|
|
Yes, aqui é a Barra
O bairro que mais cresce
no Rio é um lugar de gente
que subiu na vida e
ama o jeitinho americano
Marcelo Camacho e Marcelo Carneiro
|
Fotos Paulo Jares
 |
|
A beleza da paisagem
e o chamariz do consumo:
todo mundo quer ir
para a Barra
|
O nome não poderia mesmo ser outro. Avenida das Américas.
Quem sobe de carro essa imensa autopista não pode deixar
de perceber que se trata de um lugar diferente, onde o idioma
inglês domina, shopping centers proliferam e uma ascendente
classe social saltita, feliz da vida, entre mais e mais opções
de consumo. Logo no início, à direita da pista,
por exemplo, é possível avistar um moderno centro
gastronômico batizado de Loft. Em seguida vem o centro
de escritórios e serviços chamado Downtown,
uma colorida profusão de redundâncias pós-modernas
plantada num lugar até alguns anos atrás forrado
por dunas e vegetação rasteira. À frente,
há o condomínio de casas Wimbledon Park. Mais
adiante é a vez do Barra Garden, logo seguido pelo
BarraSquare, outro centro comercial. O Barra Space Center,
ao contrário do que indica o nome, não lança
naves espaciais, mas os escritórios são uma
beleza. Tem também o Bayside, o Market Street, o Sunshine
Drive. Só mais um pouquinho adiante na Avenida das
Américas e eis a novidade que está dando tanto
o que falar. É o New York City Center, caixotão
de concreto que abriga um centro de diversões tinindo
de novo a inauguração, na semana passada,
juntou 8.000 convidados. Na porta
de entrada do empreendimento está a prova final de
que a perseguição do padrão americano
não conhece limites por aqueles lados. Quem dá
as boas-vindas aos visitantes do New York City Center é
uma réplica de 20 metros de altura da Estátua
da Liberdade. Um tanto espremidinha, é verdade, e feita
de gesso e fibra de vidro. Mas com tocha, túnica, coroa
e tudo o mais do original que simboliza o império americano.
Mau gosto? Macaquice? Coisa de novo-rico? Não, a Barra
da Tijuca é assim mesmo.
Esparramada num cenário deslumbrante, entre o mar,
lagoas e montanhas da Zona Oeste do Rio, a Barra da Tijuca
já foi chamada de Califórnia e depois de Miami
brasileira. Gerou uma classe social com direito a qualificativo
próprio, os emergentes, consubstanciados na figura
da lânguida Vera Loyola aquela da festinha de
cachorro. Transformou-se em símbolo de consumismo desenfreado
e virou notícia. Saiu até no The New
York Times. Para os cariocas, é alternativamente
objeto de cobiça ou alvo de ironia. Talvez mais do
primeiro, considerando-se a quantidade de gente que gostaria
de morar lá, e os que já conseguiram. A Barra
da Tijuca é o bairro que mais cresce no Rio: entre
1991 e 1996, a população aumentou em 30% (veja
quadro acima). Hoje, essa área do Rio registra
200.000 moradores, um crescimento
de 50% em relação aos dados de 1996.
A Barra cresce e rápido porque é lá
que existe espaço para isso: são 175 quilômetros
quadrados, um tamanho equivalente ao centro urbano de Paris.
E o bairro se molda, como é comum num lugar novo, com
características peculiares. Morar na Barra significa,
quase sempre, morar em condomínios fechados. São
ilhas de conforto e segurança, onde famílias
de classe média exercem o legítimo direito de
ter carrões na garagem, freqüentar a piscina do
clube e falar, com a maior intimidade, os nomes em inglês
com os erres e esses puxados dos cariocas. A Barra não
é Miami porque fica no Brasil, não faz tratamento
de esgotos, as borracharias e lojas de material de construção
típicos do Terceiro Mundo resistem em ceder espaço
aos shopping centers (e olha que já existem dezessete
deles). Além de ser muito mais bonita, em termos de
beleza natural. Mas que tem um jeitinho americanizado, yes,
tem mesmo. Na Barra, mais que em qualquer outro lugar, vender
o peixe com palavras em inglês é o melhor recurso
de marketing para colocar um brilho extra nos olhos do consumidor.
