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Aldeias gigantes
Pesquisas encontram na Amazônia
sinais de cidades indígenas
com até 10 000 moradores
Claudio Rossi
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Pesquisador Eduardo Neves,
com achados levados para a USP:
cerâmicas e ossadas
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O frade espanhol Gaspar de Carvajal deixou Lima, no Peru,
para se engajar na primeira expedição exploratória do Rio
Amazonas, chefiada por Francisco de Orellana, em 1542. Voltou
com um diário de viagem repleto de maravilhas. Nele, descreveu
aldeias gigantescas, com milhares de habitantes e requintados
objetos de cerâmica. Falou também sobre uma tribo de mulheres
guerreiras, comparáveis às amazonas da mitologia grega. Isso
teve duas conseqüências. Deu nome ao rio e relegou seu diário
à categoria do desvario. Esse conceito está sendo revisto
por pesquisadores da Universidade de São Paulo, USP, que descobriram
indícios de enormes aldeias e excelente cerâmica nos arredores
do Rio Negro, a cerca de 30 quilômetros de Manaus.
Até agora só foram escavados quatro dos 21 pontos localizados
na região de Indaiatuba e o que se encontrou está virando
do avesso o que se pensava dos índios da Amazônia. O maior
sítio, chamado Açutuba e que foi explorado em 1997, mostra
sinais de uma aldeia de 3 quilômetros de extensão, espremida
entre as margens do Rio Negro e a floresta. O arqueólogo Eduardo
Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, responsável
pela escavação, estima que tenham vivido ali de 5.000
a 10.000 índios. Quando os europeus
chegaram, o lugar já era habitado havia mais de 1.000
anos. O cenário desenhado pelos arqueólogos impressiona. A
aldeia era cercada por valetas com 300 metros de extensão
e 3 de profundidade, onde eram colocadas estacas afiadas.
Seria uma cidade de porte similar ao das do império inca,
só que inteiramente feita de terra. Na extremidade do que
era a povoação, junto da floresta, localizou-se uma praça
retangular de 300 metros de comprimento cercada por aterros
de 2 metros de altura. Acredita-se que ali ficasse o cemitério
da aldeia, provavelmente reservado à nobreza, local de reuniões
e até de sacrifícios.
Encontrou-se ainda cerâmica ornamentada, semelhante à vista
na Ilha de Marajó. "É impossível juntar tanta gente num
único lugar, realizando obras como essas, sem que haja uma
estrutura social hierarquizada", diz Neves. Há apenas
dois meses, ele concluiu a escavação de outro sítio numa fazenda
chamada Hata Hara. Descobriu ossadas sepultadas em urnas funerárias
com cerca de 700 anos, um achado raríssimo, pequenas estátuas
de cerâmica e os restos de uma roda de fiar. Essas descobertas
estão mudando a forma como os especialistas descrevem a civilização
que vivia na Amazônia antes do contato com os europeus. Até
a primeira metade dos anos 90, acreditava-se que se tratasse
de uma região culturalmente primitiva e marginal do continente
americano. Que abrigasse um número pequeno de indígenas que
viviam em condições semelhantes às dos que estão lá hoje.
Isso começou a mudar em 1996, quando a arqueóloga americana
Anna Roosevelt encontrou objetos de cerâmica datados de 8.000
anos no interior do Pará. A hipótese mais impressionante é
a de que os povos amazônicos foram os primeiros a dominar
essa tecnologia, 7.000 anos antes
que os incas formassem seu império. Os achados da arqueóloga
americana empurraram os pesquisadores de volta para os livros
dos primeiros exploradores da região. A grande questão em
aberto é como toda essa gente sumiu de uma hora para outra.
É possível que tenham abandonado as cidades para fugir dos
europeus ou morrido em epidemia. Mas isso são só palpites.
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