Edição 1 623 -10/11/1999

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"Eu sou cobaia''

Em busca de cura, milhares de brasileiros
são voluntários em pesquisas médicas

Sandra Boccia

 

Edison Vara

Vítima de um devastador câncer de colo uterino, a gaúcha Joanna Carmelina dos Santos Ximenes, 51 anos, está além de qualquer possibilidade de cura. Há cinco meses foi convidada para integrar o teste de uma droga nova, a decitabina, parte de um coquetel para aplacar os efeitos da doença. "Eu pensei: é tudo ou nada", diz ela


A curitibana Margarete Hackenberg é uma cobaia. Há duas semanas, tomou a última dose de uma vacina experimental feita com as células do próprio câncer. Fez isso sem saber se o remédio pode ou não salvar-lhe a vida. Aos 66 anos, Margarete é uma mulher condenada por uma doença que avançou além das possibilidades da medicina. Ela já passou por várias cirurgias para debelar o melanoma detectado há dez anos. Na primeira fase, submeteu-se a um devastador tratamento quimioterápico, perdeu 16 quilos – e, por um momento, pensou ter derrotado o mal. O câncer voltou há três anos, ainda mais avassalador. O médico disse a ela que o tumor tinha grau de malignidade quatro. Margarete perguntou: "Quatro em quantos?" A resposta definitiva: "Quatro em quatro". "Foi nesse momento que percebi que a melhor coisa a fazer pela minha vida era entregar meu corpo para uma pesquisa", diz a senhora de cabelos grisalhos e tranqüilos olhos azuis. A vacina, desenvolvida pela oncologista Débora Castanheira, do Hospital do Câncer, em São Paulo, é a derradeira tábua de salvação para Margarete e outros 24 pacientes. "Eles sabem que estão numa fase da doença em que nada pode ser oferecido para lhes dar melhor sobrevida", diz a médica.

Como Margarete, alguns milhares de brasileiros estão vivendo a experiência de se submeter a drogas em fase de testes e com efeitos colaterais ignorados. Nenhum deles recebe um tostão por isso – mesmo porque pagar por cobaias humanas é contra a lei no Brasil. Da concepção em laboratório às prateleiras das farmácias, um remédio percorre um caminho que dura em média cinco anos. É na última fase, posterior aos testes em animais, que entra a experimentação em seres humanos. A primeira etapa tenta determinar a toxicidade e a dosagem máxima do medicamento. Em outra fase, testa-se a dosagem ideal e a eficácia. A terceira compara o medicamento tradicional com o experimental ou com outro até mesmo inócuo. Atualmente, há dezoito estudos clínicos em andamento no Hospital do Câncer de São Paulo envolvendo novas drogas e combinações inovadoras de remédios já existentes. Só neste ano foram aprovados setenta testes – quase o dobro de 1997. Nem sempre o voluntário pode ter a esperança de se beneficiar com a experiência. "Parentes de pessoas que morreram ligam alguns anos depois para saber se o remédio ajudou alguém", comenta Agnaldo Anelle, chefe do departamento de oncologia do hospital.

Claudio Rossi

Durante uma década, o desenhista industrial paulista Marco Antonio Mendo, 43 anos, conviveu com o HIV sem a ajuda de remédios. Em março, mudou de idéia e agora testa uma nova droga, o abacavir. "Acho que terei mais uns dez anos pela frente"

São os casos de sucesso que mantêm vivas as pesquisas. Dona do maior programa de estudos com novas drogas na América Latina, a Fundação Central Sul-Americana para o Desenvolvimento de Novas Drogas Anticâncer, Fundação Soad, criada em 1993 e sediada na Universidade Luterana do Brasil, Ulbra, no Rio Grande do Sul, já efetuou testes com mais de 700 pacientes. Um dos estudos, realizado em parceria com o Instituto Nacional do Câncer, dos Estados Unidos, resultou no lançamento do taxol, remédio que hoje é parte do tratamento de rotina em mulheres com câncer de mama. O uso intensivo de cobaias humanas é quase novidade no Brasil. Só em meados desta década os cientistas brasileiros entraram no circuito dos chamados estudos multicêntricos, pesquisas feitas simultaneamente em vários países. Em 1996, foi criado o Conselho Nacional de Ética e Pesquisa, Conep, que reúne governo e entidades médicas. É dele o código que estabelece as regras éticas do experimento e obriga pesquisado e pesquisador a assinar um contrato descrevendo tintim por tintim o que vem a ser o estudo: seus propósitos, riscos e benefícios possíveis e direitos e deveres de cada um. O voluntário é livre para abandoná-lo quando quiser.

Cobaias assalariadas são comuns em alguns países.
No Brasil, por lei, ninguém pode receber um tostão

Quem topa a parada assume obrigações severas: tomar o remédio religiosamente, comparecer às consultas, registrar com minúcias quaisquer sintomas num diário e contar tudo ao pesquisador. A maioria dos estudos obedece a uma série de pré-requisitos, como faixa etária e condições mínimas de saúde. Raras experiências envolvem doentes terminais. Eles estão debilitados demais. Experimentos com seres humanos são realizados em praticamente todas as áreas da medicina. Há pesquisas com hepatite C, alergias, bronquite, asma, depressão, miopia, hipermetropia. A favor, está o fato de que sem elas não se teria encontrado a cura da maioria das doenças. Contra, estão as péssimas lembranças das experiências feitas pelos médicos nazistas em prisioneiros nos campos de concentração durante a II Guerra Mundial e outros notórios abusos em tempos mais recentes.

Ricardo Benichio
Todos o dias, o empresário João Eduardo Martins Cunha, 44 anos, engole um comprimido de um frasco sem rótulo. Acredita que seja azimilide, droga para prevenir a arritmia em enfartados, como ele. Pode ser apenas placebo. "No mínimo, eu ajudo outros doentes que querem viver"

Por isso as pesquisas modernas são cercadas de cuidados éticos. A palavra "cobaia", por exemplo, jamais é pronunciada. "Os pacientes participam de forma voluntária e consciente. No caso das cobaias, os animais são sacrificados no fim dos experimentos e nem a emoção nem a razão estão envolvidas", teoriza Paulo Pizão, chefe do serviço de oncologia do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. Emoção é o que não falta quando um ser humano serve de cobaia. Ninguém gosta da idéia de ser tratado como um ratinho preso numa gaiola. "Isso não é a mesma coisa que bancar o rato", diz o aposentado Antonio Caro Cipriano, vítima de câncer e voluntário num estudo sobre a doença. "Eu sou um ser humano." Margarete Hackenberg, aquela senhora que se entregou de corpo e alma ao experimento, respondeu com firmeza à amiga que lhe perguntou se ela iria ser uma cobaia nas mãos dos médicos: "Graças a Deus, eu posso ser cobaia".