Edição 1 623 -10/11/1999

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
O que é bom para os EUA é bom para o Brasil?
Para usar
Pesquisa mostra que mulher dirige melhor
A recuperação da forma física depois do parto

Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Hipertexto
Gente
Datas

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Caia na real,
meu amigo

Nem tudo o que é bom para o mercado
de trabalho americano serve para um
profissional que atua no Brasil

Rodrigo Amaral

Montagem de Alê Setti sobre foto de Bia Parreiras

Divididos entre a realidade brasileira e o receituário dos gringos, muitos jovens executivos perdem tempo e dinheiro



Vários conceitos surgidos entre os consultores americanos chegaram ao Brasil sem que os responsáveis por sua divulgação tivessem tomado o cuidado de aclimatá-los à cultura predominante nas empresas nacionais. O resultado dessa falta de adequação são profissionais iludidos, que perdem tempo seguindo conselhos inúteis. "Muita gente se prepara para atender a exigências em relação às quais as firmas brasileiras não são totalmente receptivas", diz a consultora Elaine Saad, de São Paulo, especialista em recursos humanos. Isso não significa, claro, que se deva deixar de acompanhar o que ocorre lá fora. Seria um suicídio a longo prazo a globalização é um fenômeno irreversível e, dentro de uma década ou pouco mais, as empresas do país estarão mais parecidas com as dos Estados Unidos. Mas, antes que isso aconteça, é bom verificar o que funciona ou não no atual mercado de trabalho brasileiro.

Currículos pela internet

Nos Estados Unidos, é normal que um executivo empregado se ofereça abertamente a outras empresas, caso esteja descontente. Isso não desvaloriza o seu passe. Essa característica do mercado ganhou impulso com a expansão da internet, um dos caminhos mais eficazes para divulgar currículos e encontrar novos postos. No Brasil é diferente. O profissional que procura trabalho por conta própria, sem que tenha atendido a um anúncio de jornal ou recebido um convite, é visto com desconfiança. Por aqui, a teia de amizades de um indivíduo ainda é mais importante que sua formação e experiência. "Percebemos que os executivos de nível gerencial que colocam seu currículo na rede recebem propostas salariais mais baixas", diz Grace Pedreira Motta, da A.T. Kearney, empresa de consultoria de recursos humanos sediada em São Paulo. Atenção: quem se oferece via internet para trabalhar fora do Brasil e obtém respostas encorajadoras de firmas estrangeiras deve estar preparado para sofrer uma frustração. Conseguir o visto de trabalho em países desenvolvidos pode ser bem complicado. "A legislação trabalhista, principalmente no que diz respeito à imigração de mão-de-obra, não evoluiu na mesma velocidade que as tecnologias de informação", afirma a consultora Elaine Saad.

Tempo ocioso


Nos países desenvolvidos, sobretudo na Europa, virou moda falar em redução da jornada de trabalho dos executivos e na valorização do tempo ocioso dos profissionais. A discussão chegou ao Brasil, desperta simpatias no mercado e, pode-se dizer, é uma batalha vencida no campo da teoria. Na prática, porém, ainda vai levar anos para essa idéia se consolidar. Portanto, quem estiver interessado em ampliar suas chances no mercado deve fechar os ouvidos a essa novidade e reservar gás para expedientes prolongados e extenuantes. Mas você terá toda a simpatia de seu chefe se, na medida do possível, conseguir realizar suas tarefas dentro do horário estipulado pela empresa. Isso denota organização e equilíbrio.

Negócios virtuais

Histórias como a do americano Jeff Bezos, que começou do nada a livraria virtual Amazon, hoje avaliada em 14 bilhões de dólares, fortaleceram o mito de que uma idéia genial e um pouco de arrojo são suficientes para um sujeito ficar milionário com a internet. Não é bem assim. Diversos grupos de grande porte estão investindo quantias formidáveis no promissor mercado brasileiro. "Mesmo com a melhor idéia do mundo, o pequeno empreendedor nacional enfrentará dificuldades quase insuperáveis se não estiver associado a um jogador de peso", diz o empresário Ricardo de Carvalho Machado, diretor de internet da Associação das Empresas Brasileiras de Software e Serviços de Informática, Assespro, de São Paulo. Quem pensa em entrar na rede com a idéia de ganhar dinheiro deve estar preparado para um período prolongado de vacas magras. Faltam financiamentos e é difícil capitalizar-se via bolsa de valores, como acontece com as congêneres americanas. Em sete meses de atuação, o empresário Alejandro Stisin, de São Paulo, não tirou um centavo sequer de suas duas lojas virtuais. "Procuro reinvestir na empresa o pequeno lucro que consigo", diz ele. "É a única forma de seguir adiante."

Cursos no exterior


Mais uma decisão que exige reflexão, ainda que à primeira vista seja tentadora: fazer cursos de especialização de longa duração no estrangeiro. Não há como negar o aprimoramento técnico proporcionado por um MBA nos Estados Unidos, mas especialistas recomendam analisar cuidadosamente a relação custo-benefício de permanecer dois anos longe do mercado brasileiro e ainda gastar cerca de 100.000 reais para financiar os estudos. Ao contrário do que se acredita, a volta ao país não é sempre um mar de rosas. "Muitos headhunters não conhecem alguns dos cursos oferecidos lá fora e, por isso, não dão o devido valor ao profissional na hora em que ele está procurando um bom emprego", diz o administrador de empresas Erick Lanzilota Domingues, que possui dois mestrados em universidades americanas. Se você acha imprescindível estudar no exterior, tenha como meta apenas as instituições renomadas.

Delegação de poderes


Um conceito que ganha espaço nas empresas americanas é o "empowerment". O empowerment nada mais é do que delegar a subordinados o poder de tomar certas decisões. Isso é visto como uma chance para que o funcionário possa mostrar seu talento e prosperar na carreira. "No Brasil, a maioria dos chefes não quer ouvir falar de abrir mão de seus poderes", diz o consultor de recursos humanos Eduardo Rienzo Najjar, da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte.

Trabalho em casa


Freqüentemente se diz que o avanço das telecomunicações permitirá a um grande número de pessoas trabalhar em casa. Nos Estados Unidos, essa é uma realidade que começa a ter peso estatístico entre os profissionais que mantêm vínculos com empresas. No Brasil, só vale para quem monta um negócio próprio. Poucas firmas tiveram a coragem de adotar o modelo. A razão para isso é cultural. Conforme os especialistas, ainda vigora no país uma certa desconfiança dos chefes em relação aos subordinados. Eles têm medo de que os funcionários, em vez de dar duro no aconchego do lar, se ocupem de outras atividades. Não é um receio infundado, reconheça-se.

Línguas exóticas

Tem gente recomendando até que se estude chinês, sob o argumento de que o domínio dessa língua é essencial para ganhar dinheiro no país mais populoso do mundo. Bobagem de americano que não tem o que inventar. A verdade é que os modismos nessa área devem ser encarados com reserva. Um executivo brasileiro precisa mesmo é do inglês, a língua franca da era contemporânea. Na hora de escolher um terceiro idioma, opte pelo espanhol, por causa de nuestros hermanos del Mercosur

Ilustrações de Wander Mendes