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Inquietos demais
Adultos impulsivos e desatentos podem ser
vítimas de um distúrbio típico de crianças
Selmy Yassuda
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Renato Perilo, 36 anos:
"Já magoei muita gente
com meu temperamento" |
Se você se distrai facilmente, tem dificuldade em se organizar,
é impulsivo e muito inquieto, pode ser portador de um distúrbio
psiquiátrico típico de crianças que poucos adultos imaginam
ocorrer também entre eles. Até pouco tempo atrás, acreditava-se
que o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade
desaparecia na adolescência. Errado. Estudos recentes mostram
que os sintomas podem persistir por toda a vida. E mais. Trata-se
de um problema mais comum do que se pode crer. Estima-se que
existam perto de 2 milhões de brasileiros adultos às voltas
com o distúrbio. E o que é pior: a grande maioria nem imagina
que seu comportamento arredio é conseqüência de uma doença.
Os principais sintomas desse transtorno muitas vezes são
confundidos com outros distúrbios psicológicos ou até mesmo
com o jeito de ser. "Por não ter alguma característica
que a denuncie, a hiperatividade é uma doença dificílima de
ser diagnosticada", explica o psiquiatra Paulo Mattos,
que tem clínica no Rio de Janeiro e é um dos maiores especialistas
brasileiros no assunto. "Muita gente passa a vida inteira
sem saber que tem o problema." Há dois anos, o carioca
Renato Perilo, de 36 anos, descobriu que seu "gênio difícil"
era fruto de tal transtorno. Perilo já passou por três casamentos.
Todos afundaram em razão de seu temperamento explosivo. "Na
hora da discussão, por mais boba que fosse, meu sangue subia",
recorda-se. "Já cheguei até a bater numa namorada",
conta ele. Hoje, assegura que aquele homem impulsivo e desatento
que ele foi está sob controle. Três meses atrás trocou a profissão
de publicitário por outra, bem mais calma. Agora é subgerente
em uma firma de computação-- trabalho que lhe exige a concentração
e a paciência que por mais de trinta anos nunca conheceu.
As
causas do distúrbio ainda não foram totalmente esclarecidas.
Sabe-se, contudo, que o problema reside na região frontal
do cérebro, que regula atitudes como o autocontrole e a atenção.
Alguns estudos mostram ainda a existência de participação
genética. "A maioria dos pais que reclamam do comportamento
dos filhos geralmente possuem os mesmos sintomas", afirma
Luís Augusto Rohde, professor de psiquiatria da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. É o caso da médica Elizabeth
N., de 47 anos, que se surpreendeu ao descobrir que seu filho,
Carlos, hoje com 17 anos, herdara sua intransigência e seu
comportamento impulsivo. "Agora entendo minha fama negativa
em casa e no trabalho", diz. Para pais ou para filhos,
o tratamento é um só: Ritalina, um remédio para crianças peraltas.
Apesar de relativamente barato (menos de 10 reais), é produto
escasso nas prateleiras brasileiras. O Ministério da Sáude
autoriza a importação de apenas 30 quilos por ano da matéria-prima
para sua fabricação. "Não dá nem para 1% das pessoas
atingidas pela síndrome", diz Mônica Kayo, gerente médica
da Novartis, único laboratório que fabrica o remédio no Brasil.
Haja paciência.
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