Edição 1 623 -10/11/1999

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Yes, aqui é a Barra

O bairro que mais cresce
no Rio é um lugar de gente
que subiu na vida e
ama o jeitinho americano

Marcelo Camacho e Marcelo Carneiro

 
Fotos Paulo Jares

A beleza da paisagem
e o chamariz do consumo:
todo mundo quer ir
para a Barra

O nome não poderia mesmo ser outro. Avenida das Américas. Quem sobe de carro essa imensa autopista não pode deixar de perceber que se trata de um lugar diferente, onde o idioma inglês domina, shopping centers proliferam e uma ascendente classe social saltita, feliz da vida, entre mais e mais opções de consumo. Logo no início, à direita da pista, por exemplo, é possível avistar um moderno centro gastronômico batizado de Loft. Em seguida vem o centro de escritórios e serviços chamado Downtown, uma colorida profusão de redundâncias pós-modernas plantada num lugar até alguns anos atrás forrado por dunas e vegetação rasteira. À frente, há o condomínio de casas Wimbledon Park. Mais adiante é a vez do Barra Garden, logo seguido pelo BarraSquare, outro centro comercial. O Barra Space Center, ao contrário do que indica o nome, não lança naves espaciais, mas os escritórios são uma beleza. Tem também o Bayside, o Market Street, o Sunshine Drive. Só mais um pouquinho adiante na Avenida das Américas e eis a novidade que está dando tanto o que falar. É o New York City Center, caixotão de concreto que abriga um centro de diversões tinindo de novo – a inauguração, na semana passada, juntou 8.000 convidados. Na porta de entrada do empreendimento está a prova final de que a perseguição do padrão americano não conhece limites por aqueles lados. Quem dá as boas-vindas aos visitantes do New York City Center é uma réplica de 20 metros de altura da Estátua da Liberdade. Um tanto espremidinha, é verdade, e feita de gesso e fibra de vidro. Mas com tocha, túnica, coroa e tudo o mais do original que simboliza o império americano. Mau gosto? Macaquice? Coisa de novo-rico? Não, a Barra da Tijuca é assim mesmo.


Esparramada num cenário deslumbrante, entre o mar, lagoas e montanhas da Zona Oeste do Rio, a Barra da Tijuca já foi chamada de Califórnia e depois de Miami brasileira. Gerou uma classe social com direito a qualificativo próprio, os emergentes, consubstanciados na figura da lânguida Vera Loyola – aquela da festinha de cachorro. Transformou-se em símbolo de consumismo desenfreado e virou notícia. Saiu até no The New York Times. Para os cariocas, é alternativamente objeto de cobiça ou alvo de ironia. Talvez mais do primeiro, considerando-se a quantidade de gente que gostaria de morar lá, e os que já conseguiram. A Barra da Tijuca é o bairro que mais cresce no Rio: entre 1991 e 1996, a população aumentou em 30% (veja quadro acima). Hoje, essa área do Rio registra 200.000 moradores, um crescimento de 50% em relação aos dados de 1996.

A Barra cresce – e rápido – porque é lá que existe espaço para isso: são 175 quilômetros quadrados, um tamanho equivalente ao centro urbano de Paris. E o bairro se molda, como é comum num lugar novo, com características peculiares. Morar na Barra significa, quase sempre, morar em condomínios fechados. São ilhas de conforto e segurança, onde famílias de classe média exercem o legítimo direito de ter carrões na garagem, freqüentar a piscina do clube e falar, com a maior intimidade, os nomes em inglês com os erres e esses puxados dos cariocas. A Barra não é Miami porque fica no Brasil, não faz tratamento de esgotos, as borracharias e lojas de material de construção típicos do Terceiro Mundo resistem em ceder espaço aos shopping centers (e olha que já existem dezessete deles). Além de ser muito mais bonita, em termos de beleza natural. Mas que tem um jeitinho americanizado, yes, tem mesmo. Na Barra, mais que em qualquer outro lugar, vender o peixe com palavras em inglês é o melhor recurso de marketing para colocar um brilho extra nos olhos do consumidor. Por que outro motivo um estabelecimento comparativamente modesto como a Natação Hot Academy acrescentaria na fachada o apelo, em letras vistosas, All USA?

