Edição 1 623 -10/11/1999

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É dinheiro demais!

O Banco Itaú pode chegar a um lucro
de 2 bilhões de reais neste ano

Franco Iacomini

O Brasil tem quase 200 bancos privados nacionais em funcionamento. Para a população em geral, três são mais conhecidos. Por ordem de grandeza: Bradesco, Itaú e Unibanco. Todos disputam a preferência da clientela com unhas e dentes. Na semana passada, o segundo no ranking, o Itaú, divulgou seu balanço do terceiro trimestre. Foi um espanto. O Itaú (que engoliu recentemente os bancos estaduais privatizados Banerj e Bemge) alcançou um lucro de 1,45 bilhão de reais entre janeiro e setembro deste ano. É o maior ganho registrado na história do sistema financeiro privado no país. Os especialistas no assunto já alimentam a expectativa de que, até o fim do ano, a conta chegue a 2 bilhões de reais. É a segunda vez que o Itaú bate o Bradesco. No ano passado, ganhou 300 milhões de reais a mais que o Bradesco, que tem mais agências, mais clientes, mais depósitos e patrimônio maior. Por que isso ocorreu?

Os resultados anunciados na semana passada podem ser explicados por várias razões. A primeira é simples. O Itaú incluiu nas suas contas os resultados do Bemge e do Banerj. No balanço do Bradesco não estão incluídos os lucros registrados pelo BCN e pelo Baneb, comprados nos dois últimos anos, mas mantidos com administração e contabilidade independentes. Se somados os resultados, embora nem todos os balanços tenham sido publicados, seria bastante provável que os dois bancos empatassem no quesito lucro. A segunda razão se deve a uma característica peculiar ao Itaú. Há pelo menos cinco anos ele está investindo ferozmente no exterior. Comprou o Banco del Buen Ayre, na Argentina, a subsidiária do antigo banco Bamerindus em Luxemburgo e aumentou sua participação no Banco Português de Investimentos. Possui bancos no Uruguai e nas Ilhas Cayman e agências por todo o mundo.

Isso fez uma grande diferença, em termos contábeis, quando o real foi desvalorizado. Com a moeda americana cotada agora a 2 reais, o patrimônio em dólar do Itaú no exterior dobrou nos últimos meses. Só aí ganhou 458 milhões de reais, quase um terço do lucro total. "Criar bases no mercado externo passou a fazer parte da nossa estratégia nesta década. É impossível ser um banco realmente grande em casa sem ter presença internacional", diz Henri Penchas, vice-presidente sênior do Itaú. "Nós colhemos agora alguns frutos dessa estratégia."


O Itaú é um banco cinqüentão, que foi construído por Olavo Setúbal, ex-prefeito de São Paulo, considerado por seus pares um grande empresário e um banqueiro talentoso. Aos 76 anos de idade, Olavão, como é conhecido o patriarca da família Setúbal, ainda vai ao banco diariamente e dá palpites sobre o que deve ou não ser feito. Foi ele, ao que se diz, que apostou na desvalorização do real e transferiu muitos dos investimentos do banco no Brasil para a moeda americana. É dele também a estratégia de manter o banco sempre muito capitalizado. Quer dizer, o Itaú deixa separada uma reserva para cobrir qualquer acidente de percurso e enfrentar as mudanças de rumo na política econômica. Terceira característica importante do jeito Itaú de administrar: o foco do banco está em captar dinheiro. Emprestar só quando o risco beirar zero. Por isso, enquanto a maioria dos bancos sofre com as ondas de inadimplência, o Itaú passa ileso. A inadimplência no Itaú é de 3,4%. Baixíssima. Há bancos enfrentando até 25% de calotes do total de empréstimos.

Roberto Setúbal, filho de Olavo, é quem controla o banco há quatro anos. Nos últimos meses, tem sido mais flexível do que seu pai. Entre janeiro e setembro deste ano, o volume de empréstimos concedidos pelo Itaú cresceu 5% em relação ao mesmo período de 1998. Mas para conseguir um dinheirinho no Itaú é preciso passar pelo crivo de analistas rigorosíssimos. Atualmente, os computadores do banco estão programados para selecionar o crédito ao cliente. Sem uma história exemplar de crédito e sem garantias, não adianta conversar com o gerente. O empréstimo não sai mesmo.

Banqueiros, especuladores e operadores do mercado financeiro não são figuras bem-vistas no Brasil. Tem-se a impressão de que eles ganham muito dinheiro sem fazer nada, enquanto trabalhadores e industriais se esfalfam para obter lucros mínimos – ou para sobreviver a duras penas. Essa impressão tem uma face verdadeira. A metade dos juros que as pessoas pagam ao utilizar cheque especial ou tomar um empréstimo pessoal vai para a conta do lucro dos bancos – é o dobro do que se paga na Inglaterra e quase quatro vezes mais do que no Japão. Há também uma porção de exagero nessa interpretação. As vantagens que os bancos obtêm com a desvalorização da moeda brasileira aparecem imediatamente em seus balanços. Na indústria ou no comércio exportadores, a diferença vai aparecendo no decorrer do tempo. Todos lucram, mas os ganhos dos bancos são mais visíveis, mais impressionantes e imediatos. "Neste ano o lucro dos bancos veio antecipado, mas não se repetirá", diz Alberto Borges Matias, consultor paulista especializado no mercado financeiro. "Descontados os efeitos da desvalorização cambial, um banco opera como uma empresa qualquer: se for bem administrado, ganha dinheiro, se não, dá prejuízo."