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A missa do padre-show
Com a ajuda de artistas e o
apoio da TV, padre Marcelo
reúne 600 000 pessoas
numa festa de fé e tietagem
Jaime Klintowitz
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O padre-cantor Marcelo Rossi superou tudo o que já
havia feito. Numa missa realizada ao ar livre em São
Paulo e transmitida ao vivo pela Rede Globo, na terça-feira
passada, ele reuniu 600 000 fiéis. Foi a terceira maior
missa da história do Brasil. Perdeu apenas para as
duas celebradas pelo papa João Paulo II. Em 1997, no
Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, o pontífice
reuniu 2 milhões de pessoas. Dezessete anos antes,
juntou 1,5 milhão de fiéis em São Paulo.
A comparação torna os números ainda mais
impressionantes. Afinal, papa é papa, padre é
padre. Que mistério permite a esse sacerdote paulistano
reunir tanta gente em uma cerimônia religiosa
logo ele, um novato na profissão que seis anos atrás
ainda esquentava o banco no seminário? Uma parte da
resposta é seu estilo atlético de celebrar missa.
Com cantoria e ritmo de programa o, padre Marcelo Rossi se
transformou no maior fenômeno católico do país.
Outra explicação para a multidão que
compareceu à missa de Marcelo Rossi, realizada no bairro
de Interlagos, zona Sul de São Paulo, são os
companheiros que o padre-cantor conseguiu colocar a seu lado
no altar erguido no cruzamento de duas avenidas, de modo a
simular os braços da cruz. Ali estavam Roberto Carlos,
Agnaldo Rayol, Sérgio Reis e as duplas Sandy e Junior
e Chitãozinho & Xororó. Só em programa
especial da Rede Globo se consegue reunir um time de astros
da música popular como esse.
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Missas com dimensão de show são o cartão
de visita de Marcelo Rossi. O que ele levou para a rua na
semana passada foi uma versão ampliada da missa que
realiza em três dias da semana no Santuário do
Terço Bizantino, um galpão de 20 000 metros
quadrados e tratamento acústico, com capacidade para
65 000 pessoas. É gente que busca a cura para todos
os males câncer, depressão, desemprego
ou simplesmente aparece para ver de perto o padre com
popularidade de astro da música popular. Do ponto de
vista cênico, a missa-show do Dia de Finados foi um
espetáculo de primeira linha. O palco, instalado num
cruzamento próximo do Terço Bizantino, tinha
12 metros de altura, dois telões de alta definição
e um sistema de som com potência de 150 000 watts. Começou
às 8 horas e acabou às 11h20, quarenta minutos
antes do previsto, porque padre Marcelo temeu perder o controle
da massa. "Fiquei com medo de tumulto", diz. À noite,
ele comemorou o sucesso dividindo uma pizza com seu superior
e mentor, o bispo de Santo Amaro, dom Fernando Figueiredo.
Não há nada de errado em reunir religião
e música. Essa reunião, aliás, é
histórica na Igreja Católica e tem um bom antecedente
nos cantochões que atravessaram a Idade Média
nos conventos europeus. Dois anos atrás, o papa João
Paulo II encantou-se ao ser homenageado com um show do roqueiro
americano Bob Dylan, em Bolonha, na Itália. No evento
paulistano, contudo, não fossem as batinas, teria sido
difícil distinguir a megamissa de um megashow laico.
Artistas famosos, público numeroso, equipamento de
primeira e ampla cobertura da mídia. Nesse aspecto,
o show de padre Marcelo repete uma estratégia do mundo
do espetáculo. Se tivesse de pagar para assistir a
Roberto Carlos, Sérgio Reis, Sandy e Junior, Chitãozinho
& Xororó, os fãs desembolsariam valores
próximos de um salário mínimo os ingressos
mais baratos nas apresentações desses artistas
giram em torno de 40 reais. "De graça, até injeção
na veia", opina Manoel Poladian, um dos empresários
mais poderosos do show biz nacional. "Se o padre Marcelo,
uma das pessoas mais carismáticas da atualidade, fizesse
um show pago, levaria um grande número de pessoas,
mas certamente não chegaria a 600 000", diz Poladian.
