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Inglaterra
Domo da discórdia
Governo investe pesado
e constrói até roda-gigante
para comemorar o novo milênio
Ricardo Villela
Londres é uma das capitais européias que mais
têm para oferecer aos turistas. Igrejas como a Abadia
de Westminster, fortificações históricas
como a Torre de Londres, toda a folclórica parafernália
criada em torno da família real e alguns dos melhores
museus do mundo fazem da capital inglesa a terceira cidade
mais visitada do planeta. Com tudo isso, será que o
país precisa de mais atrações? De olho
na virada do milênio, o governo está torrando
o equivalente a 7 bilhões de dólares em novos
monumentos, centros culturais e parques, além da reforma
de instalações já existentes. Nada suscita
tanta discussão quanto duas obras às margens
do Rio Tâmisa. No bairro de Greenwich está sendo
construído um pavilhão de dimensões faraônicas,
orçamento gordo e nome pomposo, o Millennium Dome.
Para se ter uma idéia, o Domo do Milênio é
tão grande que ao longo de seu diâmetro é
possível enfileirar quatro jumbos e meio. Fosse transformado
num estacionamento, abrigaria 18.000
dos tradicionais ônibus de dois andares que circulam
por Londres. Para executar o projeto do arquiteto Richard
Rogers, o mesmo do Centro Georges Pompidou, em Paris, foram
consumidos 1.600 toneladas de aço
e 1,2 bilhão de dólares.
Durante um ano, a partir da virada para 2000, o Domo vai
abrigar uma ambiciosa exposição histórico-científica
centrada no tema tempo, o que em princípio contribui
para acalmar as críticas. Um pouquinho mais difícil
é justificar outro monumento com vocação
para polêmica, uma roda-gigante gigante mesmo. Erguida
em frente do Big Ben, o relógio mais famoso do mundo,
ela tem 137 metros de altura e gira tão devagar que
vai gastar meia hora para completar uma volta inteira. Em
dias de céu claro (raros em Londres, é bom lembrar),
a visão do ponto mais alto chegará a 40 quilômetros.
A roda-gigante recebeu o nome de London Eye (Olho de Londres,
em português) e despertou a ira de arquitetos, revoltados
com a proximidade entre a mastodôntica engenhoca de
metal e os edifícios góticos e neogóticos
à sua volta.
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Réveillon em Bangu Quando a construção
do Millennium Dome foi anunciada, em 1996, pelo governo então
conservador, teve péssima repercussão. Os escandalosos
tablóides londrinos estamparam manchetes do tipo "Abaixo
o domo" e "Fiasco do milênio". Os primeiros ataques
miraram em sua localização. Escolhido por ser
o marco zero da divisão do globo em 24 fusos horários
a hora de Greenwich , o local parecia apropriado para
uma exposição que celebraria o tempo. Ocorre
que Greenwich é uma das regiões mais pobres
da cidade, está fora do circuito tradicional de atrações
turísticas e nem estação de metrô
tinha. É como se a prefeitura do Rio de Janeiro decidisse
que o próximo ano-novo seria comemorado em Bangu em
vez de Copacabana. Quando o custo do projeto foi divulgado,
as críticas dispararam. Do orçamento de 1,2
bilhão de dólares, pouco menos da metade está
sendo bancado por patrocinadores privados e pela venda de
ingressos. Os 650 milhões de dólares restantes
vieram da arrecadação da loteria nacional, a
versão inglesa da Sena. Quatro entre cinco britânicos
eram contra o Domo do Milênio. Quase 80% dos londrinos
não pretendiam visitá-lo quando estivesse pronto.
O desânimo era tanto que o projeto pareceu ameaçado
quando o Partido Trabalhista assumiu o governo, em 1997. A
resposta veio num tom grandiloqüente, apropriado ao projeto
modernizante do primeiro-ministro Tony Blair. "O Domo do Milênio
será um legado da Grã-Bretanha para o mundo",
disse Blair. À medida que a obra foi ganhando corpo,
a má vontade da população diminuiu. Curiosamente,
a péssima repercussão inicial ajudou a divulgação.
Houve tanta discussão que hoje 95% dos ingleses conhecem
bem o projeto. A exposição ganhou patrocinadores
de peso, como McDonald's, Ford e British Airways. Uma linha
de metrô foi estendida até Greenwich, e 12 milhões
de visitantes são esperados no ano 2 000. Dentro do
Domo, os turistas vão fazer viagens virtuais dentro
de um corpo humano gigante, explorar o interior de um cérebro,
passear na atmosfera terrestre, descobrir como suas decisões
de consumo interferem no mercado financeiro global e observar
o comportamento de uma colônia de 500.000
formigas. Com tantas atrações, os ânimos
mudaram. Já há quem lembre que, 113 anos atrás,
a Torre Eiffel também não fez sucesso entre
os franceses antes de sair do papel.
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