Edição 1 623 -10/11/1999

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Pobreza

Pobreza espalhada

Ministério identifica treze bolsões
de miséria no país.
Cada região tem pelo menos um

No início dos anos 70, o economista Edmar Bacha inventou o termo Belíndia para denominar o Brasil heterogêneo que conteria uma Bélgica rica e uma Índia miserável dentro do seu território. Na semana passada, o Ministério da Integração Nacional divulgou um mapa mostrando aquilo que seria a Índia. Os técnicos do ministério cruzaram dados como renda, desnutrição e analfabetismo do país inteiro e identificaram treze áreas com índices insuficientes de desenvolvimento humano. São 600 municípios onde vivem 26 milhões de pessoas em condições de sobrevivência bem abaixo do que seria satisfatório. Se fosse uma nação, esse Brasil pobre não teria exatamente as dimensões indianas. Ele teria o tamanho de oito Uruguais, a população do Marrocos e o índice de desenvolvimento humano (IDH) de Uganda. Nada que se compare à visão apocalíptica dos 64 milhões de pobres que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, divulgou em 1990 nem aos 32 milhões divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, em 1992. Mas ainda é um quadro desolador. "Para combater o problema, é preciso identificá-lo", diz Vilmar Faria, assessor especial da Presidência para assuntos sociais.

No momento em que o país passa a discutir o tema seriamente, o trabalho do ministério acrescentou ao debate um dado importante: a pobreza brasileira tem faces e origens diferentes. Quando se fala em miséria no Brasil, pensa-se logo no sertanejo do Nordeste sofrendo com a falta d'água. O estudo indicou miseráveis em condições tão precárias também no Norte, onde as águas e a floresta são abundantes, no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste. Pelo mapa divulgado, os bolsões de pobreza estão distribuídos pelas cinco macrorregiões do país. Nenhuma se salvou. Alguns dos lugares identificados estão, também, localizados em Estados com alto grau de desenvolvimento, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Se a pobreza tem origens e localizações variadas, as soluções obedecem a uma só cartilha. Os estudiosos são unânimes em afirmar que a solução para a miséria é um misto de crescimento econômico com investimento em educação. Da década de 70 para cá, os dois maiores momentos de diminuição de pobreza foram justamente o milagre econômico dos tempos da ditadura militar e os três primeiros anos do Plano Real. O problema é que, para erradicar a miséria no Brasil, o produto interno bruto teria de crescer 4,5% durante vinte anos seguidos. Neste ano, o índice vai ficar em torno de zero, ou um pouquinho a mais do que isso. Resta a educação. Segundo um trabalho do Ipea, a possibilidade de uma pessoa com um ano de escolaridade ser pobre é de 75%. Se ela tiver entre um e quatro anos de estudo, esse número cai para 62%. Se tiver entre quatro e oito, é de 41%. Entre oito e doze, é de 20%. Acima disso, é de 2%. Essa relação estatística vale para o país inteiro. O indivíduo com educação formal completa, dono de um diploma universitário, só será pobre se quiser. O analfabeto, mesmo que queira, não deixará de ser um deserdado. No Sul, no Nordeste ou em qualquer região do país.