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Além das 5 estrelas
Design arrojado faz o sucesso
de Ian Schrager, o criador
do hotel butique
Angela Pimenta, de Nova York
Se ao fazer as malas para sua próxima viagem, em vez
de simplesmente ficar num hotel de luxo, o turista abonado
tiver em mente algo tão ambicioso quanto uma "experiência
existencial", a melhor pedida é se hospedar em um dos
estabelecimentos de Ian Schrager. Ex-sócio da antológica
discoteca nova-iorquina Studio 54 nos anos 70 e hoje dono
de um punhado de hotéis chiquérrimos nos Estados
Unidos e em Londres, Schrager está mudando o conceito
de hospedagem. Ele oferece prazer, conforto, badalação,
projetos arrojadíssimos e, sobretudo, "atitude", a
palavra usada pelos americanos para sintetizar tudo o que
é moderno, antenado. Graças à combinação
de um visual mirabolante assinado pelo francês Philippe
Starck o designer mais celebrado do planeta , serviço
diferenciado e marketing eficientíssimo, Schrager pilota
a vanguarda do ramo hoteleiro. E faz ótimos negócios,
claro. Em Manhattan, enquanto a taxa média de ocupação
dos hotéis está na casa dos 65%, os de Schrager
o Royalton, o Paramount e o Morgans mantêm um
índice de 90% ao ano. Para 1999, o lucro estimado de
seus empreendimentos é de 120 milhões de dólares.
Uma das grandes atrações é o restaurante
Asia de Cuba, que funciona no Morgans e atrai uma legião
de homens de negócio e celebridades do quilate de Demi
Moore e Robert De Niro. Eles vão lá experimentar
novidades como a "mesa comunal", um mesão de 15 metros
de comprimento muito semelhante aos antigos refeitórios
de escola, onde se acotovelam para degustar pato laqueado
ao molho de café e outros exotismos.
A grande sacada de Schrager foi perceber que existia toda
uma nova categoria de clientes, não necessariamente
milionários (a diária no quarto mais modesto
do Delano de Miami começa em 195 dólares, na
baixa estação), mas com um estilo de vida contemporâneo.
Gente que não acha que sinônimo de bom hotel
sejam quilômetros de cortinas embabadadas, colchas estampadas,
sofás bojudos, mármores reluzentes e outros
excessos fora de moda. Se a freguesia queria novidade, foi
o que Schrager lhe deu. E como. Atualmente, ele está
construindo ou reformando nada menos que outros nove hotéis:
cinco em Nova York (incluindo o St. Moritz velho de guerra,
conhecido de muitos brasileiros), os demais em San Francisco,
Los Angeles, Miami e Londres. Lá, seu primeiro empreendimento,
o St. Martins Lane, mais uma parceria de Schrager com Philippe
Starck, vive lotado desde que foi inaugurado, no último
mês de setembro. "É o mais pessoal dos meus hotéis.
Tem muito mais a ver com os sentimentos que evoca do que propriamente
com a arquitetura", diz Schrager, usando linguagem apropriada
para o dono de uma cadeia de hotéis que tem até
diretor de arte (um deles é Fabien Baron, estrela do
mundo da moda).
Anões de jardim As palavras são
empoladas, mas Schrager tem razão de se orgulhar. O
St. Martins é um espanto. Estrategicamente situado
em Covent Garden, nem letreiro na entrada tem: a imensa porta
giratória de vidro amarelo a maior da cidade
basta para marcar posição. Juntos, o
americano e o francês deram um banho de luz e cor na
cinzenta capital britânica. O lobby, com paredes amarelas
e piso de granito português, é de tirar o fôlego.
