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Medo além da conta
Tratamento experimental, que alia
antidepressivos com terapia em grupo,
dá esperança a quem tem fobia
Juliana De Mari
Rogério Voltan
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Fobia de
lugares abertos
Durante dez anos, a professora Júlia Maria Banzato,
de 48 anos, sofreu ataques de pânico cada vez que punha
os pés para fora de casa. Ela não tinha a menor idéia
do que era aquela angústia imensa que a impedia de andar
normalmente pelas ruas ou ir a um supermercado. Seu
mal, ela só descobriu depois de receber vários diagnósticos
confusos, é agorafobia, o medo relacionado a lugares
abertos. Júlia, que também sofre de esclerose múltipla,
só conseguiu voltar a pisar na rua graças à terapia
comportamental combinada ao uso de antidepressivos.
Hoje, ela faz tratamento no Hospital das Clínicas de
São Paulo e está aprendendo a dominar o medo e a retomar,
aos poucos, seu dia-a-dia.
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Há dez anos, a professora de geografia Júlia Maria Banzato
teve uma sensação estranha ao atravessar uma movimentada avenida
em São Paulo, a caminho do trabalho. Uma súbita tontura, uma
forte pressão no peito e um pavor irracional de cair no chão.
Foi o primeiro sinal de que algo estava fora de controle em
suas emoções. Os episódios logo se tornaram freqüentes. O
mal-estar aparecia quando ela estava nos corredores de supermercados,
no pátio das escolas em que lecionava e até dentro de casa.
Sair à rua tornou-se um suplício. "Às vezes, eu até conseguia
sair de casa, acompanhada por alguém, para ir à padaria ou
à loja da esquina. Mas inevitavelmente a sensação de pavor
aparecia quando eu me via num espaço maior", conta. A
vida de Júlia virou sinônimo de auto-reclusão. "Eu sofria
tanto que cheguei ao ponto de precisar de pelo menos duas
pessoas ao meu lado para pôr o pé na rua", diz. O mal
que aflige a professora é um exemplo clássico de agorafobia,
uma das diversas formas da manifestação patológica da ansiedade.
Na linguagem médica, Júlia sofre do medo relacionado a espaços
abertos exatamente o contrário da popular claustrofobia.
É uma patologia que hoje ela tenta superar com um tratamento
pioneiro no Hospital das Clínicas de São Paulo, o HC.
Estatísticas americanas recentes mostram que 25% da população
está sujeita a sofrer, pelo menos uma vez na vida, de um ataque
de pavor como o de Júlia. Numa ponta do problema, aparecem
as vítimas em potencial das chamadas fobias específicas, categoria
em que se enquadra a doença da professora. É gente que perde
o controle pela simples visão de uma barata, de uma seringa
de injeção ou de uma cadeira de dentista. Na outra ponta,
está a fobia social, classificada como um tipo de timidez
ao extremo. Numa definição rasteira, trata-se de gente que
tem verdadeiro pavor de gente. Para essa legião de eternos
ruborizados, tarefas sociais banais, como assinar um documento
ou comer na frente dos outros, transformam-se numa cruz impossível
de carregar.
Todos temos algum grau de ansiedade ou timidez, e, quando
elas se manifestam, normalmente são acompanhadas por um mal-estar
generalizado. Mas é vantajoso responder dessa forma a certas
situações. O medo normal provocado pela necessidade de proferir
uma palestra em sala de aula, por exemplo, é o que nos faz
estudar o assunto a fundo e geralmente obter sucesso. Para
um fóbico, a ansiedade não gera bons resultados. Ao contrário,
paralisa. "Nos casos de fobia há uma resposta inadequada
a determinado estímulo", explica o psiquiatra Antonio
Egidio Nardi, coordenador do Laboratório de Pânico e Respiração
do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, UFRJ. "A ansiedade patológica, seja diante
de uma aranha ou de um grupo de estranhos, não permite que
o fóbico se prepare e enfrente as situações ameaçadoras."
Menos
graves que as sociais, as fobias catalogadas no rol das específicas
são as mais marcantes e as mais fáceis de identificar no dia-a-dia.