Estátua da Liberdade, na entrada de um novo centro de lazer: toque de Nova York na Miami carioca

Brinquedos virtuais – Esse estilo de vida, comum em tantos redutos afluentes do Brasil, fica mais evidente lá porque a Barra é um bairro novo – são apenas 25 anos de "colonização" – e os traços nativos, concentrados, saltam à vista. É também essencialmente de classe média, salpicada por muita gente rica de verdade. Pobres são poucos, já que o bairro não tem favelas, apenas algumas pequenas e quase imperceptíveis comunidades carentes. Com espaço, dinheiro e uma vocação nata para o consumo e o entretenimento, os superlativos imperam. É na Barra que fica o BarraShopping, com 165.000 metros quadrados e 4,8 quilômetros de vitrines, considerado o maior shopping center da América Latina. Haja pernas para comprar ali. A maior casa de espetáculos do Rio, o Metropolitan, também fica lá. Endereço dos melhores shows da cidade, tem capacidade para acomodar 10.000 pessoas em pé e 4.000 sentadas. O shopping Città America, que será inaugurado em breve, abrigará a primeira filial brasileira do bar temático Hard Rock Café, que ocupará uma área de 3.000 metros quadrados. Deu para adivinhar? Será o maior Hard Rock Café do mundo. Já no novo New York City Center, o tal da estátua, acaba de ser inaugurado o maior complexo de cinemas do Brasil, um megaplex da rede americana UCI com dezoito salas de projeção e capacidade para que 4.500 pessoas assistam a diferentes filmes no mesmo momento – bebericando refrigerante, chope ou champanhe. Tem também uma filial da GameWorks, casa de diversões eletrônicas da qual o cineasta Steven Spielberg é um dos sócios, com brinquedos virtuais de arrepiar.

Vera Loyola, a imperatriz dos emergentes: "Qual o problema
em ser dono de padarias?"

Tudo isso atende perfeitamente o perfil dos moradores do bairro, que exibem os melhores indicadores sócio-econômicos do Rio. A esfuziante infra-estrutura atrai gente de fora. Um bocado de gente. Nos fins de semana de sol, a população da Barra cresce para 1 milhão de pessoas – por causa da praia, dos shoppings, supermercados e cinemas. Clínicas médicas, universidades, academias de ginástica e até lojas para animais – perdão, pet shops – também vicejam nesse apetitoso mercado. "A Barra tem a ver com o estilo de vida de meus clientes", testemunha o veterinário Luiz Pereira, que abriu lá uma filial de sua cadeia de lojas, onde vende mimos como uma coleira francesa banhada a ouro por 180 reais. "Muitos deles tinham de ir a Ipanema para trazer seus cachorros. Como são bairristas, tive de ir até eles." Já teatros há só três, sempre com peças do tipo que intelectual não assiste nem morto. Havia um quarto, mas virou igreja evangélica. Outra dificuldade é encontrar uma boa livraria na Barra da Tijuca. Melhor ir garimpar em outras bandas. Ipanema ou Leblon, talvez – bairros que fazem a fama de badalação da Zona Sul carioca, mas são esnobados pelo pessoal da Barra.

