Edição 1 623 -10/11/1999

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Além das 5 estrelas

Design arrojado faz o sucesso
de Ian Schrager, o criador
do hotel butique

Angela Pimenta, de Nova York

Se ao fazer as malas para sua próxima viagem, em vez de simplesmente ficar num hotel de luxo, o turista abonado tiver em mente algo tão ambicioso quanto uma "experiência existencial", a melhor pedida é se hospedar em um dos estabelecimentos de Ian Schrager. Ex-sócio da antológica discoteca nova-iorquina Studio 54 nos anos 70 e hoje dono de um punhado de hotéis chiquérrimos nos Estados Unidos e em Londres, Schrager está mudando o conceito de hospedagem. Ele oferece prazer, conforto, badalação, projetos arrojadíssimos e, sobretudo, "atitude", a palavra usada pelos americanos para sintetizar tudo o que é moderno, antenado. Graças à combinação de um visual mirabolante assinado pelo francês Philippe Starck – o designer mais celebrado do planeta – , serviço diferenciado e marketing eficientíssimo, Schrager pilota a vanguarda do ramo hoteleiro. E faz ótimos negócios, claro. Em Manhattan, enquanto a taxa média de ocupação dos hotéis está na casa dos 65%, os de Schrager – o Royalton, o Paramount e o Morgans – mantêm um índice de 90% ao ano. Para 1999, o lucro estimado de seus empreendimentos é de 120 milhões de dólares. Uma das grandes atrações é o restaurante Asia de Cuba, que funciona no Morgans e atrai uma legião de homens de negócio e celebridades do quilate de Demi Moore e Robert De Niro. Eles vão lá experimentar novidades como a "mesa comunal", um mesão de 15 metros de comprimento muito semelhante aos antigos refeitórios de escola, onde se acotovelam para degustar pato laqueado ao molho de café e outros exotismos.

A grande sacada de Schrager foi perceber que existia toda uma nova categoria de clientes, não necessariamente milionários (a diária no quarto mais modesto do Delano de Miami começa em 195 dólares, na baixa estação), mas com um estilo de vida contemporâneo. Gente que não acha que sinônimo de bom hotel sejam quilômetros de cortinas embabadadas, colchas estampadas, sofás bojudos, mármores reluzentes e outros excessos fora de moda. Se a freguesia queria novidade, foi o que Schrager lhe deu. E como. Atualmente, ele está construindo ou reformando nada menos que outros nove hotéis: cinco em Nova York (incluindo o St. Moritz velho de guerra, conhecido de muitos brasileiros), os demais em San Francisco, Los Angeles, Miami e Londres. Lá, seu primeiro empreendimento, o St. Martins Lane, mais uma parceria de Schrager com Philippe Starck, vive lotado desde que foi inaugurado, no último mês de setembro. "É o mais pessoal dos meus hotéis. Tem muito mais a ver com os sentimentos que evoca do que propriamente com a arquitetura", diz Schrager, usando linguagem apropriada para o dono de uma cadeia de hotéis que tem até diretor de arte (um deles é Fabien Baron, estrela do mundo da moda).

