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Jogatina feminina
Estudo com freqüentadoras de bingo
mostra que vício do jogo atinge
mulheres com maior rapidez
Egberto Nogueira
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Tarde no bingo: "Mulheres
jogam para fugir da solidão
e aplacar a ansiedade" |
No começo, é puro passatempo com as amigas. Mais tarde, elas
não podem mais viver sem ele. Tão arrebatador quanto uma paixão,
o jogo vicia as mulheres três vezes mais rápido que os homens.
O que os donos dos salões de bingo já sabiam por experiência
foi confirmado por uma pesquisa recém-concluída pelo Ambulatório
do Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso, Amjo,
do Hospital das Clínicas de São Paulo. A explicação do fenômeno
não está nos hormônios, mas no comportamento social. "Enquanto
os homens estão atrás de excitação e euforia, as mulheres
jogam para fugir da solidão e aplacar a ansiedade", diz
a psiquiatra Monica Levit Zilberman, especializada em dependência
feminina e uma das coordenadoras da pesquisa. Tanto é assim
que o perigo é maior na idade da loba. O estudo mostrou que,
em média, as mulheres começam a jogar por volta dos 38 anos
e se viciam aos 43. Os homens iniciam-se na jogatina bem mais
cedo, aos 22 anos, e só vão perder o controle aos 33. Outra
grande diferença entre os sexos é a escolha da modalidade.
O bingo é o vício predileto das mulheres.
Uma série de motivos faz do bingo uma atração fatal. Primeiro,
é um jogo que não exige nenhuma habilidade dos participantes.
Tudo que se necessita é de sorte e, naturalmente, dinheiro.
Do ponto de vista feminino, o bingo tem a vantagem de ser
uma atividade desprovida do estigma da ilegalidade. Bem diferente
dos cassinos clandestinos freqüentados pelos homens, um salão
de bingo remete à tômbola jogada com grãozinhos de feijão
no chá beneficente com a avó ou no fim de semana em família.
"O bingo entra no imaginário feminino ancorado num conceito
inocente de filantropia", afirma a psicóloga Maria Paula
de Magalhães Oliveira, da Universidade Federal de São Paulo,
Unifesp. Há poucas opções de diversão para mulheres solitárias.
Diversamente do homem, que pode sentar-se sozinho num bar
e tomar cerveja sem ser assediado, mulher sem companhia chama
a atenção em qualquer lugar. No bingo é diferente. Os porteiros
as tratam com cavalheirismo e a paquera ostensiva é uma exceção
à regra.
Oscar Cabral
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Bolinhas da sorte: como a
tômbola jogada com feijões
nas reuniões de família |
Impressiona a rapidez com que o lazer inocente pode transformar-se
num vício devorador. Demorou apenas três meses para engolir
a aposentada L.C., de 58 anos, hoje uma freqüentadora assídua
da Associação dos Jogadores Anônimos. Separada e com uma filha
adulta, ela entrou num bingo pela primeira vez em busca de distração.
Ganhou três vezes seguidas e, a partir daí, crente de que a
sorte estava a seu lado, jogou sem parar durante dois anos e
sete meses. Ia aos bingos à tarde e só saía de madrugada. "Voltava
para casa chorando porque não conseguia ganhar", conta.
De cartela em cartela (vendidas em média por módicos 2 reais),
viu desaparecer a poupança de 50.000 reais. "As mulheres que entram num bingo não
têm noção do perigo que estão correndo", diz a psicóloga
Maria Paula.
Só
uma minoria das freqüentadoras mergulha de cabeça na jogatina
mas quando isso ocorre é bem difícil voltar à tona.
O estudo do Hospital das Clínicas de São Paulo é a primeira
oportunidade para conhecer o perfil dessas jogadoras patológicas.
A maioria levava vida pacata até descobrir o bingo. De classe
média (renda mensal média de 1.200 reais), sem companheiro (52%), católica (58%) e de
nível superior completo (53%), não se encaixam no perfil de
aventureiras em busca de emoção e dinheiro. Nem poderiam,
pois é mais fácil perder do que ganhar nos salões de bingo.
O passatempo pode ser um sorvedouro de recursos. Como um viciado
em drogas, o jogador contumaz está disposto a qualquer coisa
para obter o dinheiro que lhe permitirá continuar jogando.
Aí vale tudo, de pedir emprestado ao furto.
Ricardo Benichio
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| A professora Maria da Glória: sete horas diárias
num bingo paulistano |
O
caminho até a procura por tratamento especializado não é fácil.
Em geral, passam-se anos (em média seis, segundo o estudo
do HC) para uma mulher admitir que alguma coisa está errada
com as tardes no bingo. A demora em aceitar a existência do
problema é um traço comum em todo tipo de vício. No caso do
bingo, a percepção é ainda mais sutil, pois não se trata de
dependência química, como ocorre com drogas e álcool. Ainda
que o mecanismo psicológico que leva ao vício não seja inteiramente
conhecido, os sintomas de alerta são bem claros (veja quadro).
Dona de um bom apartamento num bairro nobre em São Paulo
e com caixa suficiente para alimentar sete horas ininterruptas
de jogadas diárias, a professora Maria da Glória Albuquerque,
de 51 anos, não vê razão para se preocupar. Garante que sabe
como se controlar e, entre perdas e ganhos, está no lucro.
"Tem muita gente que se afunda na Sena", teoriza
ela, que chega a torrar sem dó 400 reais por noitada. Separada,
sem filhos e com várias empregadas, Maria da Glória acha que
pára de jogar quando lhe der na telha. Tentou uma vez, mas
sua marca foi pífia: apenas vinte dias de abstinência. A pesquisa
tem números alarmantes nesse sentido. A maioria das mulheres
que tenta deixar o vício desiste em menos de três meses. Os
jogadores costumam resistir por um ano. É perigoso tentar
abandonar o vício sem ajuda especializada. Entre as mulheres
pesquisadas, 35% já tinham tentado o suicídio, contra 7% dos
homens. Para elas, a vida é um jogo de alto risco.
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