Edição 1 623 -10/11/1999

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Jogatina feminina

Estudo com freqüentadoras de bingo
mostra que vício do jogo atinge
mulheres com maior rapidez

Egberto Nogueira
Tarde no bingo: "Mulheres
jogam para fugir da solidão
e aplacar a ansiedade"


No começo, é puro passatempo com as amigas. Mais tarde, elas não podem mais viver sem ele. Tão arrebatador quanto uma paixão, o jogo vicia as mulheres três vezes mais rápido que os homens. O que os donos dos salões de bingo já sabiam por experiência foi confirmado por uma pesquisa recém-concluída pelo Ambulatório do Jogo Patológico e Outros Transtornos do Impulso, Amjo, do Hospital das Clínicas de São Paulo. A explicação do fenômeno não está nos hormônios, mas no comportamento social. "Enquanto os homens estão atrás de excitação e euforia, as mulheres jogam para fugir da solidão e aplacar a ansiedade", diz a psiquiatra Monica Levit Zilberman, especializada em dependência feminina e uma das coordenadoras da pesquisa. Tanto é assim que o perigo é maior na idade da loba. O estudo mostrou que, em média, as mulheres começam a jogar por volta dos 38 anos e se viciam aos 43. Os homens iniciam-se na jogatina bem mais cedo, aos 22 anos, e só vão perder o controle aos 33. Outra grande diferença entre os sexos é a escolha da modalidade. O bingo é o vício predileto das mulheres.

Uma série de motivos faz do bingo uma atração fatal. Primeiro, é um jogo que não exige nenhuma habilidade dos participantes. Tudo que se necessita é de sorte e, naturalmente, dinheiro. Do ponto de vista feminino, o bingo tem a vantagem de ser uma atividade desprovida do estigma da ilegalidade. Bem diferente dos cassinos clandestinos freqüentados pelos homens, um salão de bingo remete à tômbola jogada com grãozinhos de feijão no chá beneficente com a avó ou no fim de semana em família. "O bingo entra no imaginário feminino ancorado num conceito inocente de filantropia", afirma a psicóloga Maria Paula de Magalhães Oliveira, da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp. Há poucas opções de diversão para mulheres solitárias. Diversamente do homem, que pode sentar-se sozinho num bar e tomar cerveja sem ser assediado, mulher sem companhia chama a atenção em qualquer lugar. No bingo é diferente. Os porteiros as tratam com cavalheirismo e a paquera ostensiva é uma exceção à regra.

Oscar Cabral
Bolinhas da sorte: como a
tômbola jogada com feijões
nas reuniões de família

Impressiona a rapidez com que o lazer inocente pode transformar-se num vício devorador. Demorou apenas três meses para engolir a aposentada L.C., de 58 anos, hoje uma freqüentadora assídua da Associação dos Jogadores Anônimos. Separada e com uma filha adulta, ela entrou num bingo pela primeira vez em busca de distração. Ganhou três vezes seguidas e, a partir daí, crente de que a sorte estava a seu lado, jogou sem parar durante dois anos e sete meses. Ia aos bingos à tarde e só saía de madrugada. "Voltava para casa chorando porque não conseguia ganhar", conta. De cartela em cartela (vendidas em média por módicos 2 reais), viu desaparecer a poupança de 50.000 reais. "As mulheres que entram num bingo não têm noção do perigo que estão correndo", diz a psicóloga Maria Paula.

Só uma minoria das freqüentadoras mergulha de cabeça na jogatina – mas quando isso ocorre é bem difícil voltar à tona. O estudo do Hospital das Clínicas de São Paulo é a primeira oportunidade para conhecer o perfil dessas jogadoras patológicas. A maioria levava vida pacata até descobrir o bingo. De classe média (renda mensal média de 1.200 reais), sem companheiro (52%), católica (58%) e de nível superior completo (53%), não se encaixam no perfil de aventureiras em busca de emoção e dinheiro. Nem poderiam, pois é mais fácil perder do que ganhar nos salões de bingo. O passatempo pode ser um sorvedouro de recursos. Como um viciado em drogas, o jogador contumaz está disposto a qualquer coisa para obter o dinheiro que lhe permitirá continuar jogando. Aí vale tudo, de pedir emprestado ao furto.

Ricardo Benichio
A professora Maria da Glória: sete horas diárias num bingo paulistano

O caminho até a procura por tratamento especializado não é fácil. Em geral, passam-se anos (em média seis, segundo o estudo do HC) para uma mulher admitir que alguma coisa está errada com as tardes no bingo. A demora em aceitar a existência do problema é um traço comum em todo tipo de vício. No caso do bingo, a percepção é ainda mais sutil, pois não se trata de dependência química, como ocorre com drogas e álcool. Ainda que o mecanismo psicológico que leva ao vício não seja inteiramente conhecido, os sintomas de alerta são bem claros (veja quadro). Dona de um bom apartamento num bairro nobre em São Paulo e com caixa suficiente para alimentar sete horas ininterruptas de jogadas diárias, a professora Maria da Glória Albuquerque, de 51 anos, não vê razão para se preocupar. Garante que sabe como se controlar e, entre perdas e ganhos, está no lucro. "Tem muita gente que se afunda na Sena", teoriza ela, que chega a torrar sem dó 400 reais por noitada. Separada, sem filhos e com várias empregadas, Maria da Glória acha que pára de jogar quando lhe der na telha. Tentou uma vez, mas sua marca foi pífia: apenas vinte dias de abstinência. A pesquisa tem números alarmantes nesse sentido. A maioria das mulheres que tenta deixar o vício desiste em menos de três meses. Os jogadores costumam resistir por um ano. É perigoso tentar abandonar o vício sem ajuda especializada. Entre as mulheres pesquisadas, 35% já tinham tentado o suicídio, contra 7% dos homens. Para elas, a vida é um jogo de alto risco.