Edição 1 623 -10/11/1999

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A missa do padre-show

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Com a ajuda de artistas e o
apoio
da TV, padre Marcelo
reúne 600 000 pessoas
numa festa de fé e tietagem

Jaime Klintowitz

O padre-cantor Marcelo Rossi superou tudo o que já havia feito. Numa missa realizada ao ar livre em São Paulo e transmitida ao vivo pela Rede Globo, na terça-feira passada, ele reuniu 600 000 fiéis. Foi a terceira maior missa da história do Brasil. Perdeu apenas para as duas celebradas pelo papa João Paulo II. Em 1997, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, o pontífice reuniu 2 milhões de pessoas. Dezessete anos antes, juntou 1,5 milhão de fiéis em São Paulo. A comparação torna os números ainda mais impressionantes. Afinal, papa é papa, padre é padre. Que mistério permite a esse sacerdote paulistano reunir tanta gente em uma cerimônia religiosa – logo ele, um novato na profissão que seis anos atrás ainda esquentava o banco no seminário? Uma parte da resposta é seu estilo atlético de celebrar missa. Com cantoria e ritmo de programa o, padre Marcelo Rossi se transformou no maior fenômeno católico do país. Outra explicação para a multidão que compareceu à missa de Marcelo Rossi, realizada no bairro de Interlagos, zona Sul de São Paulo, são os companheiros que o padre-cantor conseguiu colocar a seu lado no altar erguido no cruzamento de duas avenidas, de modo a simular os braços da cruz. Ali estavam Roberto Carlos, Agnaldo Rayol, Sérgio Reis e as duplas Sandy e Junior e Chitãozinho & Xororó. Só em programa especial da Rede Globo se consegue reunir um time de astros da música popular como esse.

Missas com dimensão de show são o cartão de visita de Marcelo Rossi. O que ele levou para a rua na semana passada foi uma versão ampliada da missa que realiza em três dias da semana no Santuário do Terço Bizantino, um galpão de 20 000 metros quadrados e tratamento acústico, com capacidade para 65 000 pessoas. É gente que busca a cura para todos os males – câncer, depressão, desemprego – ou simplesmente aparece para ver de perto o padre com popularidade de astro da música popular. Do ponto de vista cênico, a missa-show do Dia de Finados foi um espetáculo de primeira linha. O palco, instalado num cruzamento próximo do Terço Bizantino, tinha 12 metros de altura, dois telões de alta definição e um sistema de som com potência de 150 000 watts. Começou às 8 horas e acabou às 11h20, quarenta minutos antes do previsto, porque padre Marcelo temeu perder o controle da massa. "Fiquei com medo de tumulto", diz. À noite, ele comemorou o sucesso dividindo uma pizza com seu superior e mentor, o bispo de Santo Amaro, dom Fernando Figueiredo.

Não há nada de errado em reunir religião e música. Essa reunião, aliás, é histórica na Igreja Católica e tem um bom antecedente nos cantochões que atravessaram a Idade Média nos conventos europeus. Dois anos atrás, o papa João Paulo II encantou-se ao ser homenageado com um show do roqueiro americano Bob Dylan, em Bolonha, na Itália. No evento paulistano, contudo, não fossem as batinas, teria sido difícil distinguir a megamissa de um megashow laico. Artistas famosos, público numeroso, equipamento de primeira e ampla cobertura da mídia. Nesse aspecto, o show de padre Marcelo repete uma estratégia do mundo do espetáculo. Se tivesse de pagar para assistir a Roberto Carlos, Sérgio Reis, Sandy e Junior, Chitãozinho & Xororó, os fãs desembolsariam valores próximos de um salário mínimo – os ingressos mais baratos nas apresentações desses artistas giram em torno de 40 reais. "De graça, até injeção na veia", opina Manoel Poladian, um dos empresários mais poderosos do show biz nacional. "Se o padre Marcelo, uma das pessoas mais carismáticas da atualidade, fizesse um show pago, levaria um grande número de pessoas, mas certamente não chegaria a 600 000", diz Poladian. É difícil saber, porque o público católico desenvolveu em relação ao padre Rossi uma admiração que beira a idolatria. No domingo anterior, um show gratuito num parque de São Paulo com três atrações de peso entre a juventude (Jota Quest, É o Tchan e a dupla sertaneja Gian e Giovani) só atraiu 100 000 pessoas.