Por que outro motivo um estabelecimento comparativamente modesto
como a Natação Hot Academy acrescentaria na
fachada o apelo, em letras vistosas, All USA?
 |
|
Estátua da Liberdade, na entrada de um novo
centro de lazer: toque de Nova York na Miami carioca
|
Brinquedos virtuais Esse estilo de vida, comum
em tantos redutos afluentes do Brasil, fica mais evidente
lá porque a Barra é um bairro novo são
apenas 25 anos de "colonização" e os
traços nativos, concentrados, saltam à vista.
É também essencialmente de classe média,
salpicada por muita gente rica de verdade. Pobres são
poucos, já que o bairro não tem favelas, apenas
algumas pequenas e quase imperceptíveis comunidades
carentes. Com espaço, dinheiro e uma vocação
nata para o consumo e o entretenimento, os superlativos imperam.
É na Barra que fica o BarraShopping, com 165.000
metros quadrados e 4,8 quilômetros de vitrines, considerado
o maior shopping center da América Latina. Haja pernas
para comprar ali. A maior casa de espetáculos do Rio,
o Metropolitan, também fica lá. Endereço
dos melhores shows da cidade, tem capacidade para acomodar
10.000 pessoas em pé e 4.000
sentadas. O shopping Città America, que será
inaugurado em breve, abrigará a primeira filial brasileira
do bar temático Hard Rock Café, que ocupará
uma área de 3.000 metros
quadrados. Deu para adivinhar? Será o maior Hard Rock
Café do mundo. Já no novo New York City Center,
o tal da estátua, acaba de ser inaugurado o maior complexo
de cinemas do Brasil, um megaplex da rede americana UCI com
dezoito salas de projeção e capacidade para
que 4.500 pessoas assistam a diferentes
filmes no mesmo momento bebericando refrigerante, chope
ou champanhe. Tem também uma filial da GameWorks, casa
de diversões eletrônicas da qual o cineasta Steven
Spielberg é um dos sócios, com brinquedos virtuais
de arrepiar.
 |
|
Vera Loyola, a imperatriz dos emergentes: "Qual
o problema
em ser dono de padarias?"
|
Tudo isso atende perfeitamente o perfil dos moradores do
bairro, que exibem os melhores indicadores sócio-econômicos
do Rio. A esfuziante infra-estrutura atrai gente de fora.
Um bocado de gente. Nos fins de semana de sol, a população
da Barra cresce para 1 milhão de pessoas por
causa da praia, dos shoppings, supermercados e cinemas. Clínicas
médicas, universidades, academias de ginástica
e até lojas para animais perdão, pet
shops também vicejam nesse apetitoso mercado.
"A Barra tem a ver com o estilo de vida de meus clientes",
testemunha o veterinário Luiz Pereira, que abriu lá
uma filial de sua cadeia de lojas, onde vende mimos como uma
coleira francesa banhada a ouro por 180 reais. "Muitos deles
tinham de ir a Ipanema para trazer seus cachorros. Como são
bairristas, tive de ir até eles." Já teatros
há só três, sempre com peças do
tipo que intelectual não assiste nem morto. Havia um
quarto, mas virou igreja evangélica. Outra dificuldade
é encontrar uma boa livraria na Barra da Tijuca. Melhor
ir garimpar em outras bandas. Ipanema ou Leblon, talvez
bairros que fazem a fama de badalação da Zona
Sul carioca, mas são esnobados pelo pessoal da Barra.
 |
|
A profusão de placas em inglês
mostra o gosto
por tudo o que é americano: o melhor
recurso
para atrair os consumidores
|
Roda da história A ligeireza do
gosto do morador da Barra se explica pelo fenômeno social,
registrado no bairro nos últimos dez anos, dos emergentes
pessoas que ganharam dinheiro recentemente, depois de trabalhar
duro por muitos e muitos anos, em geral em ramos de atividade
considerados pouco nobres. A primeira ocupação
da Barra, na década de 70, foi feita por gente da Zona
Sul, com marcante presença de funcionários públicos.
