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É dinheiro demais!
O Banco Itaú pode chegar a um lucro
de 2 bilhões de reais neste
ano
Franco Iacomini
O Brasil tem quase 200 bancos privados nacionais em funcionamento.
Para a população em geral, três são
mais conhecidos. Por ordem de grandeza: Bradesco, Itaú
e Unibanco. Todos disputam a preferência da clientela
com unhas e dentes. Na semana passada, o segundo no ranking,
o Itaú, divulgou seu balanço do terceiro trimestre.
Foi um espanto. O Itaú (que engoliu recentemente os
bancos estaduais privatizados Banerj e Bemge) alcançou
um lucro de 1,45 bilhão de reais entre janeiro e setembro
deste ano. É o maior ganho registrado na história
do sistema financeiro privado no país. Os especialistas
no assunto já alimentam a expectativa de que, até
o fim do ano, a conta chegue a 2 bilhões de reais.
É a segunda vez que o Itaú bate o Bradesco.
No ano passado, ganhou 300 milhões de reais a mais
que o Bradesco, que tem mais agências, mais clientes,
mais depósitos e patrimônio maior. Por que isso
ocorreu?
Os resultados anunciados na semana passada podem ser explicados
por várias razões. A primeira é simples.
O Itaú incluiu nas suas contas os resultados do Bemge
e do Banerj. No balanço do Bradesco não estão
incluídos os lucros registrados pelo BCN e pelo Baneb,
comprados nos dois últimos anos, mas mantidos com administração
e contabilidade independentes. Se somados os resultados, embora
nem todos os balanços tenham sido publicados, seria
bastante provável que os dois bancos empatassem no
quesito lucro. A segunda razão se deve a uma característica
peculiar ao Itaú. Há pelo menos cinco anos ele
está investindo ferozmente no exterior. Comprou o Banco
del Buen Ayre, na Argentina, a subsidiária do antigo
banco Bamerindus em Luxemburgo e aumentou sua participação
no Banco Português de Investimentos. Possui bancos no
Uruguai e nas Ilhas Cayman e agências por todo o mundo.
Isso fez uma grande diferença, em termos contábeis,
quando o real foi desvalorizado. Com a moeda americana cotada
agora a 2 reais, o patrimônio em dólar do Itaú
no exterior dobrou nos últimos meses. Só aí
ganhou 458 milhões de reais, quase um terço
do lucro total. "Criar bases no mercado externo passou a fazer
parte da nossa estratégia nesta década. É
impossível ser um banco realmente grande em casa sem
ter presença internacional", diz Henri Penchas, vice-presidente
sênior do Itaú. "Nós colhemos agora alguns
frutos dessa estratégia."
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O Itaú é um banco cinqüentão, que
foi construído por Olavo Setúbal, ex-prefeito
de São Paulo, considerado por seus pares um grande
empresário e um banqueiro talentoso. Aos 76 anos de
idade, Olavão, como é conhecido o patriarca
da família Setúbal, ainda vai ao banco diariamente
e dá palpites sobre o que deve ou não ser feito.
Foi ele, ao que se diz, que apostou na desvalorização
do real e transferiu muitos dos investimentos do banco no
Brasil para a moeda americana. É dele também
a estratégia de manter o banco sempre muito capitalizado.
Quer dizer, o Itaú deixa separada uma reserva para
cobrir qualquer acidente de percurso e enfrentar as mudanças
de rumo na política econômica. Terceira característica
importante do jeito Itaú de administrar: o foco do
banco está em captar dinheiro. Emprestar só
quando o risco beirar zero. Por isso, enquanto a maioria dos
bancos sofre com as ondas de inadimplência, o Itaú
passa ileso. A inadimplência no Itaú é
de 3,4%. Baixíssima. Há bancos enfrentando até
25% de calotes do total de empréstimos.
Roberto Setúbal, filho de Olavo, é quem controla
o banco há quatro anos. Nos últimos meses, tem
sido mais flexível do que seu pai. Entre janeiro e
setembro deste ano, o volume de empréstimos concedidos
pelo Itaú cresceu 5% em relação ao mesmo
período de 1998. Mas para conseguir um dinheirinho
no Itaú é preciso passar pelo crivo de analistas
rigorosíssimos. Atualmente, os computadores do banco
estão programados para selecionar o crédito
ao cliente. Sem uma história exemplar de crédito
e sem garantias, não adianta conversar com o gerente.
O empréstimo não sai mesmo.
Banqueiros, especuladores e operadores do mercado financeiro
não são figuras bem-vistas no Brasil. Tem-se
a impressão de que eles ganham muito dinheiro sem fazer
nada, enquanto trabalhadores e industriais se esfalfam para
obter lucros mínimos ou para sobreviver a duras
penas. Essa impressão tem uma face verdadeira. A metade
dos juros que as pessoas pagam ao utilizar cheque especial
ou tomar um empréstimo pessoal vai para a conta do
lucro dos bancos é o dobro do que se paga na Inglaterra
e quase quatro vezes mais do que no Japão. Há
também uma porção de exagero nessa interpretação.
As vantagens que os bancos obtêm com a desvalorização
da moeda brasileira aparecem imediatamente em seus balanços.
Na indústria ou no comércio exportadores, a
diferença vai aparecendo no decorrer do tempo. Todos
lucram, mas os ganhos dos bancos são mais visíveis,
mais impressionantes e imediatos. "Neste ano o lucro dos bancos
veio antecipado, mas não se repetirá", diz Alberto
Borges Matias, consultor paulista especializado no mercado
financeiro. "Descontados os efeitos da desvalorização
cambial, um banco opera como uma empresa qualquer: se for
bem administrado, ganha dinheiro, se não, dá
prejuízo."
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