É difícil saber, porque o público católico
desenvolveu em relação ao padre Rossi uma admiração
que beira a idolatria. No domingo anterior, um show gratuito
num parque de São Paulo com três atrações
de peso entre a juventude (Jota Quest, É o Tchan e
a dupla sertaneja Gian e Giovani) só atraiu 100 000
pessoas.
As missas concorridas do jovem sacerdote paulistano provocam
reações conflitantes no clero graúdo
da Igreja Católica. Cardeais, bispos e teólogos
estão fascinados com a capacidade que Rossi vem demonstrando
de atrair multidões capazes de lotar estádios
ou seis estádios, no caso da missa de finados da
semana passada. Depois de uma década de sangria em
que os pentecostais depredaram o rebanho católico,
o clero sente-se aliviado por presenciar uma cena que no passado
começava a ficar rara: igrejas superlotadas de gente
genuinamente envolvida pelas cerimônias. Mas há
também entre os religiosos mais conservadores uma certa
reserva quanto ao excesso de entusiasmo físico que
se observa nas missas de Rossi e de muitos outros sacerdotes
cantores que fazem sucesso no Brasil. "De modo geral, as missas
à maneira antiga são maçantes. Mas as
mudanças não podem ser exageradas e superficiais,
como as que vemos nas missas-espetáculos", critica
dom Décio Zandonade, bispo auxiliar de Belo Horizonte.
O Concílio Vaticano II mudou o comportamento dos padres
nos anos 60. Antes, rezavam de costas para o público
e em latim. Com a mudança litúrgica, passaram
a olhar para os fiéis e a rezar na língua do
país, de modo a tornar o conteúdo da mensagem
católica mais acessível. O padre Marcelo avançou
bem além.
Ele sempre diz que respeita a liturgia, mas acha que as
missas precisam de um sopro de vida. Essa injeção
de ânimo transformou cada celebração num
espetáculo. Quando padre Marcelo entra em cena, sob
assobios e aplausos, o público dança e canta
com ele, agitando os braços para um lado e para o outro.
É o que chama de aeróbica do Senhor, nome de
uma das faixas de seu mais conhecido CD. Até mesmo
o Pai-Nosso, a oração mais tradicional
do catolicismo, virou música e é acompanhado
por coreografia. "As pessoas se envolvem mais quando se expressam
gestualmente", teoriza o padre-cantor, e ele tem toda a razão
no que diz e prova. Nas suas missas, distribuem-se 10 000
hóstias, com a ajuda de 100 voluntários. Na
missa da semana passada, 70 000 pessoas receberam a comunhão
ao ar livre. A reação dos fiéis difere
um tantinho da esperada num culto religioso. As fileiras de
bancos precisam ser isoladas para evitar que o padre seja
assediado pelos fãs. Na hora em que ele desce do púlpito
e passeia pela igreja, é escoltado por um grupo de
coroinhas e padres. Mesmo assim sempre há quem tente
agarrar sua batina. Marcelo Rossi, em resumo, é um
ídolo das multidões.
Olhos azuis Os fatores que levaram à
escalada de Rossi são simples de entender. Ele é
jovem (33 anos), alto (1,96 metro), forte (formado em educação
física, já deu aula de musculação),
tem olhos azuis e canta bem. Também tem carisma e sabe
se comunicar. "É muito difícil encontrar tudo
isso num religioso", elogia dom Fernando. Padre Marcelo encontrou
um rebanho disperso, afugentado pela monotonia da pregação
social da Teologia da Libertação, e o trouxe
de volta, oferecendo música, bênção
e bastante emoção. Os padres mais liberais não
toleram seu fundamentalismo com roupagem moderna, mas ele
não hesita em condenar o aborto, o homossexualismo
e o sexo fora do casamento. A Diocese de Santo Amaro é
um bom termômetro da repercussão de seu trabalho.
Quando se ordenou, no final de 1994, eram 38 paróquias.
Hoje são 68. O número de seminaristas pulou
de cinco para 115.
Ele ainda tem outros números graúdos no currículo.
