Edição 1 623 -10/11/1999

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São todos gêmeos

Povoado gaúcho tem 18% da população
formada por gêmeos e vira tema de estudo

Rodrigo Vieira da Cunha,
de Linha São Pedro

Até algum tempo atrás, as características mais comentadas do município de Cândido Godói, no Rio Grande do Sul, eram a ascendência alemã de sua população e a proximidade de Santa Rosa, cidade onde nasceram a apresentadora de TV Xuxa Meneghel e o goleiro Taffarel. De uns tempos para cá, comenta-se cada vez mais o que acontece com os moradores do pequeno povoado de Linha São Pedro, na zona rural do município. É que lá aparecem filhos gêmeos com uma facilidade espantosa. Na primeira conta feita para avaliar o fenômeno, chegou-se a este resultado: da população de 375 moradores do povoado, 68 são gêmeos, 18% do total. Levando-se em conta que a incidência normal de gêmeos em Porto Alegre, São Paulo ou Tóquio é de 1,25%, chega-se à conclusão de que em Linha São Pedro nascem, proporcionalmente, catorze vezes mais gêmeos que no resto do mundo. Computados apenas os partos realizados de 1986 para cá, a ocorrência fica ainda maior. Dos últimos setenta bebês nascidos no vilarejo, 24 são gêmeos. No resto do município, a quantidade também é superior à normal. Um levantamento extra-oficial registra mais de 100 casos, 3% da população. Nada que se compare a Linha São Pedro, no entanto. Qualquer um que visite o povoado reconhece facilmente o fenômeno. Seja entre os fiéis sentados para a missa de domingo na pequena paróquia, seja em meio aos senhores na quadra de bocha, seja entre a meninada no campo de futebol da escola, é comum deparar com pares e mais pares de gêmeos. Alguns com roupa rigorosamente igual.

A descoberta do fenômeno atraiu o interesse de cientistas e agitou a habitualmente pacata vida de interior do vilarejo. Até a prefeitura de Cândido Godói entrou na festa e já planeja transformar gêmeo em atração turística. Há duas semanas, organizou a Primeira Festa Municipal dos Gêmeos. Mais de cinqüenta pares com roupas iguais compareceram ao churrasco e à missa celebrada por dois padres idênticos. O ponto culminante foi a apresentação de duplas num pequeno palco montado na praça central, onde só subia quem tivesse seu irmão gêmeo. "No ano que vem vamos tornar a comemoração um evento estadual", promete o prefeito, João Adolar Bervian. "Nossa meta é no futuro organizar uma festa nacional para que a cidade fique conhecida em todo o Brasil."

 
Roque Inacio Braun
Algumas autoridades na festa com cinqüenta pares de gêmeos de Cândido Godói

A importância dessa característica, contudo, vai muito além da eventual projeção que o município venha a alcançar. Comunidades pequenas, com muitos casamentos entre os próprios membros (caso de Linha São Pedro), são um prato cheio para a biologia. As uniões consangüíneas mantêm o repertório genético de cada membro da comunidade parecido com o dos outros. Como há pouca diversidade, fica mais fácil localizar os genes responsáveis por características comuns a várias pessoas. Basta procurar diferenças entre o DNA desses indivíduos e o dos outros moradores. Nos últimos dois anos, cientistas do Serviço de Genética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre se esforçaram para encontrar em Linha São Pedro o gene responsável pela incidência de gêmeos. Na primeira tentativa, retiraram amostras de sangue de 55 moradores. O DNA presente nas células sangüíneas dos gêmeos foi comparado ao de outros moradores. Pretendiam descobrir um gene presente apenas em quem tivesse irmão gêmeo. Parte da pesquisa foi feita na Universidade de Nantes, na França, mas o esforço foi em vão. Não foi encontrado o gene comum. O estudo agora está entrando numa nova etapa. O sangue de cada gêmeo será confrontado com o de indivíduos de sua família que não tenham irmãos gêmeos. "É um esforço brutal, mas acreditamos que vamos localizar a chave genética", diz Roberto Giugliani, um dos coordenadores do trabalho.
EDISON VARA
Crianças no quintal da escola de Linha São Pedro: gêmeos espalhados por quase todas as turmas


Enquanto os cientistas não encontram a explicação definitiva, a população convive bem-humorada com o fenômeno. Em Linha São Pedro, é comum deparar com casos como o de Maria Petronila Grimm. A simpática senhora de 80 anos, que prefere falar alemão a português, tem oito netos gêmeos. Para ela, que caminha 12 quilômetros até o centro da cidade quando vai fazer compras, netos em duplicata significaram peso em dobro para carregar. Hoje, lembra-se do sacrifício sorrindo e diz que a receita do bolo nas festas de família sempre foi duplicada. Sem explicação científica, o grande número de casos de gêmeos já rendeu histórias curiosas ao folclore da região.

Segundo alguns moradores, a incidência seria causada por um mineral nas águas do Riacho Lajeado Dúvida, que corta os 16 quilômetros quadrados de Linha São Pedro. Outros falam em luzes intensas e bolas de fogo, atribuídas a extraterrestres. Mas o troféu abobrinha vai para a tese de que tudo teria começado a partir de experimentos genéticos realizados pelo médico nazista Josef Mengele em sua passagem pela cidade na década de 60. "Não sou besta nem idiota para acreditar que essas sejam as causas do grande número de gêmeos", encerra a questão o professor de filosofia Paulo Sauthier, morador de Linha São Pedro, com um irmão e seis primos gêmeos na família.