Construiu-se até um conjunto de prédios, destinados
a jornalistas, sem amenidades burguesas como quarto de empregada.
A roda da história girou. O condomínio Wonderful
Ocean Suites (olha o nome!), inaugurado na semana passada,
com 490 apartamentos, tem ocupação diversa.
Cerca de 30% dos apartamentos foram comprados por moradores
chegados da Zona Norte, 20% vieram da Baixada Fluminense e
20% são residentes da própria Barra que estão
indo morar em apartamentos melhores. Os 30% restantes vieram
de outras regiões do Rio, incluindo a Zona Sul. A Barra
representa hoje o sonho dourado de quem, vindo da periferia,
pretende ascender na escala social. Ou simplesmente ter um
lugar lindo para morar. Foi isso que atraiu o libanês
Bassan Chedraoui, de 51 anos. Ele chegou criança ao
Brasil, montou com os irmãos um negócio de tecidos
na Baixada Fluminense, abriu lojas populares e, hoje, entrou
no ramo da comida. Libanesa, é claro.
 |
| Chedraoui, o rei do quibe: "Nunca pus os pés
na areia de Ipanema" |
Precursor da migração dos periféricos
ricos rumo à Barra, onde tem um apartamento de 500
metros quadrados em frente ao mar, o "rei do quibe" se orgulha:
"Nunca pus os pés na areia de Ipanema".
Boate Jerimum Também o Golden Green, o
mais luxuoso condomínio da Barra, anda povoado de emergentes.
Dos ricaços. Lá podem desfrutar o tipo de estilo
de vida que provoca risadinhas zombeteiras ou esgares de inveja.
Há um belo clube, heliporto e um imenso campo de golfe
com laguinhos onde se esbaldam quatro cisnes americanos importados
a 1.500 dólares o par. O
apartamento mais caro do Golden Green, com 800 metros quadrados,
custa 4 milhões de reais. Uma beleza. O estilo emergente
de ser cultiva um bocado de orgulho das próprias origens
e um tantinho de desprezo pelo dinheiro mais velho. "Antigamente,
o bonito era ter um banco, uma grande indústria. Mas
qual o problema em ser dono de padarias?", pergunta a emergente-mor
Vera Loyola (além de padarias, sua família também
é proprietária de motéis).
 |
|
Movimento na loja para animais: coleira francesa
banhada a ouro e fregueses atendidos in loco
|
Do pacote do self made man ou woman
à moda da Barra faz parte também
um candente elogio da modernidade. Tradução:
tudo que venha dos Estados Unidos. O que Vera mais admira
na pátria de George Washington e Thomas Jefferson?
A modernidade, é claro. "Você entra num elevador,
aperta o botão e zum. Sobe 100 andares num segundo",
superlativa Vera. Para os barrenses de fé, o que os
mal-humorados criticam como americanização de
araque é um tremendo plus. "A Barra tem um clima
de Miami. Qual é o problema? A gente tem de copiar
o que é melhor. E o melhor são os Estados Unidos",
ecoa Hosana Pereira, outra locomotiva emergente. Casada com
Júlio Pereira, o "rei do ferro-velho" "Aqui
todo mundo é rei de alguma coisa", enfatiza Hosana
, ela faz triangulação com Vera e Eder
Meneghine, o decorador preferido da turma emergente. Foi Eder,
naturalmente, quem decorou os 1.400
metros quadrados da nova casa da família Pereira. Num
arroubo de criatividade, ele pintou de cor de abóbora
as paredes da boate (sim, tem uma boate de 200 metros
quadrados). Por causa da cor, o local ganhou o apelido de
Boate Jerimum, pois Hosana é paraibana e, como diz,
não tem vergonha das suas origens.
 |
|
Ariadne Coelho, a ebuliente "rainha das quentinhas":
helicóptero na lista de compras
|
"A Barra não é um lugar tradicional, aqui não
tem frescura. Todo mundo se conhece, todo mundo se dá
bem", diz Hosana Pereira. Sem frescura, mas com muito respeito.
