Edição 1 623 -10/11/1999

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Um século em 2 anos

Indústria vira pelo avesso uma cidade
e todo mundo fica feliz com isso

Franco Iacomini, de Piên

Fotos Joel Rocha

A fábrica da Tafisa, que se instalou em Piên, no Paraná, ocupa uma área de780 000 metros quadrados. É maior do que o centro da cidade. O investimento da empresa foi de 200 milhões de dólares, 16 vezes maior que o PIB do município. A empresa dá emprego, direta ou indiretamente, a 2 000 pessoas – mais do que a população urbana de Piên, que é de 1 900 pessoas

No sul do Estado do Paraná existe uma cidadezinha que parecia estar parada no tempo. Chama-se Piên (coração, em tupi-guarani). Tem 10.000 habitantes, uma rua principal com quatro travessas, uma igrejinha acanhada sem praça nem coreto e um pequeno hospital com apenas três médicos. A lavoura, que sustenta a maior parte da população, ainda é feita com arado puxado a cavalo. Piên vinha assim havia quase quatro décadas, mas ultimamente as coisas andam mudando. Há dois anos, instalou-se na cidade uma enorme fábrica de pisos de madeira, a Tafisa. Construída pelo grupo Sonae, português, ocupa uma área maior do que o centro de Piên. Com ela, a cidade está saltando da tração animal para a robótica.

Não que a empresa tenha trazido prosperidade imediata à cidade ou acabado com o desemprego – apenas 25% dos funcionários foram recrutados entre os moradores. Mesmo assim, a presença da indústria trouxe à cidade um incentivo até então inédito e engendrou uma série de novidades no cenário econômico e social de Piên. Há conseqüências óbvias para as finanças municipais – a arrecadação de impostos, que era de 150.000 reais por mês antes da chegada da fábrica, deve subir para 350.000 mensais já em janeiro. Mas há outras, no comércio, na educação e até na agricultura. E já influem no dia-a-dia dos habitantes.

Junto com os robôs e computadores da fábrica da Tafisa, chegaram a Piên comodidades raras nas pequenas cidades brasileiras. Graças às exigências da empresa, que precisa de uma corrente elétrica estável para alimentar suas máquinas, raramente falta energia na cidade. Antes, o período de chuvas de verão era marcado por uma média de quinze interrupções de fornecimento por dia. A única agência bancária foi reformada e ganhou caixas automáticos. A cidade recebeu cobertura de telefonia celular no final do ano passado e agora conta até com uma rede de cabos de fibra óptica. Para uma população cuja renda per capita equivale a menos de um terço da média brasileira, foi um avanço tremendo. É como se a cidade quisesse tirar em dois anos todo o atraso acumulado ao longo do século. "Não tínhamos supermercado, agora temos dois. Abriram seis ou sete lojas e um posto de gasolina", conta o prefeito, Orlando Dranka.

O prefeito Dranka:
"Não era uma cidade"


As transformações já afetam o comportamento da população. O vigia João Ari de Oliveira, de 46 anos, até dois anos atrás não sabia sequer escrever. Agora está no 2º ano de um curso supletivo. Quando conseguir o certificado de conclusão do 1º grau, ele planeja bater à porta da Tafisa. Muitos de seus conterrâneos pretendem fazer o mesmo, porque a fábrica só contrata funcionários com o equivalente a pelo menos nove anos de escolaridade. Os pienenses reagiram de forma surpreendente à exigência. De uma hora para outra, as matrículas nas escolas locais explodiram. Entre 1997 e 1999, o número de alunos cresceu de 700 para 2.000. "Trabalhar em uma indústria passou a ser uma espécie de sonho de consumo por aqui, e isso incentivou as pessoas a vir à escola", diz Vera Pfeffer Schelbauer, orientadora educacional do colégio estadual Francisco Giese, que por ficar no centro da cidade teve de se desdobrar para atender a um aumento de 50% no número de estudantes.

A empresa exige que seus funcionários tenham alguma formação porque está entre as mais modernas e automatizadas do mundo em seu setor. Em uma das linhas de produção, cinco robôs fazem o trabalho que seria de cinqüenta homens. Altevir Mielke, de 24 anos, é operador de uma das centrais de controle de produção. Mielke cuida sozinho de uma sala com vinte monitores de computador e seis telas de TV, que mostram cada detalhe da produção de painéis de madeira. Para operar esse equipamento, passou por três meses de treinamento em Portugal e na Espanha. Há dois anos, ele era auxiliar de escritório no hospital de Piên. Mielke está cursando economia à noite em uma faculdade de São Bento do Sul, cidade catarinense que fica 20 quilômetros distante de Piên. Quando terminar, vai tentar uma nova promoção.

O agricultor analfabeto que toca o arado no muque não tem a menor chance de se adaptar ao ambiente que vigora na fábrica. Mas mesmo para ele há novidades. A Tafisa está intermediando a negociação de um grupo de produtores locais com a área de supermercados do grupo Sonae, que é dono da própria empresa e de quatro redes de supermercados no Paraná. Eles vão produzir verduras e legumes com baixo teor de agrotóxicos, com garantia de compra pelos supermercados. No campo, as verduras vão substituir a lavoura do tabaco, na qual os defensivos agrícolas aplicados são responsáveis por 60% das internações no hospital de Piên. O plano teve a adesão de gente que cansou de plantar tabaco, como o agricultor Hercílio Simões Filho. Ele está agora no meio de sua primeira colheita de beterraba, cenoura e cebola. Está disposto a abandonar de vez o fumo. "Quero fazer agricultura orgânica, que não usa veneno nenhum e tem preço melhor", afirma Simões.

A fábrica da Tafisa,
na
pequena Piên: emprego
para quem tem o 1º grau

O comércio deslanchou. Marcos Rudnick, dono da loja de materiais de construção Lekti, pensava em fechar as portas dois anos atrás. "A cidade estava parada e eu achava que não tinha futuro vender tijolo onde ninguém constrói nada", lembra. Naquela época, Rudnick tinha a única casa comercial de material de construção no centro de Piên, mas as vendas não eram animadoras. Faturava 20.000 reais por mês e o lucro era próximo de zero. Desde que começaram as obras da fábrica, as coisas mudaram. Mais casas foram construídas na cidade e reformas estão sendo feitas. Hoje, Rudnick tem um concorrente, mas mesmo assim as vendas são de 90.000 reais por mês. Precisou comprar dois caminhões novos para entregar as encomendas. O número de funcionários subiu de cinco para nove, e os salários cresceram 40%. Experiências como a de Piên mostram que o desenvolvimento econômico e cultural ocorre de forma muito acelerada quando é estimulado. "O Brasil está crescendo em regiões isoladas e as pessoas não estão se dando conta disso", diz Sérgio Abranches, cientista político sócio da empresa de consultoria Tendências, de São Paulo.