Edição 1 623 -10/11/1999

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Aldeias gigantes

Pesquisas encontram na Amazônia
sinais de
cidades indígenas
com até 10 000 moradores

Claudio Rossi

Pesquisador Eduardo Neves,
com achados levados para a USP:
cerâmicas e ossadas


O frade espanhol Gaspar de Carvajal deixou Lima, no Peru, para se engajar na primeira expedição exploratória do Rio Amazonas, chefiada por Francisco de Orellana, em 1542. Voltou com um diário de viagem repleto de maravilhas. Nele, descreveu aldeias gigantescas, com milhares de habitantes e requintados objetos de cerâmica. Falou também sobre uma tribo de mulheres guerreiras, comparáveis às amazonas da mitologia grega. Isso teve duas conseqüências. Deu nome ao rio e relegou seu diário à categoria do desvario. Esse conceito está sendo revisto por pesquisadores da Universidade de São Paulo, USP, que descobriram indícios de enormes aldeias e excelente cerâmica nos arredores do Rio Negro, a cerca de 30 quilômetros de Manaus.

Até agora só foram escavados quatro dos 21 pontos localizados na região de Indaiatuba – e o que se encontrou está virando do avesso o que se pensava dos índios da Amazônia. O maior sítio, chamado Açutuba e que foi explorado em 1997, mostra sinais de uma aldeia de 3 quilômetros de extensão, espremida entre as margens do Rio Negro e a floresta. O arqueólogo Eduardo Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, responsável pela escavação, estima que tenham vivido ali de 5.000 a 10.000 índios. Quando os europeus chegaram, o lugar já era habitado havia mais de 1.000 anos. O cenário desenhado pelos arqueólogos impressiona. A aldeia era cercada por valetas com 300 metros de extensão e 3 de profundidade, onde eram colocadas estacas afiadas. Seria uma cidade de porte similar ao das do império inca, só que inteiramente feita de terra. Na extremidade do que era a povoação, junto da floresta, localizou-se uma praça retangular de 300 metros de comprimento cercada por aterros de 2 metros de altura. Acredita-se que ali ficasse o cemitério da aldeia, provavelmente reservado à nobreza, local de reuniões e até de sacrifícios.

Fotos: Antonio Milena


Relíquias de barro – Entre os 80 quilos de fragmentos
cerâmicos recolhidos pelos pesquisadores em um sítio
arqueológico perto de Manaus, havia algumas peças
quase intactas. Acima, um pedaço de vaso, um disco
de fiar e uma estatueta.

Encontrou-se ainda cerâmica ornamentada, semelhante à vista na Ilha de Marajó. "É impossível juntar tanta gente num único lugar, realizando obras como essas, sem que haja uma estrutura social hierarquizada", diz Neves. Há apenas dois meses, ele concluiu a escavação de outro sítio numa fazenda chamada Hata Hara. Descobriu ossadas sepultadas em urnas funerárias com cerca de 700 anos, um achado raríssimo, pequenas estátuas de cerâmica e os restos de uma roda de fiar. Essas descobertas estão mudando a forma como os especialistas descrevem a civilização que vivia na Amazônia antes do contato com os europeus. Até a primeira metade dos anos 90, acreditava-se que se tratasse de uma região culturalmente primitiva e marginal do continente americano. Que abrigasse um número pequeno de indígenas que viviam em condições semelhantes às dos que estão lá hoje. Isso começou a mudar em 1996, quando a arqueóloga americana Anna Roosevelt encontrou objetos de cerâmica datados de 8.000 anos no interior do Pará. A hipótese mais impressionante é a de que os povos amazônicos foram os primeiros a dominar essa tecnologia, 7.000 anos antes que os incas formassem seu império. Os achados da arqueóloga americana empurraram os pesquisadores de volta para os livros dos primeiros exploradores da região. A grande questão em aberto é como toda essa gente sumiu de uma hora para outra. É possível que tenham abandonado as cidades para fugir dos europeus ou morrido em epidemia. Mas isso são só palpites.