Edição 1 623 -10/11/1999

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Irmãos em Cristo

A assinatura de um acordo histórico diminui
a distância entre católicos e luteranos

 

Lutero: excomungado

Quase cinco séculos depois do cisma que deu origem ao protestantismo, católicos e luteranos selaram um acordo histórico. O cardeal australiano Edward Cassidy, representante do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade Cristã, e o bispo alemão Christian Krause, presidente da Federação Luterana Mundial, firmaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. O documento de vinte páginas trata de um aspecto teológico aparentemente insignificante. Seu texto final diz que "só pela graça e pela fé na ação salvadora de Cristo, e não com base em nossos méritos, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que renova nossos corações e nos habilita e conclama a realizar as obras de bem". A fórmula é um meio-termo entre duas posições que pareciam irreconciliáveis. Até então, os católicos acreditavam que, para uma pessoa alcançar o paraíso, as boas ações eram tão importantes quanto a solidez de sua crença. Os luteranos, por sua vez, batiam-se pela noção de que bastava ter uma fé robusta para evitar a queda no inferno. A sutileza ganha relevância quando se tem em mente que a causa do cisma foi justamente o fato de o monge alemão Martinho Lutero ter-se rebelado em 1517 contra a ênfase da Igreja nas "boas obras", argumento doutrinal que justificava o comércio de indulgências. Na época, quem quisesse ter seus pecados atenuados perante os olhos do papa era instado a pagar por isso – e caro. Foi graças à venda de indulgências, por exemplo, que a portentosa Basílica de São Pedro pôde ser erguida.

Excomungado por Leão X em 1521, Lutero lançaria nove anos mais tarde as bases da Reforma Protestante, na cidade alemã de Augsburg. A mesma onde o cardeal Cassidy e o bispo Krause assinaram o acordo. Além de reafirmar que a fé era o único caminho para a salvação, ele elaborou uma teologia exclusivamente centrada nas Sagradas Escrituras. Com isso, fez tábula rasa da autoridade papal e de toda a tradição da Igreja Católica, fato de implicações importantíssimas: ao aderir ao protestantismo e libertar-se do poder espiritual e temporal do pontífice romano, a burguesia mercantil da Europa do Norte gestaria o capitalismo. Entre outras coisas, Lutero reduziu os sacramentos de sete para dois (batismo e eucaristia), descartou o princípio da transubstanciação (aquele momento da missa em que o padre "converte" pão e vinho no corpo e no sangue de Jesus) e abjurou o dogma da Virgem Maria. Como tais pontos ficaram de fora do documento firmado na semana passada, a reunificação das duas vertentes cristãs continua a ser o que sempre foi – um sonho distante para os católicos e um pesadelo longínquo para os protestantes.

Leão X: causou o cisma com a venda
de indulgências

A declaração conjunta é fruto de uma necessidade imediata de ambos os lados e de uma lenta transformação no interior da Igreja. A necessidade imediata: concentrar forças para barrar o crescimento das religiões neopentecostais, que vêm arregimentando almas entre luteranos e católicos. Essa aproximação teria sido impossível, no entanto, não houvesse mudado a atitude da cúpula católica com respeito ao ecumenismo, um conceito surgido no século XIX. Até o papa João XXIII, que reinou entre 1958 e 1963, esta era uma palavra proibida no Vaticano. A concepção que vigorava era a do unionismo. Anglicanos, luteranos e ortodoxos deveriam simplesmente renunciar a sua autonomia e voltar ao seio da Santa Madre, mais ou menos como na parábola do filho pródigo. Eram vistos como dissidentes. "Eles devem retornar à verdadeira Igreja de Cristo, da qual infelizmente se distanciaram", afirmou com todas as letras Pio XI, em uma encíclica de 1928. João XXIII revogou essa visão ao propor o ecumenismo como uma das bandeiras do Concílio Vaticano II, a assembléia de cardeais, bispos e teólogos que modernizaria a doutrina e a prática da Igreja. Ele foi o primeiro pontífice a fazer um gesto de boa vontade em direção a outra igreja cristã. Em 1960, recebeu a visita do primaz anglicano, acontecimento que levou muito prelado a achar que o papa estava ficando maluco.

A lição de João XXIII foi seguida à risca por Paulo VI, que entrou em acordo com os ortodoxos gregos, e por João Paulo II. O documento de Augsburg, aliás, já é considerado um marco do atual pontificado, embora sua gestação date dos anos 60, quando foi instituída a Comissão Mista Internacional Católico-Luterana. O esforço ecumênico do papa polonês tem sido notável, em especial nos últimos anos. Ele deseja que a Igreja Católica adentre o novo milênio reconciliada não só com os diversos ramos do cristianismo, mas também com o judaísmo e o islamismo, religiões que até pouco tempo atrás eram tratadas como inimigas. Embora a ação ecumênica seja encarada como um movimento "irreversível", para usar o adjetivo do próprio João Paulo II, ela ainda é uma área de tensão. E dificilmente deixará de sê-lo. Isso porque a Igreja não abre mão de seu primado. Por ter sido fundada pelos apóstolos Pedro e Paulo, a instituição vê-se como a única representante legítima de Cristo. Daí o adjetivo "apostólica", que se segue ao "católica". Ao definir-se também como "romana", a Igreja diz ao mundo que não existe outra autoridade cristã que se equipare ao pontífice encastelado em Roma. Ou seja, o ecumenismo, para a cúpula católica, não passa de uma relação estratégica entre partes que nunca serão iguais.