Edição 1 623 -10/11/1999

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Aventura literária

Um olhar sobre Finnegans Wake,
de Joyce, em sua primeira tradução
integral para o português


Harold Bloom*

Joyce e a Dublin de sua época: ele competia com Dante e Shakespeare

Se o francês Gustave Flaubert foi o exemplo maior, no século XIX, do escritor que vive apenas para a sua arte, em nossa época foi o irlandês James Joyce quem ocupou esse papel de esteta supremo. Joyce é o herói do século XX. Ele acreditava estar em competição com dois grandes precursores, Dante e Shakespeare – este último, o nome central do cânone literário do Ocidente. Não creio que ombreie de fato com nenhum dos dois. Esse propósito é vasto demais e nem sequer Joyce poderia preenchê-lo. Mesmo perdendo, no entanto, Joyce lutou brilhantemente. A palavra audácia o descreve como autor. Como Shakespeare, bastava que dominasse uma forma para deixá-la para trás. Ele dominou o conto, em Dublinenses, e então foi adiante. Fez um romance de formação, Retrato do Artista Quando Jovem, e seguiu adiante. Ulisses foi um enorme avanço, com seu intricado simbolismo, fundado num curioso amálgama do Hamlet shakespeariano e da Odisséia de Homero, superposto à estrutura de um romance realista apto a retratar historicamente uma cidade como Dublin.

Um idioma particular

"A grande queda desdeo altomuro arrastou em curtolance a pftjqueda de Finnegan, varão outrora mais q'estável, que a vaziamontesta lá dele prumptamente desvestiga quem lhe diga no Ocidente o acidente da perda dos dedos dos pés: e seu parcoespaçoepouso é na porta do parque, lugar de arranjos de oranges mofados sobre o verde desde que Diadublim um diamou Livividinha.

Que choques cá de querências contra carência, ostragodos versus piscigodos! Brékkek Kékkek Kékkek! Kóax Kóax Kóax! Ualu Ualu Ualu! Quaouauh! Onde bandos de botocudos inda avançam para arrasamassacrar linguarudos e verduns catapultarremessam contra kanibalísticos para fora da irlandalvosboycia de Montecaveira".

Trecho de Finnegans Wake

E então veio a grandiosa aventura do Finnegans Wake, repleta de invenção, infinitamente alusiva, uma festa de linguagem que é a verdadeira obra-prima de Joyce. Que uma tradução completa desse livro venha à luz no Brasil é espantoso e emocionante. Que trabalho de amor deve ser! É difícil imaginar essa tarefa sendo realizada – mas talvez se possa tecer a mesma tapeçaria partindo do português brasileiro, assim como Joyce partiu de sua língua anglo-irlandesa.

A leitura de Joyce está cercada pelo mito da dificuldade. Há dificuldades reais e imaginárias. Quem se aproximar de sua obra por Dublinenses estará diante de um contista que partilha da mesma veia do russo Tchekov e não oferece profunda resistência. Se fosse preciso recomendar ao leitor comum uma única obra de Joyce, seria o conto O Morto, tanto por sua alta qualidade quanto por sua legibilidade. Mesmo Ulisses, que a princípio pode parecer excessivamente rico e elaborado, não é um livro intransponível. No entanto, ao voltar-me para Finnegans Wake, não consigo evitar alguma ansiedade com respeito à sua sobrevivência. Vivemos numa cultura obcecada com a TV, com filmes e até com a realidade virtual. A literatura fala ao "ouvido interior". Fala para a mente, o coração e a imaginação. A literatura não é um fenômeno ocular, embora leiamos com o olho. Não vejo como o Finnegans Wake possa sobreviver a uma época em que a leitura se tornou tão desvalorizada. Suspeito que morrerá no próximo século.

Talvez o maior escritor do século XX, em qualquer língua, seja o francês Marcel Proust. Com Em Busca do Tempo Perdido, Proust é mais profundo que Joyce. É um humorista mais sutil, um melhor estilista e possui um sentido trágico da existência que transcende Joyce. O checo Franz Kafka também se equipara a Joyce como grande figura literária. Era primariamente um contista e criador de parábolas, o que torna mais fácil sua assimilação por uma era cuja atenção para a literatura tende a ser limitada. Porém, às vezes me pergunto se mesmo esses autores serão capazes de sobreviver à era visual. Pergunto-me se Proust não se mostrará sutil demais para o leitor do próximo milênio.

Todos os críticos estão de acordo que Finnegans Wake continua de onde Ulisses termina. Se o triunfo de Ulisses foi uma releitura do romance realista, no Finnegans Wake a linguagem e os símbolos ocupam o lugar que personagens e personalidades ocupavam antes. Por exemplo: enquanto Leopold Bloom, o personagem central de Ulisses, é um homem completo, Humphrey Chimpdem Earwicker, de Finnegans Wake, é uma enorme figura mítica, um hieróglifo gigante, um composto de figuras por demais imenso para que possa ser considerado uma pessoa. O Wake não é assim tão difícil conceitualmente, e pode ser muito engraçado. Mas é preciso romper a barreira de sua linguagem, uma linguagem que é uma espécie de "esperanto universal" – que tem o inglês como base e assimila palavras de todas as línguas imagináveis. Precisamente porque em seu maior trabalho Joyce se preocupou tanto com a riqueza da linguagem, temo que suas chances de sobreviver à era visual são reduzidas. Ainda assim, gostaria de aconselhar leitores aventureiros, que amam de fato a literatura e querem ir até suas fronteiras, a ler corajosamente o livro.

 

Escalando o Everest

Liane Neves
Donaldo Schüler: autor de uma façanha


Desde que veio à luz, em 1939, o Finnegans Wake de James Joyce tem representado para os tradutores aquilo que o Everest representa para os alpinistas: o desafio máximo, quase intransponível. No mundo todo, poucos fragmentos do livro ganharam versões satisfatórias. Cerca de um terço da obra-prima de Joyce pode ser lido em espanhol. Há quatro capítulos em italiano. No Brasil, os concretistas Augusto e Haroldo de Campos ofereceram alguns trechos aos leitores em Panaroma do Finnegans Wake. Só mesmo os franceses dispunham até hoje de uma versão integral. Com isso, pode-se ter uma idéia da verdadeira façanha realizada pelo professor gaúcho Donaldo Schüler, 67 anos, que depois de estudar o livro por mais de quatro décadas traduziu uma de suas páginas por dia nos últimos dois anos e agora começa a revelar os resultados de seu esforço: acompanhado de notas e numa bela edição bilíngüe, o primeiro capítulo do Finnegans Wake em português chega às livrarias no final desta semana (Ateliê Editorial/Casa de Cultura Guimarães Rosa; 144 páginas; 35 reais). Assim como Joyce, que levou dezesseis anos trabalhando em seu livro, Schüler se refere à sua tradução como "obra em andamento". Em andamento e extorsiva. A editora lançará um capítulo a cada três meses, até que todos os dezessete estejam no mercado. Ou seja, mantendo-se o preço de 35 reais, o Finnegans Wake à brasileira custará ao final 595 reais. Um roubo.

* Harold Bloom, eminente crítico americano,
é autor de
A Angústia da Influência e de O Cânone Ocidental