|
|
O mais concorrido
Fisioterapia é uma carreira em
alta e a de maior procura
na Universidade de São Paulo
Eduardo Nunomura
O vestibular ainda é um mal necessário. É o trampolim que
fará o jovem ingressar numa boa universidade e se transformar
num profissional à altura de um bom emprego. Mas o preço que
se paga para garantir um lugar nas melhores escolas está ficando
cada vez mais alto: poucas horas de sono, angústia da família,
menos tempo para o lazer e gastos com cursinhos. Se essa pressão
já é grande para a maioria dos vestibulandos, imagine então
para os 2.327 inscritos para
o curso de fisioterapia na Universidade de São Paulo, USP,
que se tornou o mais concorrido da instituição. Surpreendentemente,
é mais disputado na USP do que os grandes campeões do passado,
como a engenharia da Escola Politécnica, a medicina da faculdade
de Pinheiros ou o curso de direito do Largo São Francisco.
Na fisioterapia, são 92 candidatos para cada uma das 25 vagas,
contra 29 por um nas escolas de direito e medicina e 12 por
um na engenharia. Entre os cursos que mais se aproximam da
fisioterapia em matéria de preferência dos vestibulandos,
estão alguns que no passado não despertavam grande
interesse entre os candidatos, como turismo, publicidade,
relações públicas, nutrição, audiovisual e veterinária (veja
quadro ao lado). Há pelo menos cinco anos, a carreira
de fisioterapeuta está entre as seis mais procuradas. Em 1995,
eram 870 candidatos, quase um terço do número deste ano. Hoje,
o aluno que errar uma ou duas questões fáceis na prova estará
reprovado.
Para os 25 felizardos que passarão no próximo vestibular
para fisioterapia, a recompensa será grande. A carreira está
em alta e não é à toa que 2.317 estudantes (os outros dez inscritos não concluíram
o ensino médio) disputam um lugar no concurso preparado pela
Fundação Universitária para o Vestibular, Fuvest, que aplica
os exames na USP e em outras boas faculdades paulistas. Foi-se
o tempo em que o fisioterapeuta era uma espécie de primo pobre
dos outros profissionais que atuam na área da saúde, convocado
por médicos apenas em raros casos para tratar de velhos com
graves problemas motores ou pessoas vítimas de acidentes.
Hoje, eles se dividem em um número muito grande de especialidades.
"Seu trabalho já é tido como indispensável no setor da
saúde", afirma a professora Amélia Pasqual Marques, do
departamento de fisioterapia da Faculdade de Medicina da USP.
"Prova disso é que o perfil dos que chegam à faculdade
mudou nos últimos anos. Antes, muitos queriam na verdade medicina
ou odontologia, marcando fisioterapia como opção. Hoje, a
maioria escolhe fisioterapia em primeiro lugar", explica
a professora. O interesse pelo ramo cresce em todo o Brasil,
mas é em torno do curso da USP que o fervor parece mais intenso.
|
Ricardo Benichio

|
Jovens que vão prestar
o vestibular para fisio:
emprego garantido |
Essa expansão data de pouco tempo. A profissão só foi reconhecida
pelo Ministério da Educação três décadas atrás. Hoje, são
45.000 profissionais habilitados
pelos conselhos regionais de fisioterapia e terapia ocupacional.
Há oito anos, esse número não passava da metade. O crescimento
é atribuído, sobretudo, a uma campanha de propaganda involuntária.
Graças a sessões intensivas de fisioterapia, atletas famosos,
como Ronaldinho, Paulo Roberto Falcão, Vera Mossa, Hortência,
Roberto Dinamite, Juninho e Amoroso, puderam continuar na
profissão depois de sofrer graves lesões durante partidas
que disputaram. Esses tratamentos, por motivos óbvios, tornaram-se
assunto de jornais e TVs, habituando os leitores leigos a
um ramo antes pouco conhecido. Houve
outros casos que também chamaram a atenção do público, como
o da recuperação do locutor esportivo Osmar Santos, que sofreu
um acidente de carro em dezembro de 1994. Além do excelente
trabalho dos médicos que cuidaram de Osmar, sua reabilitação
foi muito facilitada pela atuação de uma fisioterapeuta.
Engana-se, porém, quem pensa que seguir a carreira de fisioterapia
é sinônimo de um futuro garantido, com salários nas alturas.
Para começar, há muitas faculdades espalhadas pelo país, lançando
fornadas de profissionais ao mercado. No total, o Brasil tem
cerca de 150 faculdades e institutos superiores. A grande
maioria dos que saem dessas escolas procura emprego na Região
Centro-Sul, acirrando a concorrência nessa área. Assim, o
salário de um iniciante não passa de 600 reais, nos piores
casos, e a média está em torno de 1.500
reais por mês. O maior problema para o profissional, apontado
pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional,
são as baixas remunerações dos planos de saúde, que pagam
por volta de 20 reais por uma consulta. "Se quer ficar
rico na profissão, esqueça. Você pode ter sucesso e ser feliz
ajudando as pessoas, e esse será seu maior salário",
alerta a diretora da organização, Célia Rodrigues Cunha.
Ari Leite
 |
| Especializações: profissional pode
atuar em várias áreas da saúde |
A grande procura por fisioterapia e outras faculdades que
no passado não despertavam tanta atenção dos jovens é um fenômeno
relacionado obviamente com mudanças no mercado de trabalho.
"Na cidade de São Paulo, 75% da arrecadação vem do setor
de serviços. E o que percebemos é um crescimento paralelo
das profissões relacionadas, como turismo, publicidade e jornalismo",
analisa o vice-diretor da Fuvest, José Atílio Vanin. Com isso,
levam vantagem, ao menos em termos de tranqüilidade nas provas,
os candidatos para os cursos menos procurados. Música, por
exemplo, tem apenas 3,53 candidatos por vaga. Para ciências
da terra, que não parece mas é um curso universitário, há
cinco vestibulandos para cada uma das setenta vagas.
|
Saiba
mais
|
|
|
|