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Caia na real,
meu amigo
Nem tudo o que é bom para o mercado
de trabalho americano serve para um
profissional que atua no Brasil
Rodrigo Amaral
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Montagem de Alê Setti sobre
foto de Bia Parreiras
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Divididos entre a realidade brasileira e o receituário
dos gringos, muitos jovens executivos perdem tempo e dinheiro
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Vários conceitos surgidos entre os consultores americanos chegaram
ao Brasil sem que os responsáveis por sua divulgação tivessem tomado
o cuidado de aclimatá-los à cultura predominante nas empresas nacionais.
O resultado dessa falta de adequação são profissionais iludidos,
que perdem tempo seguindo conselhos inúteis. "Muita gente se
prepara para atender a exigências em relação às quais as firmas
brasileiras não são totalmente receptivas", diz a consultora
Elaine Saad, de São Paulo, especialista em recursos humanos. Isso
não significa, claro, que se deva deixar de acompanhar o que ocorre
lá fora. Seria um suicídio a longo prazo a globalização é um fenômeno
irreversível e, dentro de uma década ou pouco mais, as empresas
do país estarão mais parecidas com as dos Estados Unidos. Mas, antes
que isso aconteça, é bom verificar o que funciona ou não no atual
mercado de trabalho brasileiro.
Currículos pela internet –
Nos Estados Unidos, é normal que um executivo empregado se ofereça
abertamente a outras empresas, caso esteja descontente. Isso não
desvaloriza o seu passe. Essa característica do mercado ganhou impulso
com a expansão da internet, um dos caminhos mais eficazes para divulgar
currículos e encontrar novos postos. No Brasil é diferente. O profissional
que procura trabalho por conta própria, sem que tenha atendido a
um anúncio de jornal ou recebido um convite, é visto com desconfiança.
Por aqui, a teia de amizades de um indivíduo ainda é mais importante
que sua formação e experiência. "Percebemos que os executivos
de nível gerencial que colocam seu currículo na rede recebem propostas
salariais mais baixas", diz Grace Pedreira Motta, da A.T. Kearney,
empresa de consultoria de recursos humanos sediada em São Paulo.
Atenção: quem se oferece via internet para trabalhar fora do Brasil
e obtém respostas encorajadoras de firmas estrangeiras deve estar
preparado para sofrer uma frustração. Conseguir o visto de trabalho
em países desenvolvidos pode ser bem complicado. "A legislação
trabalhista, principalmente no que diz respeito à imigração de mão-de-obra,
não evoluiu na mesma velocidade que as tecnologias de informação",
afirma a consultora Elaine Saad.
Tempo ocioso –

Nos países desenvolvidos, sobretudo na Europa, virou moda falar
em redução da jornada de trabalho dos executivos e na valorização
do tempo ocioso dos profissionais. A discussão chegou ao Brasil,
desperta simpatias no mercado e, pode-se dizer, é uma batalha vencida
no campo da teoria. Na prática, porém, ainda vai levar anos para
essa idéia se consolidar. Portanto, quem estiver interessado em
ampliar suas chances no mercado deve fechar os ouvidos a essa novidade
e reservar gás para expedientes prolongados e extenuantes. Mas você
terá toda a simpatia de seu chefe se, na medida do possível, conseguir
realizar suas tarefas dentro do horário estipulado pela empresa.
Isso denota organização e equilíbrio.
Negócios virtuais –
Histórias como a do americano Jeff Bezos, que começou do nada a
livraria virtual Amazon, hoje avaliada em 14 bilhões de dólares,
fortaleceram o mito de que uma idéia genial e um pouco de arrojo
são suficientes para um sujeito ficar milionário com a internet.
Não é bem assim. Diversos grupos de grande porte estão investindo
quantias formidáveis no promissor mercado brasileiro. "Mesmo
com a melhor idéia do mundo, o pequeno empreendedor nacional enfrentará
dificuldades quase insuperáveis se não estiver associado a um jogador
de peso", diz o empresário Ricardo de Carvalho Machado, diretor
de internet da Associação das Empresas Brasileiras de Software e
Serviços de Informática, Assespro, de São Paulo. Quem pensa em entrar
na rede com a idéia de ganhar dinheiro deve estar preparado para
um período prolongado de vacas magras. Faltam financiamentos e é
difícil capitalizar-se via bolsa de valores, como acontece com as
congêneres americanas. Em sete meses de atuação, o empresário Alejandro
Stisin, de São Paulo, não tirou um centavo sequer de suas duas lojas
virtuais. "Procuro reinvestir na empresa o pequeno lucro que
consigo", diz ele. "É a única forma de seguir adiante."
Cursos no exterior –

Mais uma decisão que exige reflexão, ainda que à primeira
vista seja tentadora: fazer cursos de especialização de longa duração
no estrangeiro. Não há como negar o aprimoramento técnico proporcionado
por um MBA nos Estados Unidos, mas especialistas recomendam analisar
cuidadosamente a relação custo-benefício de permanecer dois anos
longe do mercado brasileiro e ainda gastar cerca de 100.000
reais para financiar os estudos. Ao contrário do que se acredita,
a volta ao país não é sempre um mar de rosas. "Muitos headhunters
não conhecem alguns dos cursos oferecidos lá fora e, por isso, não
dão o devido valor ao profissional na hora em que ele está procurando
um bom emprego", diz o administrador de empresas Erick Lanzilota
Domingues, que possui dois mestrados em universidades americanas.
Se você acha imprescindível estudar no exterior, tenha como meta
apenas as instituições renomadas.
Delegação de poderes –

Um conceito que ganha espaço nas empresas americanas é o "empowerment".
O empowerment nada mais é do que delegar a subordinados o poder
de tomar certas decisões. Isso é visto como uma chance para que
o funcionário possa mostrar seu talento e prosperar na carreira.
"No Brasil, a maioria dos chefes não quer ouvir falar de abrir
mão de seus poderes", diz o consultor de recursos humanos Eduardo
Rienzo Najjar, da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte.
Trabalho em casa –

Freqüentemente se diz que o avanço das telecomunicações
permitirá a um grande número de pessoas trabalhar em casa. Nos Estados
Unidos, essa é uma realidade que começa a ter peso estatístico entre
os profissionais que mantêm vínculos com empresas. No Brasil, só
vale para quem monta um negócio próprio. Poucas firmas tiveram a
coragem de adotar o modelo. A razão para isso é cultural. Conforme
os especialistas, ainda vigora no país uma certa desconfiança dos
chefes em relação aos subordinados. Eles têm medo de que os funcionários,
em vez de dar duro no aconchego do lar, se ocupem de outras atividades.
Não é um receio infundado, reconheça-se.
Línguas exóticas –
Tem gente recomendando até que se estude chinês, sob o argumento
de que o domínio dessa língua é essencial para ganhar dinheiro no
país mais populoso do mundo. Bobagem de americano que não tem o
que inventar. A verdade é que os modismos nessa área devem ser encarados
com reserva. Um executivo brasileiro precisa mesmo é do inglês,
a língua franca da era contemporânea. Na hora de escolher um terceiro
idioma, opte pelo espanhol, por causa de nuestros hermanos del
Mercosur
Ilustrações de Wander Mendes
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