Edição 1 623 -10/11/1999

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Fobia social e de injeção

Medo além da conta

Tratamento experimental, que alia
antidepressivos com terapia em grupo,
dá esperança a quem tem fobia

Juliana De Mari

Rogério Voltan

Fobia de
lugares abertos

Durante dez anos, a professora Júlia Maria Banzato, de 48 anos, sofreu ataques de pânico cada vez que punha os pés para fora de casa. Ela não tinha a menor idéia do que era aquela angústia imensa que a impedia de andar normalmente pelas ruas ou ir a um supermercado. Seu mal, ela só descobriu depois de receber vários diagnósticos confusos, é agorafobia, o medo relacionado a lugares abertos. Júlia, que também sofre de esclerose múltipla, só conseguiu voltar a pisar na rua graças à terapia comportamental combinada ao uso de antidepressivos. Hoje, ela faz tratamento no Hospital das Clínicas de São Paulo e está aprendendo a dominar o medo e a retomar, aos poucos, seu dia-a-dia.

Há dez anos, a professora de geografia Júlia Maria Banzato teve uma sensação estranha ao atravessar uma movimentada avenida em São Paulo, a caminho do trabalho. Uma súbita tontura, uma forte pressão no peito e um pavor irracional de cair no chão. Foi o primeiro sinal de que algo estava fora de controle em suas emoções. Os episódios logo se tornaram freqüentes. O mal-estar aparecia quando ela estava nos corredores de supermercados, no pátio das escolas em que lecionava e até dentro de casa. Sair à rua tornou-se um suplício. "Às vezes, eu até conseguia sair de casa, acompanhada por alguém, para ir à padaria ou à loja da esquina. Mas inevitavelmente a sensação de pavor aparecia quando eu me via num espaço maior", conta. A vida de Júlia virou sinônimo de auto-reclusão. "Eu sofria tanto que cheguei ao ponto de precisar de pelo menos duas pessoas ao meu lado para pôr o pé na rua", diz. O mal que aflige a professora é um exemplo clássico de agorafobia, uma das diversas formas da manifestação patológica da ansiedade. Na linguagem médica, Júlia sofre do medo relacionado a espaços abertos – exatamente o contrário da popular claustrofobia. É uma patologia que hoje ela tenta superar com um tratamento pioneiro no Hospital das Clínicas de São Paulo, o HC.

Estatísticas americanas recentes mostram que 25% da população está sujeita a sofrer, pelo menos uma vez na vida, de um ataque de pavor como o de Júlia. Numa ponta do problema, aparecem as vítimas em potencial das chamadas fobias específicas, categoria em que se enquadra a doença da professora. É gente que perde o controle pela simples visão de uma barata, de uma seringa de injeção ou de uma cadeira de dentista. Na outra ponta, está a fobia social, classificada como um tipo de timidez ao extremo. Numa definição rasteira, trata-se de gente que tem verdadeiro pavor de gente. Para essa legião de eternos ruborizados, tarefas sociais banais, como assinar um documento ou comer na frente dos outros, transformam-se numa cruz impossível de carregar.

Todos temos algum grau de ansiedade ou timidez, e, quando elas se manifestam, normalmente são acompanhadas por um mal-estar generalizado. Mas é vantajoso responder dessa forma a certas situações. O medo normal provocado pela necessidade de proferir uma palestra em sala de aula, por exemplo, é o que nos faz estudar o assunto a fundo e geralmente obter sucesso. Para um fóbico, a ansiedade não gera bons resultados. Ao contrário, paralisa. "Nos casos de fobia há uma resposta inadequada a determinado estímulo", explica o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, coordenador do Laboratório de Pânico e Respiração do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. "A ansiedade patológica, seja diante de uma aranha ou de um grupo de estranhos, não permite que o fóbico se prepare e enfrente as situações ameaçadoras."

Menos graves que as sociais, as fobias catalogadas no rol das específicas são as mais marcantes e as mais fáceis de identificar no dia-a-dia. Quem não tem um caso na ponta da língua sobre alguém que dá escândalo toda vez que se forma uma tempestade, ou quando um inseto, mesmo que minúsculo, aparece em seu caminho, ou a cadeira do dentista não pode mais ser evitada? Para uma pessoa normal, ficar frente a frente com uma barata, no máximo é motivo de asco. Mesmo fazendo caras e bocas, a pessoa vai lá e acerta uma chinelada no bicho. Para o fóbico, teorizam os especialistas, a barata é o detonador de sensações físicas e temores psicológicos ancestrais. Em seu processo de evolução, o ser humano aprendeu a lidar com seus medos e a tirar proveito de sua capacidade de neutralizar o perigo. Caso contrário, provavelmente jamais teria descido das árvores para o chão das savanas africanas.