As missas concorridas do jovem sacerdote paulistano provocam reações conflitantes no clero graúdo da Igreja Católica. Cardeais, bispos e teólogos estão fascinados com a capacidade que Rossi vem demonstrando de atrair multidões capazes de lotar estádios – ou seis estádios, no caso da missa de finados da semana passada. Depois de uma década de sangria em que os pentecostais depredaram o rebanho católico, o clero sente-se aliviado por presenciar uma cena que no passado começava a ficar rara: igrejas superlotadas de gente genuinamente envolvida pelas cerimônias. Mas há também entre os religiosos mais conservadores uma certa reserva quanto ao excesso de entusiasmo físico que se observa nas missas de Rossi e de muitos outros sacerdotes cantores que fazem sucesso no Brasil. "De modo geral, as missas à maneira antiga são maçantes. Mas as mudanças não podem ser exageradas e superficiais, como as que vemos nas missas-espetáculos", critica dom Décio Zandonade, bispo auxiliar de Belo Horizonte. O Concílio Vaticano II mudou o comportamento dos padres nos anos 60. Antes, rezavam de costas para o público e em latim. Com a mudança litúrgica, passaram a olhar para os fiéis e a rezar na língua do país, de modo a tornar o conteúdo da mensagem católica mais acessível. O padre Marcelo avançou bem além.

Ele sempre diz que respeita a liturgia, mas acha que as missas precisam de um sopro de vida. Essa injeção de ânimo transformou cada celebração num espetáculo. Quando padre Marcelo entra em cena, sob assobios e aplausos, o público dança e canta com ele, agitando os braços para um lado e para o outro. É o que chama de aeróbica do Senhor, nome de uma das faixas de seu mais conhecido CD. Até mesmo o Pai-Nosso, a oração mais tradicional do catolicismo, virou música e é acompanhado por coreografia. "As pessoas se envolvem mais quando se expressam gestualmente", teoriza o padre-cantor, e ele tem toda a razão no que diz – e prova. Nas suas missas, distribuem-se 10 000 hóstias, com a ajuda de 100 voluntários. Na missa da semana passada, 70 000 pessoas receberam a comunhão ao ar livre. A reação dos fiéis difere um tantinho da esperada num culto religioso. As fileiras de bancos precisam ser isoladas para evitar que o padre seja assediado pelos fãs. Na hora em que ele desce do púlpito e passeia pela igreja, é escoltado por um grupo de coroinhas e padres. Mesmo assim sempre há quem tente agarrar sua batina. Marcelo Rossi, em resumo, é um ídolo das multidões.

Olhos azuis – Os fatores que levaram à escalada de Rossi são simples de entender. Ele é jovem (33 anos), alto (1,96 metro), forte (formado em educação física, já deu aula de musculação), tem olhos azuis e canta bem. Também tem carisma e sabe se comunicar. "É muito difícil encontrar tudo isso num religioso", elogia dom Fernando. Padre Marcelo encontrou um rebanho disperso, afugentado pela monotonia da pregação social da Teologia da Libertação, e o trouxe de volta, oferecendo música, bênção e bastante emoção. Os padres mais liberais não toleram seu fundamentalismo com roupagem moderna, mas ele não hesita em condenar o aborto, o homossexualismo e o sexo fora do casamento. A Diocese de Santo Amaro é um bom termômetro da repercussão de seu trabalho. Quando se ordenou, no final de 1994, eram 38 paróquias. Hoje são 68. O número de seminaristas pulou de cinco para 115.

