Edição 1 623 -10/11/1999

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À espera da lei

Prisão preventiva se prolonga
e mais
de 60 000 acusados pagam o preço

Klester Cavalcanti

No Brasil, mais de 200.000 pessoas passam seus dias trancadas em presídios e delegacias. Em sua maioria, são criminosos condenados por delitos graves, como furto, assalto à mão armada, homicídio, estupro, tráfico de drogas. Em meio a essa expressiva população carcerária, contudo, há muita gente que não foi sequer a julgamento. Calcula-se que de cada dez detentos no país três não tenham nenhuma condenação nas costas. São cerca de 60.000 pessoas que, independentemente da culpa real ou presumida, pagam um preço indevido pela lentidão da Justiça brasileira. Estão esperando pelo julgamento atrás das grades. É impossível dizer quantos, mas uma parcela significativa pode vir a ser absolvida, depois de amargar longas temporadas na cadeia.

Segundo o Código de Processo Penal brasileiro, um indivíduo só pode ser mantido preso em três situações: quando é pego em flagrante, quando tem sua prisão preventiva decretada ou depois de condenado. A prisão preventiva, que existe para proteger a sociedade de criminosos em potencial ou garantir o funcionamento da Justiça, deve durar no máximo 81 dias. Esse é o tempo calculado pelo Supremo Tribunal Federal como suficiente para a polícia investigar, a promotoria acusar, as testemunhas se pronunciarem, o réu se defender e o juiz julgar. Como é quase irreal esperar que algum processo na Justiça brasileira seja resolvido em tão pouco tempo, há quem passe um, dois, três anos e até mais atrás das grades esperando julgamento.

O problema está espalhado por todo o país, mas uma análise dos Estados com maior porcentagem de presos provisórios comprova que a situação piora onde a população é mais pobre. Um levantamento feito por VEJA na Secretaria de Justiça e na de Segurança Pública mostrou que entre os dez Estados onde o quadro é mais agudo cinco ficam na Região Norte, quatro no Nordeste e um no Centro-Oeste. O primeiro lugar no ranking é o Pará. Ali, de cada dez presos, sete aguardam julgamento. Em São Paulo, 25% da população carcerária é formada por presos provisórios. Na Alemanha, essa proporção não chega a 7%. Lá, o prazo para a prisão preventiva é de seis meses, prorrogáveis por outros seis, em casos mais complexos. Se, nesse período, o suspeito não for julgado, o Estado tem a obrigação de libertá-lo. "Isso é muito justo. O acusado não tem culpa se a polícia e a Justiça são incompetentes", diz o advogado paulista Roberto Delmanto Júnior, autor de um livro sobre o assunto.

Sem defesa – Um fator que agrava o problema no Pará são as dimensões do Estado. Com área superior a 1.250.000 quilômetros quadrados – mais do que quatro Itálias – , o Pará tem apenas 145 juízes. Se o Estado fosse dividido por igual, cada magistrado ficaria com 8.620 quilômetros quadrados sob sua responsabilidade. Seria o mesmo que entregar todo o Estado do Rio de Janeiro nas mãos de cinco juízes – descontando-se a diferença no tamanho da população. Muitos têm sob sua tutela mais de um município, alguns no interior. Como a vida em Belém é bem menos dura do que nas cidadezinhas fincadas no meio da Floresta Amazônica, há juízes que moram na capital e fazem apenas visitas às comarcas. "Sabemos de juízes que vão às comarcas uma vez por mês", diz a desembargadora e corregedora-geral da Justiça no Pará, Maria Nazareth Brabo. Enquanto isso, pilhas de processos ficam empacadas.

As maiores vítimas da lentidão crônica não podem pagar por advogados e dependem de defensores públicos. O superintendente do Sistema Penitenciário do Pará, José Alyrio Sabbá, encomendou um levantamento com os presos provisórios do Estado. O resultado traduziu em números o que o senso comum já indicava. Cerca de 73% dos presos provisórios são analfabetos ou semi-analfabetos, 21% concluíram o 1º grau e apenas 6% têm 2º grau completo. Nenhum entrou na universidade e 97% são considerados pobres. É o caso do marceneiro Carlos Alberto Uchôa, 25 anos, que está preso há dois anos e cinco meses sob a acusação de ter estuprado uma mulher, mas ainda não foi julgado. Uchôa foi levado de casa por policiais que não tinham mandado de prisão. Também não se realizou exame laboratorial para comprovar o estupro. Ele clama inocência e diz que acusador e vítima são antigos desafetos. Não sabe sequer o nome do defensor público designado para o caso. Seu comportamento é considerado excelente pela direção do Presídio São José. "Esse é um caso típico em que um advogado apenas razoável conseguiria a liberdade", diz o criminalista paraense Jânio Siqueira. Um advogado menos do que razoável possivelmente obteria o mesmo resultado. Uchôa não tem nenhum.

Abaixo, uma penitenciária

Joel Rocha
Linha de produção na cadeia: detentos ocupados

 

A foto ao lado mostra uma fábrica diferente. Inaugurada na semana passada no parque industrial de Guarapuava, a 250 quilômetros de Curitiba, retrata a primeira penitenciária industrial do país. Ela difere em tudo dos presídios convencionais. Para começar, funciona num prédio moderno, pintado de amarelo, vermelho e azul, que pouco lembra uma prisão. Não tem muros, apenas cercas de arame farpado com sensores de toque. Os presos têm consultórios médico e odontológico bem equipados e camas de alvenaria em todas as celas. Um pavilhão especial para os dias de visita dispõe de berçário, fraldário e doze suítes para encontros íntimos. Mas a maior inovação mesmo é a linha de produção de móveis estofados que existe dentro da penitenciária. Embora esparso, o trabalho carcerário não é novidade. No Paraná, 70% dos detentos cumprem pena trabalhando. A diferença é que a Penitenciária Industrial de Guarapuava é a primeira projetada e construída como uma verdadeira fábrica. Os presos recebem treinamento e são responsáveis por toda a linha de produção. A administração está entregue a uma empresa privada. Apenas seis funcionários públicos trabalham ali.

Construída pelo Estado ao custo de 4,5 milhões de reais, a penitenciária industrial abriga atualmente 75 detentos, mas tem capacidade para 240. Uma equipe especial de psicólogos, advogados e assistentes sociais analisa os candidatos à transferência. O principal requisito é ter bom comportamento. A jornada é puxada. Oito horas de segunda a sábado por um salário líquido de 102 reais e um dia a menos na pena a cada três trabalhados. É, certamente, um bom negócio para a Azulbras, fabricante de móveis que entra com os salários e a matéria-prima. "Meu sonho é continuar nessa profissão quando sair daqui", diz Fábio Antunes, 22 anos, condenado por tráfico de drogas. Para um país onde o sistema carcerário é o inferno conhecido, uma notícia como essa dá o que pensar.

Rachel Verano, de Guarapuava