A profusão de placas em inglês mostra o gosto
por tudo o que
é americano: o melhor recurso
para atrair os consumidores

Roda da história A ligeireza do gosto do morador da Barra se explica pelo fenômeno social, registrado no bairro nos últimos dez anos, dos emergentes – pessoas que ganharam dinheiro recentemente, depois de trabalhar duro por muitos e muitos anos, em geral em ramos de atividade considerados pouco nobres. A primeira ocupação da Barra, na década de 70, foi feita por gente da Zona Sul, com marcante presença de funcionários públicos. Construiu-se até um conjunto de prédios, destinados a jornalistas, sem amenidades burguesas como quarto de empregada. A roda da história girou. O condomínio Wonderful Ocean Suites (olha o nome!), inaugurado na semana passada, com 490 apartamentos, tem ocupação diversa. Cerca de 30% dos apartamentos foram comprados por moradores chegados da Zona Norte, 20% vieram da Baixada Fluminense e 20% são residentes da própria Barra que estão indo morar em apartamentos melhores. Os 30% restantes vieram de outras regiões do Rio, incluindo a Zona Sul. A Barra representa hoje o sonho dourado de quem, vindo da periferia, pretende ascender na escala social. Ou simplesmente ter um lugar lindo para morar. Foi isso que atraiu o libanês Bassan Chedraoui, de 51 anos. Ele chegou criança ao Brasil, montou com os irmãos um negócio de tecidos na Baixada Fluminense, abriu lojas populares e, hoje, entrou no ramo da comida. Libanesa, é claro.
Chedraoui, o rei do quibe: "Nunca pus os pés na areia de Ipanema"

Precursor da migração dos periféricos ricos rumo à Barra, onde tem um apartamento de 500 metros quadrados em frente ao mar, o "rei do quibe" se orgulha: "Nunca pus os pés na areia de Ipanema".

Boate Jerimum – Também o Golden Green, o mais luxuoso condomínio da Barra, anda povoado de emergentes. Dos ricaços. Lá podem desfrutar o tipo de estilo de vida que provoca risadinhas zombeteiras ou esgares de inveja. Há um belo clube, heliporto e um imenso campo de golfe com laguinhos onde se esbaldam quatro cisnes americanos importados a 1.500 dólares o par. O apartamento mais caro do Golden Green, com 800 metros quadrados, custa 4 milhões de reais. Uma beleza. O estilo emergente de ser cultiva um bocado de orgulho das próprias origens e um tantinho de desprezo pelo dinheiro mais velho. "Antigamente, o bonito era ter um banco, uma grande indústria. Mas qual o problema em ser dono de padarias?", pergunta a emergente-mor Vera Loyola (além de padarias, sua família também é proprietária de motéis).

 

Movimento na loja para animais: coleira francesa banhada a ouro e fregueses atendidos in loco

Do pacote do self made man – ou woman – à moda da Barra faz parte também um candente elogio da modernidade. Tradução: tudo que venha dos Estados Unidos. O que Vera mais admira na pátria de George Washington e Thomas Jefferson? A modernidade, é claro. "Você entra num elevador, aperta o botão e zum. Sobe 100 andares num segundo", superlativa Vera. Para os barrenses de fé, o que os mal-humorados criticam como americanização de araque é um tremendo plus. "A Barra tem um clima de Miami. Qual é o problema? A gente tem de copiar o que é melhor. E o melhor são os Estados Unidos", ecoa Hosana Pereira, outra locomotiva emergente. Casada com Júlio Pereira, o "rei do ferro-velho" – "Aqui todo mundo é rei de alguma coisa", enfatiza Hosana –, ela faz triangulação com Vera e Eder Meneghine, o decorador preferido da turma emergente. Foi Eder, naturalmente, quem decorou os 1.400 metros quadrados da nova casa da família Pereira. Num arroubo de criatividade, ele pintou de cor de abóbora as paredes da boate (sim, tem uma boate – de 200 metros quadrados). Por causa da cor, o local ganhou o apelido de Boate Jerimum, pois Hosana é paraibana e, como diz, não tem vergonha das suas origens.