Colunas iluminadas por dentro em tons feéricos, espelhos
e móveis contemporâneos espertamente misturados
a peças de época dão o tom. Mas o destaque
mesmo são os dois modelos de bancos desenhados especialmente
por Starck: um de metal, na forma de um dente molar, e outro
imitando o formato de um anão de jardim. Entre as seis
opções de restaurantes e cafeterias, o mais
sofisticado é o que serve comida japonesa, com sushis
de primeira e um décor impecável, vagamente
inspirado nos mercados de peixe de Kioto. O toque futurista
de Starck comparece em balcões de mármore trazidos
da Iugoslávia, blocos de gelo e uma parede-cachoeira,
de onde jorra água borbulhante. Como chega uma hora
em que o hóspede deslumbrado precisa desgrudar os olhos
disso tudo e descansar, as surpresas continuam. Na cabeceira
da cama de cada um dos 204 apartamentos, além da tradicional
parafernália de TV, música e telefone, há
um controle com várias opções de iluminação
ambiente: de um pálido azul-esverdeado matinal
a cor do fog londrino passando pelo amarelo-ácido,
o púrpura e o vermelho-sangue. À noite, o prédio
de sete andares, todo iluminado, parece um cubo multicolorido.
Menino pobre do bairro do Brooklyn, Schrager iniciou-se
no mundo da badalação pelo caminho pouco glamouroso
das carnes gordurosas Steve Rubell, amigo de infância,
convidou-o a gerenciar uma cadeia de churrascarias de bairro.
Daí, os dois partiram para o Studio 54, que foi templo
do agito na década de 70. Sexo, drogas e figurinhas
carimbadas como a atriz Bianca Jagger e o pintor Andy Warhol
fizeram a fama do lugar. Encerrada essa era, que incluiu várias
passagens dos donos pela polícia, os dois sócios
partiram para o ramo da hotelaria. O primeiro empreendimento
foi a recuperação do Morgans em Nova York. Nascia
ali o setor hoje denominado de hotel butique, que aliava o
projeto minimalista da designer francesa Andrée Putman
o banheiro em preto-e-branco, com pia de aço, é
um clássico ao atendimento diferenciado. Foi o trampolim
para Schrager se lançar em carreira-solo, rompendo
a sociedade com Rubell. Com projeto de Philippe Starck, ele
fez em seguida dois de seus maiores sucessos nova-iorquinos,
o Paramount e o luxuoso Royalton. Situado na Rua 46, a um
pulo da Broadway e do Rockefeller Center, o Paramount foi
o primeiro hotel a oferecer novidades como uma videoteca de
1.500 títulos para os hóspedes.
Perto dali, na Rua 44, com corredores que fazem curvas e apartamentos
concebidos como se fossem cabines de navio, o Royalton também
logo caiu no gosto das celebridades, atraindo hóspedes
como David Lynch, John Malkovich, gente da imprensa e das
passarelas da moda a ponto de ser comparado ao mitológico
Algonquin em sua fase áurea, nos anos 20 e 30.
Veneza americana Schrager não relaxa
no controle de qualidade. Sabe que o olho do dono é
imprescindível para garantir o padrão
e detectar as novidades tão ansiadas por seu público.
Em Miami Beach, o Delano, um tradicional hotel no passado,
é hoje um resort que prima pela elegância da
fachada art déco, a piscina cristalina e as diáfanas
tendas na areia, numa espécie de versão americanizada,
e modernizada, da praia de Morte em Veneza. Quem quiser
pode malhar nas tendas, mas o bacana mesmo é fazer
massagem ou meditação. Os quartos são
um primor de simplicidade chique, em que só entram
o branco e a luz do sol. Em Los Angeles, na célebre
Sunset Boulevard, o hotel Mondrian, com seus ambientes onde
Philippe Starck atinge o nível de futurismo despojado
que o desenho animado da família Jetsons nunca conseguiu,
vive cheio de estrelas de Hollywood, que se espremem na filial
do Asia de Cuba.
A próxima tacada de Schrager será investir
num nicho que ele chama de "spa urbano", que oferecerá
acomodações moderníssimas para viajantes
loucos por academias de ginástica, tratamentos de beleza,
comidas leves e, é claro, o visual único. O
primeiro exemplar dessa nova linhagem de hotéis é
o Sanderson, que deve abrir em Londres no começo do
ano que vem. Vem mais deslumbramento por aí.
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