Reação exagerada – A manifestação da fobia nada mais seria do que uma reação exagerada do mecanismo de autopreservação, que, enganado, tomaria como situações de risco estímulos banais do dia-a-dia. Em outros tempos, a produção imediata de adrenalina possibilitava fugir mais rápido de ataques de tribos inimigas. Agora, tribos inimigas são os filhos de nosso vizinho, e as doenças não são mais um espinho no pé, mas microrganismos desconhecidos. "Há um stress constante e nos preparamos para uma guerra em que corpos tensos não resolvem mais. Ao contrário, atrapalham", diz a psicóloga Marilza Mestre, do Centro de Psicologia Especializado em Medos, CPEM, de Curitiba. "Como não consegue solucionar os novos problemas, o homem se torna ansioso e pode chegar à depressão, ao pânico e às fobias."

Assim como a professora Júlia, até meados de 1980, época em que a doença foi oficialmente reconhecida pela medicina, era comum o paciente peregrinar de um consultório a outro em busca de um diagnóstico preciso. Até então, os sintomas eram vistos como decorrentes de outros distúrbios, como síndrome do pânico ou labirintite. Hoje, os médicos já sabem que ter palpitações, suar em bicas e até perder os movimentos diante de determinado objeto ou situação são sinais que não podem ser desprezados. "O que mais preocupa é que, muitas vezes, a fobia aparece junto com quadros graves de depressão e síndrome do pânico", diz o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto, pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Os números impressionam. Pacientes fóbicos desenvolvem quadros depressivos em 50% dos casos. Em outros 20%, a doença leva, por tabela, à dependência de álcool ou remédios.

Nesse cenário de sombras, há algumas pistas que ajudam a entender a doença com mais clareza. Só recentemente psicólogos e psiquiatras passaram a admitir que os fóbicos, de maneira geral, tendem a apresentar um mesmo perfil psicológico. Normalmente, são pessoas que tiveram uma educação rígida. Por isso se preocupam excessivamente com o julgamento alheio, são perfeccionistas e não conseguem manifestar opinião. Como prestam muita atenção aos detalhes, costumam ser reconhecidas pelo alto senso de responsabilidade e pelo bom desempenho profissional. É com base nesse perfil e na hipótese dos medos ancestrais que os especialistas arriscam uma explicação para duas manifestações curiosas das fobias: a de injeção e a de sangue. Na visão dos médicos, o que provoca a ansiedade em grau patológico nessas situações é a associação com medos remotos. Picadas e cortes para nossos ancestrais eram sinônimo de sofrimento e, quase sempre, de morte.

O técnico em eletrônica Márcio de Moraes, 43 anos, é do tipo que prefere sentir dor no dentista a levar uma rápida anestesia. Ele sente um pavor tão grande de injeção que várias vezes abriu mão de boas oportunidades profissionais para evitar exames médicos (veja quadro). "Uma simples agulhinha complicou toda a minha vida", admite. Márcio só conseguiu alguma melhora depois de três meses de terapia. Ainda assim, recorre à ajuda da psicóloga sempre que o medo de injeção o impede de cuidar da saúde. A terapia comportamental, desenvolvida pelo psiquiatra sul-africano Joseph Wolpe na década de 60, é um verdadeiro achado. A técnica, baseada na exposição gradual do paciente às situações que provocam temor, revolucionou tanto o diagnóstico quanto o tratamento dos transtornos ansiosos. À medida que se submete a estímulos que remetem à fobia, o paciente vai aprendendo a dominar os sintomas físicos que caracterizam a doença. Faz exercícios de relaxamento, aprende a controlar a respiração e, ao final do tratamento, acaba percebendo que atribuía um valor exagerado à barata, ao rato, ao avião, ou a seja lá qual for o causador de tanta ansiedade.