 

Ariadne Coelho, a ebuliente "rainha das quentinhas": helicóptero na lista de compras


"A Barra não é um lugar tradicional, aqui não tem frescura. Todo mundo se conhece, todo mundo se dá bem", diz Hosana Pereira. Sem frescura, mas com muito respeito. "Se um jovem usa drogas, ele é apontado na rua. E mulher separada ainda é muito malvista", diz Vera Loyola. Mulher jovem casada com homem mais velho recém-separado, então, é o fim. Tanto que Vera e seus amigos torcem o nariz para o novo furacão da Barra, Ariadne Coelho, 31 anos. Casada com Jair Coelho, 69, empresário que fabrica lixeiras e fornece a alimentação de todos os presídios do Rio de Janeiro, inevitavelmente ela ganhou o apodo de "rainha das quentinhas". "Não tenho nada a ver com esses emergentes", desdenha Ariadne, que não teve sua mansão no condomínio Nova Ipanema decorada por Eder Meneghine. Chamou Hélio Fraga, o preferido de Lily de Carvalho, mulher de Roberto Marinho.

  Lagoas imundas – O estilo Ariadne, no entanto, é emergente em estado puro. Vez ou outra, quando precisa ir ao Aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio, Ariadne cruza os céus a bordo de um helicóptero, evitando os transtornos do trânsito. Já fez a mesma coisa para comparecer a festas na Zona Sul. Gostou tanto que decidiu: vai comprar sua própria máquina voadora. A porção emergentíssima de Ariadne também se reflete nos seus automóveis e na relação que tem com os bairros da cidade. Para andar na Barra, que ela, assim como todo mundo por lá, considera um lugar comparativamente seguro, a moça dirige seu Mercedes 500 SL conversível. "Para ir à Zona Sul, só no meu jipe Cherokee blindado", avisa. "Aquilo lá é muito violento." A antipatia que muitos moradores da Barra têm pela Zona Sul encontra resposta no desdém em relação à Barra de quem tem aquele espírito de carioca da gema. "Não gosto desse estilo de vida em que todos freqüentam a piscina do clube e todo mundo sabe da vida de todo mundo", diz a colunista Danuza Leão, que também não conseguiria viver num lugar sem padaria, farmácia e jornaleiro por perto. "Para tudo é preciso tirar o carro da garagem. Parece até que precisa de passaporte para ir lá."

 
Green, o condomínio mais caro, com lago e cisnes importados...

... e a Praia do Pepê: luxo e poluição


Passaporte, não. Mas paciência, e muita. Voltar para casa na Barra na hora do rush é um desconsolo. De Botafogo, na Zona Sul, até lá, leva-se duas horas. Mais escandaloso é o descaso com o saneamento. Nessa neo-Miami brasileira, diariamente a sujeira de shoppings e condomínios é lançada nos rios e lagoas do bairro, que andam imundas: 90% do esgoto do bairro é despejado in natura. Das lagoas, as águas fétidas escorrem para o mar. A ponto de os primeiros 4 quilômetros de orla (de um total de 15) passarem quase o ano todo proibidos ao banho de mar – incluindo-se aí a descolada Praia do Pepê, um dos pontos de maior concentração de corpos espetaculares, femininos e masculinos, da cidade.

 

Miami de Terceiro Mundo:
condomínios jogam esgoto
nas lagoas do bairro e vai
tudo para o mar


Para os detratores da Barra, a Estátua da Liberdade no centro recém-inaugurado é uma nova e abominável forma de poluição. Seus idealizadores não dão nem bola. "A gente tem de se globalizar. O Rio é o marco do Brasil no mundo. Só colocamos a estátua no shopping porque ela é o símbolo da cidade mais globalizada que existe, que é Nova York. Não estou interessado se ela é feia ou bonita", diz Carlos Augusto Bezerra de Miranda, um dos empreendedores do New York City Center. A argumentação dos críticos tampouco prima pela profundidade. "A Barra é a expressão da falsa modernidade, uma tentativa de 'miamizar' o Rio. Só passo voando por lá. Já vi a Estátua da Liberdade e vou sugerir que se erga no Central Park uma réplica do Cristo Redentor. É a melhor resposta para aquilo", debocha o arquiteto Paulo Casé. Mas o Central Park não é aquele parquinho onde o pessoal da Barra faz exercício quando vai a Nova York?