Quem não tem um caso na ponta da língua sobre alguém que dá
escândalo toda vez que se forma uma tempestade, ou quando
um inseto, mesmo que minúsculo, aparece em seu caminho, ou
a cadeira do dentista não pode mais ser evitada? Para uma
pessoa normal, ficar frente a frente com uma barata, no máximo
é motivo de asco. Mesmo fazendo caras e bocas, a pessoa vai
lá e acerta uma chinelada no bicho. Para o fóbico, teorizam
os especialistas, a barata é o detonador de sensações físicas
e temores psicológicos ancestrais. Em seu processo de evolução,
o ser humano aprendeu a lidar com seus medos e a tirar proveito
de sua capacidade de neutralizar o perigo. Caso contrário,
provavelmente jamais teria descido das árvores para o chão
das savanas africanas.
Reação exagerada A manifestação da fobia nada
mais seria do que uma reação exagerada do mecanismo de autopreservação,
que, enganado, tomaria como situações de risco estímulos banais
do dia-a-dia. Em outros tempos, a produção imediata de adrenalina
possibilitava fugir mais rápido de ataques de tribos inimigas.
Agora, tribos inimigas são os filhos de nosso vizinho, e as
doenças não são mais um espinho no pé, mas microrganismos
desconhecidos. "Há um stress constante e nos preparamos
para uma guerra em que corpos tensos não resolvem mais. Ao
contrário, atrapalham", diz a psicóloga Marilza Mestre,
do Centro de Psicologia Especializado em Medos, CPEM, de Curitiba.
"Como não consegue solucionar os novos problemas, o homem
se torna ansioso e pode chegar à depressão, ao pânico e às
fobias."
Assim como a professora Júlia, até meados de 1980, época
em que a doença foi oficialmente reconhecida pela medicina,
era comum o paciente peregrinar de um consultório a outro
em busca de um diagnóstico preciso. Até então, os sintomas
eram vistos como decorrentes de outros distúrbios, como síndrome
do pânico ou labirintite. Hoje, os médicos já sabem que ter
palpitações, suar em bicas e até perder os movimentos diante
de determinado objeto ou situação são sinais que não podem
ser desprezados. "O que mais preocupa é que, muitas vezes,
a fobia aparece junto com quadros graves de depressão e síndrome
do pânico", diz o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto,
pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas
de São Paulo. Os números impressionam. Pacientes fóbicos desenvolvem
quadros depressivos em 50% dos casos. Em outros 20%, a doença
leva, por tabela, à dependência de álcool ou remédios.
Nesse cenário de sombras, há algumas pistas que ajudam a
entender a doença com mais clareza. Só recentemente psicólogos
e psiquiatras passaram a admitir que os fóbicos, de maneira
geral, tendem a apresentar um mesmo perfil psicológico. Normalmente,
são pessoas que tiveram uma educação rígida. Por isso se preocupam
excessivamente com o julgamento alheio, são perfeccionistas
e não conseguem manifestar opinião. Como prestam muita atenção
aos detalhes, costumam ser reconhecidas pelo alto senso de
responsabilidade e pelo bom desempenho profissional. É com
base nesse perfil e na hipótese dos medos ancestrais que os
especialistas arriscam uma explicação para duas manifestações
curiosas das fobias: a de injeção e a de sangue. Na visão
dos médicos, o que provoca a ansiedade em grau patológico
nessas situações é a associação com medos remotos. Picadas
e cortes para nossos ancestrais eram sinônimo de sofrimento
e, quase sempre, de morte.
O técnico em eletrônica Márcio de Moraes, 43 anos, é do tipo
que prefere sentir dor no dentista a levar uma rápida anestesia.
Ele sente um pavor tão grande de injeção que várias vezes
abriu mão de boas oportunidades profissionais para evitar
exames médicos (veja quadro).
"Uma simples agulhinha complicou toda a minha vida",
admite. Márcio só conseguiu alguma melhora depois de três
meses de terapia. Ainda assim, recorre à ajuda da psicóloga
sempre que o medo de injeção o impede de cuidar da saúde.
A terapia comportamental, desenvolvida pelo psiquiatra sul-africano
Joseph Wolpe na década de 60, é um verdadeiro achado. A técnica,
baseada na exposição gradual do paciente às situações que
provocam temor, revolucionou tanto o diagnóstico quanto o
tratamento dos transtornos ansiosos. À medida que se submete
a estímulos que remetem à fobia, o paciente vai aprendendo
a dominar os sintomas físicos que caracterizam a doença. Faz
exercícios de relaxamento, aprende a controlar a respiração
e, ao final do tratamento, acaba percebendo que atribuía um
valor exagerado à barata, ao rato, ao avião, ou a seja lá
qual for o causador de tanta ansiedade.
