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Um século em 2 anos
Indústria vira pelo avesso uma cidade
e todo mundo fica feliz com isso
Franco Iacomini, de Piên
Fotos Joel Rocha
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| A fábrica da Tafisa, que se instalou
em Piên, no Paraná, ocupa uma área de780
000 metros quadrados. É maior do que o centro da cidade.
O investimento da empresa foi de 200 milhões
de dólares, 16 vezes maior que
o PIB do município. A empresa dá emprego, direta ou indiretamente,
a 2 000 pessoas mais do
que a população urbana de Piên, que é de 1
900 pessoas |
No sul do Estado do Paraná existe uma cidadezinha que parecia estar
parada no tempo. Chama-se Piên (coração, em tupi-guarani). Tem 10.000
habitantes, uma rua principal com quatro travessas, uma igrejinha
acanhada sem praça nem coreto e um pequeno hospital com apenas três
médicos. A lavoura, que sustenta a maior parte da população, ainda
é feita com arado puxado a cavalo. Piên vinha assim havia quase
quatro décadas, mas ultimamente as coisas andam mudando. Há dois
anos, instalou-se na cidade uma enorme fábrica de pisos de madeira,
a Tafisa. Construída pelo grupo Sonae, português, ocupa uma área
maior do que o centro de Piên. Com ela, a cidade está saltando da
tração animal para a robótica.
Não que a empresa tenha trazido prosperidade imediata à cidade
ou acabado com o desemprego apenas 25% dos funcionários foram
recrutados entre os moradores. Mesmo assim, a presença da indústria
trouxe à cidade um incentivo até então inédito e engendrou uma série
de novidades no cenário econômico e social de Piên. Há conseqüências
óbvias para as finanças municipais a arrecadação de impostos,
que era de 150.000 reais por mês antes
da chegada da fábrica, deve subir para 350.000
mensais já em janeiro. Mas há outras, no comércio, na educação e
até na agricultura. E já influem no dia-a-dia dos habitantes.
Junto com os robôs e computadores da fábrica da Tafisa, chegaram
a Piên comodidades raras nas pequenas cidades brasileiras. Graças
às exigências da empresa, que precisa de uma corrente elétrica estável
para alimentar suas máquinas, raramente falta energia na cidade.
Antes, o período de chuvas de verão era marcado por uma média de
quinze interrupções de fornecimento por dia. A única agência bancária
foi reformada e ganhou caixas automáticos. A cidade recebeu cobertura
de telefonia celular no final do ano passado e agora conta até com
uma rede de cabos de fibra óptica. Para uma população cuja renda
per capita equivale a menos de um terço da média brasileira, foi
um avanço tremendo. É como se a cidade quisesse tirar em dois anos
todo o atraso acumulado ao longo do século. "Não tínhamos supermercado,
agora temos dois. Abriram seis ou sete lojas e um posto de gasolina",
conta o prefeito, Orlando Dranka.
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O prefeito Dranka:
"Não era uma cidade" |
As transformações já afetam o comportamento da população. O vigia
João Ari de Oliveira, de 46 anos, até dois anos atrás não sabia
sequer escrever. Agora está no 2º ano de um curso supletivo. Quando
conseguir o certificado de conclusão do 1º grau, ele planeja bater
à porta da Tafisa. Muitos de seus conterrâneos pretendem fazer o
mesmo, porque a fábrica só contrata funcionários com o equivalente
a pelo menos nove anos de escolaridade. Os pienenses reagiram de
forma surpreendente à exigência. De uma hora para outra, as matrículas
nas escolas locais explodiram. Entre 1997 e 1999, o número de alunos
cresceu de 700 para 2.000. "Trabalhar
em uma indústria passou a ser uma espécie de sonho de consumo por
aqui, e isso incentivou as pessoas a vir à escola", diz Vera
Pfeffer Schelbauer, orientadora educacional do colégio estadual
Francisco Giese, que por ficar no centro da cidade teve de se desdobrar
para atender a um aumento de 50% no número de estudantes.
A empresa exige que seus funcionários tenham alguma formação porque
está entre as mais modernas e automatizadas do mundo em seu setor.
Em uma das linhas de produção, cinco robôs fazem o trabalho que
seria de cinqüenta homens. Altevir Mielke, de 24 anos, é operador
de uma das centrais de controle de produção. Mielke cuida sozinho
de uma sala com vinte monitores de computador e seis telas de TV,
que mostram cada detalhe da produção de painéis de madeira. Para
operar esse equipamento, passou por três meses de treinamento em
Portugal e na Espanha. Há dois anos, ele era auxiliar de escritório
no hospital de Piên. Mielke está cursando economia à noite em uma
faculdade de São Bento do Sul, cidade catarinense que fica 20 quilômetros
distante de Piên. Quando terminar, vai tentar uma nova promoção.
O agricultor analfabeto que toca o arado no muque não tem a menor
chance de se adaptar ao ambiente que vigora na fábrica. Mas mesmo
para ele há novidades. A Tafisa está intermediando a negociação
de um grupo de produtores locais com a área de supermercados do
grupo Sonae, que é dono da própria empresa e de quatro redes de
supermercados no Paraná. Eles vão produzir verduras e legumes com
baixo teor de agrotóxicos, com garantia de compra pelos supermercados.
No campo, as verduras vão substituir a lavoura do tabaco, na qual
os defensivos agrícolas aplicados são responsáveis por 60% das internações
no hospital de Piên. O plano teve a adesão de gente que cansou de
plantar tabaco, como o agricultor Hercílio Simões Filho. Ele está
agora no meio de sua primeira colheita de beterraba, cenoura e cebola.
Está disposto a abandonar de vez o fumo. "Quero fazer agricultura
orgânica, que não usa veneno nenhum e tem preço melhor", afirma
Simões.
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A fábrica da Tafisa,
na pequena Piên: emprego
para quem tem o 1º grau |
O comércio deslanchou. Marcos Rudnick, dono da loja de materiais
de construção Lekti, pensava em fechar as portas dois anos atrás.
"A cidade estava parada e eu achava que não tinha futuro vender
tijolo onde ninguém constrói nada", lembra. Naquela época,
Rudnick tinha a única casa comercial de material de construção no
centro de Piên, mas as vendas não eram animadoras. Faturava 20.000
reais por mês e o lucro era próximo de zero. Desde que começaram
as obras da fábrica, as coisas mudaram. Mais casas foram construídas
na cidade e reformas estão sendo feitas. Hoje, Rudnick tem um concorrente,
mas mesmo assim as vendas são de 90.000 reais por mês. Precisou comprar dois caminhões novos
para entregar as encomendas. O número de funcionários subiu de cinco
para nove, e os salários cresceram 40%. Experiências como a de Piên
mostram que o desenvolvimento econômico e cultural ocorre de forma
muito acelerada quando é estimulado. "O Brasil está crescendo
em regiões isoladas e as pessoas não estão se dando conta disso",
diz Sérgio Abranches, cientista político sócio da empresa de consultoria
Tendências, de São Paulo.
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