Edição 1 623 -10/11/1999

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Inglaterra

Domo da discórdia

Governo investe pesado
e constrói até roda-gigante
para comemorar o novo milênio

Ricardo Villela

Londres é uma das capitais européias que mais têm para oferecer aos turistas. Igrejas como a Abadia de Westminster, fortificações históricas como a Torre de Londres, toda a folclórica parafernália criada em torno da família real e alguns dos melhores museus do mundo fazem da capital inglesa a terceira cidade mais visitada do planeta. Com tudo isso, será que o país precisa de mais atrações? De olho na virada do milênio, o governo está torrando o equivalente a 7 bilhões de dólares em novos monumentos, centros culturais e parques, além da reforma de instalações já existentes. Nada suscita tanta discussão quanto duas obras às margens do Rio Tâmisa. No bairro de Greenwich está sendo construído um pavilhão de dimensões faraônicas, orçamento gordo e nome pomposo, o Millennium Dome. Para se ter uma idéia, o Domo do Milênio é tão grande que ao longo de seu diâmetro é possível enfileirar quatro jumbos e meio. Fosse transformado num estacionamento, abrigaria 18.000 dos tradicionais ônibus de dois andares que circulam por Londres. Para executar o projeto do arquiteto Richard Rogers, o mesmo do Centro Georges Pompidou, em Paris, foram consumidos 1.600 toneladas de aço e 1,2 bilhão de dólares.

Durante um ano, a partir da virada para 2000, o Domo vai abrigar uma ambiciosa exposição histórico-científica centrada no tema tempo, o que em princípio contribui para acalmar as críticas. Um pouquinho mais difícil é justificar outro monumento com vocação para polêmica, uma roda-gigante – gigante mesmo. Erguida em frente do Big Ben, o relógio mais famoso do mundo, ela tem 137 metros de altura e gira tão devagar que vai gastar meia hora para completar uma volta inteira. Em dias de céu claro (raros em Londres, é bom lembrar), a visão do ponto mais alto chegará a 40 quilômetros. A roda-gigante recebeu o nome de London Eye (Olho de Londres, em português) e despertou a ira de arquitetos, revoltados com a proximidade entre a mastodôntica engenhoca de metal e os edifícios góticos e neogóticos à sua volta.

Réveillon em Bangu – Quando a construção do Millennium Dome foi anunciada, em 1996, pelo governo então conservador, teve péssima repercussão. Os escandalosos tablóides londrinos estamparam manchetes do tipo "Abaixo o domo" e "Fiasco do milênio". Os primeiros ataques miraram em sua localização. Escolhido por ser o marco zero da divisão do globo em 24 fusos horários – a hora de Greenwich –, o local parecia apropriado para uma exposição que celebraria o tempo. Ocorre que Greenwich é uma das regiões mais pobres da cidade, está fora do circuito tradicional de atrações turísticas e nem estação de metrô tinha. É como se a prefeitura do Rio de Janeiro decidisse que o próximo ano-novo seria comemorado em Bangu em vez de Copacabana. Quando o custo do projeto foi divulgado, as críticas dispararam. Do orçamento de 1,2 bilhão de dólares, pouco menos da metade está sendo bancado por patrocinadores privados e pela venda de ingressos. Os 650 milhões de dólares restantes vieram da arrecadação da loteria nacional, a versão inglesa da Sena. Quatro entre cinco britânicos eram contra o Domo do Milênio. Quase 80% dos londrinos não pretendiam visitá-lo quando estivesse pronto.

O desânimo era tanto que o projeto pareceu ameaçado quando o Partido Trabalhista assumiu o governo, em 1997. A resposta veio num tom grandiloqüente, apropriado ao projeto modernizante do primeiro-ministro Tony Blair. "O Domo do Milênio será um legado da Grã-Bretanha para o mundo", disse Blair. À medida que a obra foi ganhando corpo, a má vontade da população diminuiu. Curiosamente, a péssima repercussão inicial ajudou a divulgação. Houve tanta discussão que hoje 95% dos ingleses conhecem bem o projeto. A exposição ganhou patrocinadores de peso, como McDonald's, Ford e British Airways. Uma linha de metrô foi estendida até Greenwich, e 12 milhões de visitantes são esperados no ano 2 000. Dentro do Domo, os turistas vão fazer viagens virtuais dentro de um corpo humano gigante, explorar o interior de um cérebro, passear na atmosfera terrestre, descobrir como suas decisões de consumo interferem no mercado financeiro global e observar o comportamento de uma colônia de 500.000 formigas. Com tantas atrações, os ânimos mudaram. Já há quem lembre que, 113 anos atrás, a Torre Eiffel também não fez sucesso entre os franceses antes de sair do papel.