As crianças e a violência "Mas para chegar
a precisar de tratamento a fobia deve de fato incapacitar
a pessoa para as mínimas coisas da vida", diz Antonio
Egidio Nardi, da UFRJ. Foi o que aconteceu com o garoto Gabriel
Krieger. Com apenas 10 anos, Gabriel, que mora em Curitiba,
sofre de fobia de assalto. Partiu dele a iniciativa de pedir
ajuda (veja quadro). Assim
como ele, as crianças são as maiores vítimas do medo irracional
da violência. No CPEM, de Curitiba, elas são maioria entre
os 4% de pacientes que procuram tratamento por causa do pavor
de assalto.
Os especialistas ainda não descobriram como exatamente surgem
as fobias. Da herança genética à aprendizagem por observação,
as hipóteses são várias e ainda pouco estudadas. O que já
se sabe, com certeza, é que filhos de pais fóbicos têm 15%
de possibilidade de perpetuar o comportamento na idade adulta.
A medicina sabe também que, da legião dos tímidos clássicos,
2% vai desenvolver a forma aguda de timidez, a fobia social,
no decorrer da vida. Os médicos recomendam aos pais que estejam
mais atentos aos filhos tímidos na adolescência, porque é
entre 15 e 18 anos que a timidez crônica controlável pode
transformar-se num problema maior. A adolescência, além de
ser uma fase de maior instabilidade, dando brecha para as
fragilidades aflorarem, é também o período em que as solicitações
sociais são mais intensas. E quando a fobia se relaciona a
eventos sociais, o drama dos pacientes ganha proporções inimagináveis.
A fobia social é o medo patológico de comer, beber, escrever,
telefonar. Enfim, de agir de forma ridícula ou inadequada
na presença de outras pessoas. Em casos extremos, pode resultar
em total isolamento. A principal característica dos fóbicos
sociais é a ansiedade antecipatória. É gente que, só de pensar
na necessidade de falar numa reunião marcada para daqui a
três meses, começa a sofrer desde a hora em que recebe a notícia.
Ao contrário de uma pessoa normal, o fóbico social também
não se tranqüiliza no decorrer da exposição. Só tende a piorar.
Os sintomas crescem como uma bola de neve. A pessoa começa
a prestar tanta atenção no seu desempenho que os sinais físicos,
já exagerados, tendem a fugir completamente de controle. "O
fóbico social sabe o que dizer numa reunião, mas, ao contrário
do tímido, que enfrenta a situação, tem a sensação de que
vai ser demitido só de pensar em abrir a boca", explica
a psicóloga Neuza Corassa, do CPEM.
No caminho para o controle das fobias, aliar terapia comportamental
ao uso de antidepressivos parece ser a luz no fim do túnel.
Na terapia, o paciente enfrenta as situações aterrorizantes
com a certeza de que vai ter sempre alguém do seu lado para
ajudá-lo. Sob o efeito dos remédios, consegue impedir que
sintomas físicos tão desagradáveis como suar demais ou uma
súbita vontade de ir ao banheiro fujam do controle. "Isso
devolve ao paciente o que ele mais sente falta: a auto-estima",
garante o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto. O médico é
responsável por um programa pioneiro no setor de psiquiatria
do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ali, os pacientes com
diagnóstico de fobia social e alguns casos de fobias específicas,
como o medo de espaços abertos, estão sendo submetidos a tratamento
com terapia comportamental em grupo mais o uso de medicação.
Se o caso da professora Júlia Banzato, citado no início da
reportagem, for tomado como exemplo, o programa do HC ainda
vai dar o que falar. Há seis meses, Júlia começou a freqüentar
as sessões. No caso dela, os médicos optaram pela terapia
comportamental individual conjugada ao uso do antidepressivo
Prozac. O medicamento é um poderoso regulador da serotonina,
neurotransmissor responsável pelas sensações de bem-estar,
e atua na inibição dos sintomas do pânico. Está ajudando a
professora a retomar, aos poucos, seu dia-a-dia normal. Júlia
consegue passear pela rua onde mora sem outra pessoa por perto,
faz pequenas compras no supermercado vizinho e até se anima
a entrar num ônibus ou no metrô. Por mais dois anos, ainda,
o tratamento vai fazer parte da sua agenda mensal de compromissos.
"Está valendo muito a pena", afirma. "Pior
do que a fobia era a sensação de impotência. Sempre fui independente
e passei a me ver nas mãos dos outros." A mudança na
vida da professora é tanta que ela está pensando seriamente
em voltar a dar aulas.
Com reportagem de
Rachel Verano,
de Curitiba, Dina Duarte, do Recife, e
Daniella Camargos, de Belo Horizonte
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