Ele ainda tem outros números graúdos no currículo. Seu último lançamento, Um Presente para Jesus, bateu a marca de 1 milhão de cópias vendidas na semana em que chegou às lojas, há dois meses, recebendo o disco de diamante. Ao todo, seus CDs venderam 5,2 milhões de unidades. Significa faturamento em torno de 4 milhões de reais. A dinheirama, ele garante, vai direto para o caixa da diocese e se transforma em obras sociais. Tudo de que precisa para uso pessoal – do terno cinza bem cortado ao Palio branco com que se desloca pela cidade – recebe da Igreja.

Um dos milagres mais constantes de padre Marcelo é a multiplicação dos índices de audiência. Não é por outro motivo que ele se tornou uma figura sempre presente em programas de auditório. A Rede Globo sonhava em ter o religioso apresentando um programa diário dirigido ao público jovem. Não conseguiu, mas há três meses assinou com dom Fernando uma carta de intenções em que a emissora se compromete a transmitir os principais eventos do Terço Bizantino. Padre Marcelo vai apresentar o réveillon na Bandeirantes, ao lado de Ivete Sangalo, e participar do especial de Natal de Gugu Liberato. Com três programas de rádio (um deles numa emissora de pagode, a 105 FM) e outro na TV, ele salta da cama às 4h30 para dar conta de tantos compromissos. Já não pode caminhar livremente pela rua, pois é assediado por fiéis em busca de bênçãos. Quem torce o nariz à superexposição do prelado na TV não se deu conta de uma mudança substancial na vida brasileira: o avanço da religião nos meios de comunicação. Das 1 931 emissoras de rádio do país, pelo menos 450 estão nas mãos de grupos religiosos. Ocorre o mesmo com 95 dos 249 canais de televisão.

A Igreja Católica ganhou do governo federal as primeiras emissoras de rádio nos anos 50. Hoje, é dona da maior rede radiofônica do país, com 180 estações. Os evangélicos começaram bem depois, seguindo por outro caminho. Sem acesso a novas concessões (que até 1997 dependiam da boa vontade do governo), arrendam praticamente todo o espaço de certas rádios. Com isso, não se caracterizava a compra de concessão, proibida por lei. O exemplo é a rádio Musical FM de São Paulo. Cinco meses atrás, seu proprietário arrendou 23 horas e 55 minutos da programação diária a dois grupos pentecostais (Assembléia de Deus e Igreja Quadrangular). Cada uma utiliza duas horas e subloca o tempo restante a outras dez igrejas. O resultado é que nem o governo nem as próprias igrejas têm idéia do tamanho da mídia religiosa no país. As cinco maiores igrejas evangélicas detêm, juntas, 271 emissoras de rádio, a maioria AMs. Os números escondem cerca de 3 000 rádios comunitárias funcionando ilegalmente, metade delas de cunho religioso.

A Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, fez o lance mais ousado no ramo da TV, comprando a Rede Record, com 18 emissoras coligadas e 68 afiliadas. Isso deu aos evangélicos uma vantagem de noventa a cinco emissoras sobre os católicos. Esses reagiram com a Rede Vida, quatro anos atrás. Trata-se de um empréstimo feito à Igreja pelo dono da concessão, um empresário do interior de São Paulo. Gastam-se apenas 900 000 reais por mês para mantê-la no ar, entre aluguel de satélites da Embratel e custos operacionais. "Esse novo processo de comunicação está permitindo aos católicos brasileiros recuperar a auto-estima", diz João Monteiro de Barros Filho, diretor da Rede Vida. O movimento católico em direção à mídia eletrônica é, em boa parte, fruto do fortalecimento da Renovação Carismática, justamente o movimento que tem como um de seus pilares o padre Marcelo Rossi. A principal atração da Rede Vida é, como não poderia deixar de ser, o próprio padre Marcelo.

 
Roberto Valverde
Marcia Marba
Reprodução de TV
Ricardo Benichio
A incansável peregrinação do padre Marcelo por programas de auditório (em sentido horário): Xuxa, Angélica, Hebe Camargo, Leonardo e no Domingão do Faustão

Cida Souza

 

Com reportagem de Sérgio Martins,
Cristine Prestes, Valéria França e José Edward