Seu último lançamento, Um Presente para Jesus,
bateu a marca de 1 milhão de cópias vendidas
na semana em que chegou às lojas, há dois meses,
recebendo o disco de diamante. Ao todo, seus CDs venderam
5,2 milhões de unidades. Significa faturamento em torno
de 4 milhões de reais. A dinheirama, ele garante, vai
direto para o caixa da diocese e se transforma em obras sociais.
Tudo de que precisa para uso pessoal do terno cinza bem
cortado ao Palio branco com que se desloca pela cidade
recebe da Igreja.
Um dos milagres mais constantes de padre Marcelo é
a multiplicação dos índices de audiência.
Não é por outro motivo que ele se tornou uma
figura sempre presente em programas de auditório. A
Rede Globo sonhava em ter o religioso apresentando um programa
diário dirigido ao público jovem. Não
conseguiu, mas há três meses assinou com dom
Fernando uma carta de intenções em que a emissora
se compromete a transmitir os principais eventos do Terço
Bizantino. Padre Marcelo vai apresentar o réveillon
na Bandeirantes, ao lado de Ivete Sangalo, e participar do
especial de Natal de Gugu Liberato. Com três programas
de rádio (um deles numa emissora de pagode, a 105 FM)
e outro na TV, ele salta da cama às 4h30 para dar conta
de tantos compromissos. Já não pode caminhar
livremente pela rua, pois é assediado por fiéis
em busca de bênçãos. Quem torce o nariz
à superexposição do prelado na TV não
se deu conta de uma mudança substancial na vida brasileira:
o avanço da religião nos meios de comunicação.
Das 1 931 emissoras de rádio do país, pelo menos
450 estão nas mãos de grupos religiosos. Ocorre
o mesmo com 95 dos 249 canais de televisão.
A Igreja Católica ganhou do governo federal as primeiras
emissoras de rádio nos anos 50. Hoje, é dona
da maior rede radiofônica do país, com 180 estações.
Os evangélicos começaram bem depois, seguindo
por outro caminho. Sem acesso a novas concessões (que
até 1997 dependiam da boa vontade do governo), arrendam
praticamente todo o espaço de certas rádios.
Com isso, não se caracterizava a compra de concessão,
proibida por lei. O exemplo é a rádio Musical
FM de São Paulo. Cinco meses atrás, seu proprietário
arrendou 23 horas e 55 minutos da programação
diária a dois grupos pentecostais (Assembléia
de Deus e Igreja Quadrangular). Cada uma utiliza duas horas
e subloca o tempo restante a outras dez igrejas. O resultado
é que nem o governo nem as próprias igrejas
têm idéia do tamanho da mídia religiosa
no país. As cinco maiores igrejas evangélicas
detêm, juntas, 271 emissoras de rádio, a maioria
AMs. Os números escondem cerca de 3 000 rádios
comunitárias funcionando ilegalmente, metade delas
de cunho religioso.
A Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, fez
o lance mais ousado no ramo da TV, comprando a Rede Record,
com 18 emissoras coligadas e 68 afiliadas. Isso deu aos evangélicos
uma vantagem de noventa a cinco emissoras sobre os católicos.
Esses reagiram com a Rede Vida, quatro anos atrás.
Trata-se de um empréstimo feito à Igreja pelo
dono da concessão, um empresário do interior
de São Paulo. Gastam-se apenas 900 000 reais por mês
para mantê-la no ar, entre aluguel de satélites
da Embratel e custos operacionais. "Esse novo processo de
comunicação está permitindo aos católicos
brasileiros recuperar a auto-estima", diz João Monteiro
de Barros Filho, diretor da Rede Vida. O movimento católico
em direção à mídia eletrônica
é, em boa parte, fruto do fortalecimento da Renovação
Carismática, justamente o movimento que tem como um
de seus pilares o padre Marcelo Rossi. A principal atração
da Rede Vida é, como não poderia deixar de ser,
o próprio padre Marcelo.
Roberto Valverde
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Marcia Marba
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Reprodução
de TV
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Ricardo Benichio
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| A incansável peregrinação
do padre Marcelo por programas de auditório (em
sentido horário): Xuxa, Angélica, Hebe
Camargo, Leonardo e no Domingão do Faustão |
Cida Souza
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Com reportagem de
Sérgio Martins,
Cristine Prestes, Valéria França e José
Edward
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