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Aventura literária
Um olhar sobre Finnegans Wake,
de Joyce, em sua primeira tradução
integral para o português
Harold Bloom*
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Joyce e a Dublin de sua época:
ele competia com Dante e Shakespeare
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Se o francês Gustave Flaubert foi o exemplo maior,
no século XIX, do escritor que vive apenas para a sua
arte, em nossa época foi o irlandês James Joyce
quem ocupou esse papel de esteta supremo. Joyce é o
herói do século XX. Ele acreditava estar em
competição com dois grandes precursores, Dante
e Shakespeare este último, o nome central do cânone
literário do Ocidente. Não creio que ombreie
de fato com nenhum dos dois. Esse propósito é
vasto demais e nem sequer Joyce poderia preenchê-lo.
Mesmo perdendo, no entanto, Joyce lutou brilhantemente. A
palavra audácia o descreve como autor. Como Shakespeare,
bastava que dominasse uma forma para deixá-la para
trás. Ele dominou o conto, em Dublinenses, e
então foi adiante. Fez um romance de formação,
Retrato do Artista Quando Jovem, e seguiu adiante.
Ulisses foi um enorme avanço, com seu intricado
simbolismo, fundado num curioso amálgama do Hamlet
shakespeariano e da Odisséia de Homero,
superposto à estrutura de um romance realista apto
a retratar historicamente uma cidade como Dublin.
Um idioma particular
"A grande queda desdeo altomuro arrastou em curtolance
a pftjqueda de Finnegan, varão outrora
mais q'estável, que a vaziamontesta lá
dele prumptamente desvestiga quem lhe diga no Ocidente
o acidente da perda dos dedos dos pés: e seu
parcoespaçoepouso é na porta do parque,
lugar de arranjos de oranges mofados sobre o verde desde
que Diadublim um diamou Livividinha.
Que choques cá de querências contra carência,
ostragodos versus piscigodos! Brékkek
Kékkek Kékkek! Kóax Kóax
Kóax! Ualu Ualu Ualu! Quaouauh! Onde bandos de
botocudos inda avançam para arrasamassacrar linguarudos
e verduns catapultarremessam contra kanibalísticos
para fora da irlandalvosboycia de Montecaveira".
Trecho de Finnegans
Wake
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E então veio a grandiosa aventura do Finnegans
Wake, repleta de invenção, infinitamente
alusiva, uma festa de linguagem que é a verdadeira
obra-prima de Joyce. Que uma tradução completa
desse livro venha à luz no Brasil é espantoso
e emocionante. Que trabalho de amor deve ser! É difícil
imaginar essa tarefa sendo realizada mas talvez se possa
tecer a mesma tapeçaria partindo do português
brasileiro, assim como Joyce partiu de sua língua anglo-irlandesa.
A leitura de Joyce está cercada pelo mito da dificuldade.
Há dificuldades reais e imaginárias. Quem se
aproximar de sua obra por Dublinenses estará
diante de um contista que partilha da mesma veia do russo
Tchekov e não oferece profunda resistência. Se
fosse preciso recomendar ao leitor comum uma única
obra de Joyce, seria o conto O Morto, tanto por sua
alta qualidade quanto por sua legibilidade. Mesmo Ulisses,
que a princípio pode parecer excessivamente rico e
elaborado, não é um livro intransponível.
No entanto, ao voltar-me para Finnegans Wake, não
consigo evitar alguma ansiedade com respeito à sua
sobrevivência. Vivemos numa cultura obcecada com a TV,
com filmes e até com a realidade virtual. A literatura
fala ao "ouvido interior". Fala para a mente, o coração
e a imaginação. A literatura não é
um fenômeno ocular, embora leiamos com o olho. Não
vejo como o Finnegans Wake possa sobreviver a uma época
em que a leitura se tornou tão desvalorizada. Suspeito
que morrerá no próximo século.
Talvez o maior escritor do século XX, em qualquer
língua, seja o francês Marcel Proust. Com Em
Busca do Tempo Perdido, Proust é mais profundo
que Joyce. É um humorista mais sutil, um melhor estilista
e possui um sentido trágico da existência que
transcende Joyce. O checo Franz Kafka também se equipara
a Joyce como grande figura literária. Era primariamente
um contista e criador de parábolas, o que torna mais
fácil sua assimilação por uma era cuja
atenção para a literatura tende a ser limitada.
Porém, às vezes me pergunto se mesmo esses autores
serão capazes de sobreviver à era visual. Pergunto-me
se Proust não se mostrará sutil demais para
o leitor do próximo milênio.
Todos os críticos estão de acordo que Finnegans
Wake continua de onde Ulisses termina. Se o triunfo
de Ulisses foi uma releitura do romance realista, no
Finnegans Wake a linguagem e os símbolos ocupam
o lugar que personagens e personalidades ocupavam antes. Por
exemplo: enquanto Leopold Bloom, o personagem central de Ulisses,
é um homem completo, Humphrey Chimpdem Earwicker, de
Finnegans Wake, é uma enorme figura mítica,
um hieróglifo gigante, um composto de figuras por demais
imenso para que possa ser considerado uma pessoa. O Wake
não é assim tão difícil conceitualmente,
e pode ser muito engraçado. Mas é preciso romper
a barreira de sua linguagem, uma linguagem que é uma
espécie de "esperanto universal" que tem o inglês
como base e assimila palavras de todas as línguas imagináveis.
Precisamente porque em seu maior trabalho Joyce se preocupou
tanto com a riqueza da linguagem, temo que suas chances de
sobreviver à era visual são reduzidas. Ainda
assim, gostaria de aconselhar leitores aventureiros, que amam
de fato a literatura e querem ir até suas fronteiras,
a ler corajosamente o livro.
Escalando o Everest
Liane Neves
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| Donaldo Schüler: autor de uma façanha
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Desde que veio à luz, em 1939, o Finnegans
Wake de James Joyce tem representado para os tradutores
aquilo que o Everest representa para os alpinistas:
o desafio máximo, quase intransponível.
No mundo todo, poucos fragmentos do livro ganharam versões
satisfatórias. Cerca de um terço da obra-prima
de Joyce pode ser lido em espanhol. Há quatro
capítulos em italiano. No Brasil, os concretistas
Augusto e Haroldo de Campos ofereceram alguns trechos
aos leitores em Panaroma do Finnegans Wake. Só
mesmo os franceses dispunham até hoje de uma
versão integral. Com isso, pode-se ter uma idéia
da verdadeira façanha realizada pelo professor
gaúcho Donaldo Schüler, 67 anos, que depois
de estudar o livro por mais de quatro décadas
traduziu uma de suas páginas por dia nos últimos
dois anos e agora começa a revelar os resultados
de seu esforço: acompanhado de notas e numa bela
edição bilíngüe, o primeiro
capítulo do Finnegans Wake em português
chega às livrarias no final desta semana (Ateliê
Editorial/Casa de Cultura Guimarães Rosa; 144
páginas; 35 reais). Assim como Joyce,
que levou dezesseis anos trabalhando em seu livro, Schüler
se refere à sua tradução como "obra
em andamento". Em andamento e extorsiva. A editora lançará
um capítulo a cada três meses, até
que todos os dezessete estejam no mercado. Ou seja,
mantendo-se o preço de 35 reais, o Finnegans
Wake à brasileira custará ao final
595 reais. Um roubo.
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* Harold Bloom, eminente
crítico americano,
é autor de A Angústia da Influência
e de O Cânone Ocidental
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