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São todos gêmeos
Povoado gaúcho tem 18% da população
formada por gêmeos e vira tema de estudo
Rodrigo Vieira da Cunha,
de Linha São Pedro
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Até algum tempo atrás, as características
mais comentadas do município de Cândido Godói,
no Rio Grande do Sul, eram a ascendência alemã de sua
população e a proximidade de Santa Rosa, cidade onde
nasceram a apresentadora de TV Xuxa Meneghel e o goleiro Taffarel.
De uns tempos para cá, comenta-se cada vez mais o que acontece
com os moradores do pequeno povoado de Linha São Pedro, na
zona rural do município. É que lá aparecem
filhos gêmeos com uma facilidade espantosa. Na primeira conta
feita para avaliar o fenômeno, chegou-se a este resultado:
da população de 375 moradores do povoado, 68 são
gêmeos, 18% do total. Levando-se em conta que a incidência
normal de gêmeos em Porto Alegre, São Paulo ou Tóquio
é de 1,25%, chega-se à conclusão de que em
Linha São Pedro nascem, proporcionalmente, catorze vezes
mais gêmeos que no resto do mundo. Computados apenas os partos
realizados de 1986 para cá, a ocorrência fica ainda
maior. Dos últimos setenta bebês nascidos no vilarejo,
24 são gêmeos. No resto do município, a quantidade
também é superior à normal. Um levantamento
extra-oficial registra mais de 100 casos, 3% da população.
Nada que se compare a Linha São Pedro, no entanto. Qualquer
um que visite o povoado reconhece facilmente o fenômeno. Seja
entre os fiéis sentados para a missa de domingo na pequena
paróquia, seja em meio aos senhores na quadra de bocha, seja
entre a meninada no campo de futebol da escola, é comum deparar
com pares e mais pares de gêmeos. Alguns com roupa rigorosamente
igual.
A descoberta do fenômeno atraiu o interesse de cientistas
e agitou a habitualmente pacata vida de interior do vilarejo. Até
a prefeitura de Cândido Godói entrou na festa e já
planeja transformar gêmeo em atração turística.
Há duas semanas, organizou a Primeira Festa Municipal dos
Gêmeos. Mais de cinqüenta pares com roupas iguais compareceram
ao churrasco e à missa celebrada por dois padres idênticos.
O ponto culminante foi a apresentação de duplas num
pequeno palco montado na praça central, onde só subia
quem tivesse seu irmão gêmeo. "No ano que vem vamos
tornar a comemoração um evento estadual", promete
o prefeito, João Adolar Bervian. "Nossa meta é no
futuro organizar uma festa nacional para que a cidade fique conhecida
em todo o Brasil."
Roque Inacio Braun
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| Algumas autoridades na festa com cinqüenta pares de
gêmeos de Cândido Godói |
A importância dessa característica, contudo, vai
muito além da eventual projeção que o município
venha a alcançar. Comunidades pequenas, com muitos casamentos
entre os próprios membros (caso de Linha São Pedro),
são um prato cheio para a biologia. As uniões consangüíneas
mantêm o repertório genético de cada membro
da comunidade parecido com o dos outros. Como há pouca diversidade,
fica mais fácil localizar os genes responsáveis por
características comuns a várias pessoas. Basta procurar
diferenças entre o DNA desses indivíduos e o dos outros
moradores. Nos últimos dois anos, cientistas do Serviço
de Genética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
se esforçaram para encontrar em Linha São Pedro o
gene responsável pela incidência de gêmeos. Na
primeira tentativa, retiraram amostras de sangue de 55 moradores.
O DNA presente nas células sangüíneas dos gêmeos
foi comparado ao de outros moradores. Pretendiam descobrir um gene
presente apenas em quem tivesse irmão gêmeo. Parte
da pesquisa foi feita na Universidade de Nantes, na França,
mas o esforço foi em vão. Não foi encontrado
o gene comum. O estudo agora está entrando numa nova etapa.
O sangue de cada gêmeo será confrontado com o de indivíduos
de sua família que não tenham irmãos gêmeos.
"É um esforço brutal, mas acreditamos que vamos localizar
a chave genética", diz Roberto Giugliani, um dos coordenadores
do trabalho.
EDISON VARA
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| Crianças no quintal da escola de Linha São
Pedro: gêmeos espalhados por quase todas as turmas |
Enquanto os cientistas não encontram a explicação
definitiva, a população convive bem-humorada com o
fenômeno. Em Linha São Pedro, é comum deparar
com casos como o de Maria Petronila Grimm. A simpática senhora
de 80 anos, que prefere falar alemão a português, tem
oito netos gêmeos. Para ela, que caminha 12 quilômetros
até o centro da cidade quando vai fazer compras, netos em
duplicata significaram peso em dobro para carregar. Hoje, lembra-se
do sacrifício sorrindo e diz que a receita do bolo nas festas
de família sempre foi duplicada. Sem explicação
científica, o grande número de casos de gêmeos
já rendeu histórias curiosas ao folclore da região.
Segundo alguns moradores, a incidência seria causada por
um mineral nas águas do Riacho Lajeado Dúvida, que
corta os 16 quilômetros quadrados de Linha São Pedro.
Outros falam em luzes intensas e bolas de fogo, atribuídas
a extraterrestres. Mas o troféu abobrinha vai para a tese
de que tudo teria começado a partir de experimentos genéticos
realizados pelo médico nazista Josef Mengele em sua passagem
pela cidade na década de 60. "Não sou besta nem idiota
para acreditar que essas sejam as causas do grande número
de gêmeos", encerra a questão o professor de filosofia
Paulo Sauthier, morador de Linha São Pedro, com um irmão
e seis primos gêmeos na família.
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