Edição 1 623 -10/11/1999

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Inquietos demais

Adultos impulsivos e desatentos podem ser
vítimas de um distúrbio típico de crianças

 

Selmy Yassuda
Renato Perilo, 36 anos:
"Já magoei muita gente
com meu temperamento"


Se você se distrai facilmente, tem dificuldade em se organizar, é impulsivo e muito inquieto, pode ser portador de um distúrbio psiquiátrico típico de crianças que poucos adultos imaginam ocorrer também entre eles. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade desaparecia na adolescência. Errado. Estudos recentes mostram que os sintomas podem persistir por toda a vida. E mais. Trata-se de um problema mais comum do que se pode crer. Estima-se que existam perto de 2 milhões de brasileiros adultos às voltas com o distúrbio. E o que é pior: a grande maioria nem imagina que seu comportamento arredio é conseqüência de uma doença.

Os principais sintomas desse transtorno muitas vezes são confundidos com outros distúrbios psicológicos ou até mesmo com o jeito de ser. "Por não ter alguma característica que a denuncie, a hiperatividade é uma doença dificílima de ser diagnosticada", explica o psiquiatra Paulo Mattos, que tem clínica no Rio de Janeiro e é um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. "Muita gente passa a vida inteira sem saber que tem o problema." Há dois anos, o carioca Renato Perilo, de 36 anos, descobriu que seu "gênio difícil" era fruto de tal transtorno. Perilo já passou por três casamentos. Todos afundaram em razão de seu temperamento explosivo. "Na hora da discussão, por mais boba que fosse, meu sangue subia", recorda-se. "Já cheguei até a bater numa namorada", conta ele. Hoje, assegura que aquele homem impulsivo e desatento que ele foi está sob controle. Três meses atrás trocou a profissão de publicitário por outra, bem mais calma. Agora é subgerente em uma firma de computação-- trabalho que lhe exige a concentração e a paciência que por mais de trinta anos nunca conheceu.

As causas do distúrbio ainda não foram totalmente esclarecidas. Sabe-se, contudo, que o problema reside na região frontal do cérebro, que regula atitudes como o autocontrole e a atenção. Alguns estudos mostram ainda a existência de participação genética. "A maioria dos pais que reclamam do comportamento dos filhos geralmente possuem os mesmos sintomas", afirma Luís Augusto Rohde, professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É o caso da médica Elizabeth N., de 47 anos, que se surpreendeu ao descobrir que seu filho, Carlos, hoje com 17 anos, herdara sua intransigência e seu comportamento impulsivo. "Agora entendo minha fama negativa em casa e no trabalho", diz. Para pais ou para filhos, o tratamento é um só: Ritalina, um remédio para crianças peraltas. Apesar de relativamente barato (menos de 10 reais), é produto escasso nas prateleiras brasileiras. O Ministério da Sáude autoriza a importação de apenas 30 quilos por ano da matéria-prima para sua fabricação. "Não dá nem para 1% das pessoas atingidas pela síndrome", diz Mônica Kayo, gerente médica da Novartis, único laboratório que fabrica o remédio no Brasil. Haja paciência.