurélio
ganha uma versão atualizada

Celso Masson

Antonio Ribeiro
O autor: sinônimo de dicionário


Após treze anos sem passar por nenhuma atualização, o dicionário Aurélio finalmente chega reformulado às livrarias. A nova edição, que traz o subtítulo Século XXI, foi impressa em duas cores, recurso que facilita a consulta, e tem 300 páginas a mais do que a versão anterior: exatas 2.160. Desde que foi lançado, em 1975, o Aurélio já vendeu 15 milhões de exemplares. No mercado editorial brasileiro, só a Bíblia bateu essa tiragem. Entre os dicionários, não teve concorrentes de peso até abril do ano passado, quando surgiu o Michaelis. Com 2.259 páginas, mais de 200.000 verbetes e custando cerca de 20 reais mais barato que o rival, a novidade foi um sucesso. Vendeu 85.000 exemplares em pouco mais de um ano. Agora é a vez de o veterano contra-atacar. Adotando uma estratégia inédita, a Editora Nova Fronteira não fixou o preço de venda, que será definido pelo lojista. Estima-se que chegue ao comprador na faixa de 90 reais. A versão eletrônica do dicionário, em CD-ROM, também terá preço liberado.

O Novo Aurélio Século XXI tem 25% mais texto do que a edição anterior. Ele agora traz 28.000 verbetes que não existiam, totalizando 168.000. Como esse número ainda é menor que o do concorrente, a editora fez um malabarismo. Em vez de indicar apenas a quantidade de verbetes, soma-os às locuções e definições. O resultado é um número vistoso, 435.000. Só que ele não corresponde ao critério usado internacionalmente para descrever a abrangência de uma obra desse gênero. Apesar do truque, é inegável que o dicionário está mais completo. O grande acréscimo deu-se nos termos relativos à informática. A palavra navegação, antes restrita ao ato de locomover-se em embarcação ou aeronave, agora vem definida também como "ato ou efeito de percorrer um hipertexto". Hipertexto, como se sabe, é mais uma novidade da era da internet que não existia em 1986, ano da segunda edição do Aurélio.

O dicionário que sai agora começou a ser preparado assim que o anterior deixou o prelo. Na ocasião, o alagoano Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989) ainda coordenava pessoalmente os trabalhos. Sua maior preocupação, que acabou se tornando a principal característica do dicionário, é o uso de exemplos e citações literárias. Na nova edição, eles somam 54.000, extraídos de 1.400 autores. Com a morte de seu criador, a reedição do dicionário ficou a cargo de Marina Baird Ferreira, uma ex-aluna que se tornou assistente e, por fim, mulher do autor. Ela atualizou o dicionário com a ajuda da lexicógrafa Margarida dos Anjos Couto e de um time de onze pesquisadores, dois deles egressos da equipe que colaborou com o filólogo Antônio Houaiss na elaboração do mais ambicioso dicionário da língua portuguesa, ainda sem previsão de lançamento.

O jeitão Aurélio foi preservado, mesmo ferindo as normas do politicamente correto. "Avarento" continua sendo sinônimo para "judeu" e a expressão "preto de alma branca" não foi descartada. Há algumas esquisitices na nova edição. Um dos verbetes acrescentados é "ium-el-ahad", o primeiro dia da semana do calendário muçulmano, equivalente ao domingo. Normalmente, palavras como essa figuram em enciclopédias. "Consideramos que as datas significativas do mundo árabe estão cada vez mais presentes no noticiário dos países de língua portuguesa", justifica Marina. Por pura modéstia, o termo "aurélio" não foi transformado em verbete, apesar de ter virado sinônimo de dicionário.