"Se um jovem usa drogas, ele é apontado na rua. E mulher
separada ainda é muito malvista", diz Vera Loyola. Mulher
jovem casada com homem mais velho recém-separado, então,
é o fim. Tanto que Vera e seus amigos torcem o nariz
para o novo furacão da Barra, Ariadne Coelho, 31 anos.
Casada com Jair Coelho, 69, empresário que fabrica lixeiras
e fornece a alimentação de todos os presídios
do Rio de Janeiro, inevitavelmente ela ganhou o apodo de "rainha
das quentinhas". "Não tenho nada a ver com esses emergentes",
desdenha Ariadne, que não teve sua mansão no condomínio
Nova Ipanema decorada por Eder Meneghine. Chamou Hélio
Fraga, o preferido de Lily de Carvalho, mulher de Roberto Marinho.
Lagoas imundas O estilo Ariadne, no entanto, é
emergente em estado puro. Vez ou outra, quando precisa ir ao
Aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio, Ariadne cruza os
céus a bordo de um helicóptero, evitando os transtornos
do trânsito. Já fez a mesma coisa para comparecer
a festas na Zona Sul. Gostou tanto que decidiu: vai comprar
sua própria máquina voadora. A porção
emergentíssima de Ariadne também se reflete nos
seus automóveis e na relação que tem com
os bairros da cidade. Para andar na Barra, que ela, assim como
todo mundo por lá, considera um lugar comparativamente
seguro, a moça dirige seu Mercedes 500 SL conversível.
"Para ir à Zona Sul, só no meu jipe Cherokee blindado",
avisa. "Aquilo lá é muito violento." A antipatia
que muitos moradores da Barra têm pela Zona Sul encontra
resposta no desdém em relação à
Barra de quem tem aquele espírito de carioca da gema.
"Não gosto desse estilo de vida em que todos freqüentam
a piscina do clube e todo mundo sabe da vida de todo mundo",
diz a colunista Danuza Leão, que também não
conseguiria viver num lugar sem padaria, farmácia e jornaleiro
por perto. "Para tudo é preciso tirar o carro da garagem.
Parece até que precisa de passaporte para ir lá."
 |
| Green, o condomínio mais caro, com lago e
cisnes importados... |
 |
|
... e a Praia do Pepê:
luxo e poluição
|
Passaporte, não. Mas paciência, e muita. Voltar
para casa na Barra na hora do rush é um desconsolo. De
Botafogo, na Zona Sul, até lá, leva-se duas horas.
Mais escandaloso é o descaso com o saneamento. Nessa
neo-Miami brasileira, diariamente a sujeira de shoppings e condomínios
é lançada nos rios e lagoas do bairro, que andam
imundas: 90% do esgoto do bairro é despejado in natura.
Das lagoas, as águas fétidas escorrem para o mar.
A ponto de os primeiros 4 quilômetros de orla (de um total
de 15) passarem quase o ano todo proibidos ao banho de mar
incluindo-se aí a descolada Praia do Pepê, um dos
pontos de maior concentração de corpos espetaculares,
femininos e masculinos, da cidade.
 |
|
Miami de Terceiro Mundo:
condomínios jogam esgoto
nas lagoas do bairro e vai
tudo para o mar
|
Para os detratores da Barra, a Estátua da Liberdade no
centro recém-inaugurado é uma nova e abominável
forma de poluição. Seus idealizadores não
dão nem bola. "A gente tem de se globalizar. O Rio é
o marco do Brasil no mundo. Só colocamos a estátua
no shopping porque ela é o símbolo da cidade mais
globalizada que existe, que é Nova York. Não estou
interessado se ela é feia ou bonita", diz Carlos Augusto
Bezerra de Miranda, um dos empreendedores do New York City Center.
A argumentação dos críticos tampouco prima
pela profundidade. "A Barra é a expressão da falsa
modernidade, uma tentativa de 'miamizar' o Rio. Só passo
voando por lá. Já vi a Estátua da Liberdade
e vou sugerir que se erga no Central Park uma réplica
do Cristo Redentor. É a melhor resposta para aquilo",
debocha o arquiteto Paulo Casé. Mas o Central Park não
é aquele parquinho onde o pessoal da Barra faz exercício
quando vai a Nova York? |