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Telescópio de Deus
Observatório do Vaticano
no Arizona segue tradição
iniciada nas catedrais européias
Daniel Hessel Teich
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No alto do Monte Graham, 3.000
metros acima do deserto do Arizona, um enorme telescópio perscruta
os confins do universo. Seria apenas mais um entre dezenas
de outros nos Estados Unidos, não fosse por alguns detalhes.
Em uma das salas uma Bíblia pontifica sobre os manuais
de astronomia em uma estante. Na entrada, uma placa de bronze
exibe o nome do papa João Paulo II no meio de um texto escrito
em latim. E nos postos de observação, em vez de astrônomos
comuns, se revezam seis padres jesuítas. É o Telescópio de
Tecnologia Avançada do Vaticano, o único no mundo a contar
com a explícita bênção de Deus num investimento de 4 milhões
de dólares da Igreja Católica. Um legítimo herdeiro da tradicional
arte de observação astronômica católica, em que frades e monges
estudavam os astros a partir da luz solar dentro das grandes
catedrais na Idade Média. "Nosso principal trabalho tem
sido conseguir fazer nossos instrumentos refletirem o céu
com absoluta precisão", explicou a VEJA o padre Christopher
Corbally, inglês de nascimento e doutor em astronomia pela
Universidade de Toronto, no Canadá. "O domínio dessa
tecnologia é fundamental para decifrarmos o universo",
disse o padre astrônomo. Para isso ficam de olho dia e noite
nos dados compilados pelo enorme telescópio, com um espelho
de 1,80 metro de diâmetro.
É curioso. A mesma Igreja que condenou um astrônomo, Galileu
Galilei, e proscreveu as obras de outro, Nicolau Copérnico,
tem hoje representantes capazes de discutir com astrônomos
da Nasa, a agência espacial americana, com a mesma desenvoltura
com que rezam suas missas. Parece contradição, mas
é apenas o resultado de uma convivência que dura séculos entre
os padres e o céu astronômico. Numa pesquisa recém-publicada
nos Estados Unidos, o historiador John Heilbron, professor
da Universidade de Berkeley e pesquisador associado da Universidade
de Oxford, mostra que o Vaticano, mesmo com todos os dogmas
da religião, foi a instituição que mais investiu no desenvolvimento
da astronomia da Baixa Idade Média até o princípio do iluminismo,
no século XVIII. E num período particular, entre 1650 e 1750,
logo depois da condenação de Galileu, propiciou aos astrônomos
os meios mais acurados de observação solar da época. "A
teoria de que o Sol e a Terra não tinham trajetórias circulares
descrita por Kepler, fundamentada na teoria de Copérnico,
foi comprovada dentro de uma catedral em 1655", afirma
Heilbron, referindo-se aos experimentos do astrônomo Gian
Cassini realizados dentro da igreja de São Petrônio, em Bolonha.
Da mesma forma que o telescópio de Monte Graham tem no miolo
de sua estrutura espelhos potentíssimos, as antigas catedrais
também foram dotadas de engenhosidade e precisão impressionantes
para sua época. Nesses templos, os observatórios funcionavam
basicamente a partir de um orifício no teto ou na parede.
Por esse buraco a luz solar penetra no interior sombrio das
igrejas e sua projeção forma uma rodela luminosa sobre uma
linha traçada no piso. Essas linhas são os chamados meridianos,
repletos de gradações numéricas e símbolos zodiacais, que
possibilitavam a medição do tamanho e o deslocamento das manchas
de luz. Com isso era possível observar a variação da distância
entre a Terra e o Sol. No estudo em São Petrônio, Cassini
não poderia ter margem de erro superior a 7 milímetros na
mancha formada pelo Sol no piso da igreja. Para isso, fez
seus cálculos e instalou o orifício no teto da igreja, a 27
metros de altura. A luz projetada por esse buraco percorre
uma distância de 67 metros em linha reta. Com esse instrumento,
Cassini, astrônomo alinhado com os setores conservadores da
Igreja, conseguiu descobrir que a órbita dos planetas é ovalada
e não redonda, como se pensava. Além dessa pesquisa científica,
o instrumento serviu ainda para 4.500
observações feitas até 1736, quando foi definitivamente trocado
pelos telescópios mais potentes. O que permitiu tais pesquisas
foi um motivo bastante sutil. "A Igreja tendia a encarar
todos os estudos baseados em cálculos matemáticos como hipotéticos
e fictícios, o que permitia aos estudiosos de então trabalhar
com relativa liberdade", explica Heilbron.
Pesquisas como as do professor Heilbron acabam sendo uma
bênção para a Igreja Católica deste fim de milênio. O papa
João Paulo II está pessoalmente empenhado em defender a ciência
e até elogiar gênios antes proscritos, como fez ao reconhecer
formalmente o erro da Igreja no caso de Galileu, há sete anos,
e ao homenagear Copérnico em junho deste ano, numa visita
à Polônia. Quer varrer qualquer sinal de arbitrariedade e
intolerância para fora dos porões do Vaticano. No observatório
de Monte Graham, por exemplo, os padres querem fazer ciência
com o mesmo rigor de Harvard, Berkeley, Princeton ou qualquer
outra grande universidade americana. Para enfurecê-los é só
perguntar se eles estão tentando provar se Deus é um enorme
buraco negro ou se procuram extraterrestres para futura catequização.
"Com nossas pesquisas queremos as mesmas coisas que os
outros cientistas: descobrir nossas origens, a origem do universo",
diz Corbally, o padre astrônomo do Arizona. Ele acha que cumprirá
sua parte nesse trabalho estudando estranhíssimas estrelas
conhecidas, como Lambda Boos. Esses corpos celestes da Via
Láctea, bastante semelhantes ao nosso Sol, mimetizam a atmosfera
de estrelas muito mais novas. O padre está tentando provar
que a estrela interage com o gás e as partículas cósmicas
que estão em torno dela de maneira diferente das demais. É
uma descoberta que, para ele, pode iluminar a evolução do
universo. Da mesma forma que as pesquisas de seus colegas
de séculos atrás com as manchas de luz no chão das catedrais.
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