As crianças e a violência – "Mas para chegar a precisar de tratamento a fobia deve de fato incapacitar a pessoa para as mínimas coisas da vida", diz Antonio Egidio Nardi, da UFRJ. Foi o que aconteceu com o garoto Gabriel Krieger. Com apenas 10 anos, Gabriel, que mora em Curitiba, sofre de fobia de assalto. Partiu dele a iniciativa de pedir ajuda (veja quadro). Assim como ele, as crianças são as maiores vítimas do medo irracional da violência. No CPEM, de Curitiba, elas são maioria entre os 4% de pacientes que procuram tratamento por causa do pavor de assalto.

Os especialistas ainda não descobriram como exatamente surgem as fobias. Da herança genética à aprendizagem por observação, as hipóteses são várias e ainda pouco estudadas. O que já se sabe, com certeza, é que filhos de pais fóbicos têm 15% de possibilidade de perpetuar o comportamento na idade adulta. A medicina sabe também que, da legião dos tímidos clássicos, 2% vai desenvolver a forma aguda de timidez, a fobia social, no decorrer da vida. Os médicos recomendam aos pais que estejam mais atentos aos filhos tímidos na adolescência, porque é entre 15 e 18 anos que a timidez crônica controlável pode transformar-se num problema maior. A adolescência, além de ser uma fase de maior instabilidade, dando brecha para as fragilidades aflorarem, é também o período em que as solicitações sociais são mais intensas. E quando a fobia se relaciona a eventos sociais, o drama dos pacientes ganha proporções inimagináveis.

A fobia social é o medo patológico de comer, beber, escrever, telefonar. Enfim, de agir de forma ridícula ou inadequada na presença de outras pessoas. Em casos extremos, pode resultar em total isolamento. A principal característica dos fóbicos sociais é a ansiedade antecipatória. É gente que, só de pensar na necessidade de falar numa reunião marcada para daqui a três meses, começa a sofrer desde a hora em que recebe a notícia. Ao contrário de uma pessoa normal, o fóbico social também não se tranqüiliza no decorrer da exposição. Só tende a piorar. Os sintomas crescem como uma bola de neve. A pessoa começa a prestar tanta atenção no seu desempenho que os sinais físicos, já exagerados, tendem a fugir completamente de controle. "O fóbico social sabe o que dizer numa reunião, mas, ao contrário do tímido, que enfrenta a situação, tem a sensação de que vai ser demitido só de pensar em abrir a boca", explica a psicóloga Neuza Corassa, do CPEM.

No caminho para o controle das fobias, aliar terapia comportamental ao uso de antidepressivos parece ser a luz no fim do túnel. Na terapia, o paciente enfrenta as situações aterrorizantes com a certeza de que vai ter sempre alguém do seu lado para ajudá-lo. Sob o efeito dos remédios, consegue impedir que sintomas físicos tão desagradáveis como suar demais ou uma súbita vontade de ir ao banheiro fujam do controle. "Isso devolve ao paciente o que ele mais sente falta: a auto-estima", garante o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto. O médico é responsável por um programa pioneiro no setor de psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ali, os pacientes com diagnóstico de fobia social e alguns casos de fobias específicas, como o medo de espaços abertos, estão sendo submetidos a tratamento com terapia comportamental em grupo mais o uso de medicação.

Se o caso da professora Júlia Banzato, citado no início da reportagem, for tomado como exemplo, o programa do HC ainda vai dar o que falar. Há seis meses, Júlia começou a freqüentar as sessões. No caso dela, os médicos optaram pela terapia comportamental individual conjugada ao uso do antidepressivo Prozac. O medicamento é um poderoso regulador da serotonina, neurotransmissor responsável pelas sensações de bem-estar, e atua na inibição dos sintomas do pânico. Está ajudando a professora a retomar, aos poucos, seu dia-a-dia normal. Júlia consegue passear pela rua onde mora sem outra pessoa por perto, faz pequenas compras no supermercado vizinho e até se anima a entrar num ônibus ou no metrô. Por mais dois anos, ainda, o tratamento vai fazer parte da sua agenda mensal de compromissos. "Está valendo muito a pena", afirma. "Pior do que a fobia era a sensação de impotência. Sempre fui independente e passei a me ver nas mãos dos outros." A mudança na vida da professora é tanta que ela está pensando seriamente em voltar a dar aulas.

Com reportagem de Rachel Verano,
de Curitiba, Dina Duarte, do Recife, e
Daniella Camargos, de Belo Horizonte