Anões de jardim – As palavras são empoladas, mas Schrager tem razão de se orgulhar. O St. Martins é um espanto. Estrategicamente situado em Covent Garden, nem letreiro na entrada tem: a imensa porta giratória de vidro amarelo – a maior da cidade – basta para marcar posição. Juntos, o americano e o francês deram um banho de luz e cor na cinzenta capital britânica. O lobby, com paredes amarelas e piso de granito português, é de tirar o fôlego. Colunas iluminadas por dentro em tons feéricos, espelhos e móveis contemporâneos espertamente misturados a peças de época dão o tom. Mas o destaque mesmo são os dois modelos de bancos desenhados especialmente por Starck: um de metal, na forma de um dente molar, e outro imitando o formato de um anão de jardim. Entre as seis opções de restaurantes e cafeterias, o mais sofisticado é o que serve comida japonesa, com sushis de primeira e um décor impecável, vagamente inspirado nos mercados de peixe de Kioto. O toque futurista de Starck comparece em balcões de mármore trazidos da Iugoslávia, blocos de gelo e uma parede-cachoeira, de onde jorra água borbulhante. Como chega uma hora em que o hóspede deslumbrado precisa desgrudar os olhos disso tudo e descansar, as surpresas continuam. Na cabeceira da cama de cada um dos 204 apartamentos, além da tradicional parafernália de TV, música e telefone, há um controle com várias opções de iluminação ambiente: de um pálido azul-esverdeado matinal – a cor do fog londrino – passando pelo amarelo-ácido, o púrpura e o vermelho-sangue. À noite, o prédio de sete andares, todo iluminado, parece um cubo multicolorido.

Menino pobre do bairro do Brooklyn, Schrager iniciou-se no mundo da badalação pelo caminho pouco glamouroso das carnes gordurosas – Steve Rubell, amigo de infância, convidou-o a gerenciar uma cadeia de churrascarias de bairro. Daí, os dois partiram para o Studio 54, que foi templo do agito na década de 70. Sexo, drogas e figurinhas carimbadas como a atriz Bianca Jagger e o pintor Andy Warhol fizeram a fama do lugar. Encerrada essa era, que incluiu várias passagens dos donos pela polícia, os dois sócios partiram para o ramo da hotelaria. O primeiro empreendimento foi a recuperação do Morgans em Nova York. Nascia ali o setor hoje denominado de hotel butique, que aliava o projeto minimalista da designer francesa Andrée Putman – o banheiro em preto-e-branco, com pia de aço, é um clássico – ao atendimento diferenciado. Foi o trampolim para Schrager se lançar em carreira-solo, rompendo a sociedade com Rubell. Com projeto de Philippe Starck, ele fez em seguida dois de seus maiores sucessos nova-iorquinos, o Paramount e o luxuoso Royalton. Situado na Rua 46, a um pulo da Broadway e do Rockefeller Center, o Paramount foi o primeiro hotel a oferecer novidades como uma videoteca de 1.500 títulos para os hóspedes. Perto dali, na Rua 44, com corredores que fazem curvas e apartamentos concebidos como se fossem cabines de navio, o Royalton também logo caiu no gosto das celebridades, atraindo hóspedes como David Lynch, John Malkovich, gente da imprensa e das passarelas da moda – a ponto de ser comparado ao mitológico Algonquin em sua fase áurea, nos anos 20 e 30.

Veneza americana – Schrager não relaxa no controle de qualidade. Sabe que o olho do dono é imprescindível para garantir o padrão – e detectar as novidades tão ansiadas por seu público. Em Miami Beach, o Delano, um tradicional hotel no passado, é hoje um resort que prima pela elegância da fachada art déco, a piscina cristalina e as diáfanas tendas na areia, numa espécie de versão americanizada, e modernizada, da praia de Morte em Veneza. Quem quiser pode malhar nas tendas, mas o bacana mesmo é fazer massagem – ou meditação. Os quartos são um primor de simplicidade chique, em que só entram o branco e a luz do sol. Em Los Angeles, na célebre Sunset Boulevard, o hotel Mondrian, com seus ambientes onde Philippe Starck atinge o nível de futurismo despojado que o desenho animado da família Jetsons nunca conseguiu, vive cheio de estrelas de Hollywood, que se espremem na filial do Asia de Cuba.

A próxima tacada de Schrager será investir num nicho que ele chama de "spa urbano", que oferecerá acomodações moderníssimas para viajantes loucos por academias de ginástica, tratamentos de beleza, comidas leves e, é claro, o visual único. O primeiro exemplar dessa nova linhagem de hotéis é o Sanderson, que deve abrir em Londres no começo do ano que vem. Vem mais deslumbramento por aí.