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Emigração
Rica escapada
Canadá é o país favorito
dos empresários
que querem sair do Brasil
e investir no exterior
Rogerio Wassermann
Para alguns brasileiros, a emigração pode ser
uma história verdadeira de sucesso. Com dinheiro no
bolso e espírito de aventura, empresários vêm
encontrando as portas abertas onde muitos emigrantes munidos
apenas de cara e coragem enfrentam barreiras. Cansado de sobressaltos
econômicos, o empresário Homero Gouveia decidiu
deixar Campinas, no interior de São Paulo, e mudar-se
para a Nova Zelândia, levando junto sua empresa, que
fabrica equipamentos de medição para controle
de qualidade. "O clima é parecido com o do Brasil,
mas num ambiente de Primeiro Mundo", compara. Seu pedido de
visto de entrada ainda está em tramitação,
mas ele dificilmente verá frustrado o plano de desembarcar
por lá em julho, por um motivo simples: "Só
em equipamentos, estou levando mais de 1 milhão de
dólares". Leis que prevêem concessão de
vistos de residência a quem leva investimentos na bagagem
não são exclusividade de rincões distantes
como a Nova Zelândia. Há oportunidades semelhantes
nos Estados Unidos e na Inglaterra, entre outros países
(veja quadro ao lado).
Nenhum lugar, porém, é tão convidativo
aos emigrantes de negócios como o Canadá, com
sua grande extensão territorial, pequena população
(densidade demográfica de três habitantes por
quilômetro quadrado, um sexto da brasileira) e a economia
em ótima forma. O interessado em abrir uma empresa
no Canadá tem prazo de dois anos, após a concessão
do visto, para decidir o que fazer. Não há investimento
mínimo estipulado, mas, naturalmente, quanto maior
o patrimônio transferido maiores as chances de sucesso
na obtenção do visto. A nova empresa deve contratar,
pelo menos, um residente no país, canadense ou não.
Não é preciso sequer dominar perfeitamente os
idiomas locais (inglês ou francês, dependendo
da região). Com tamanha flexibilidade, mais os atrativos
irresistíveis da qualidade de vida, classificada como
a melhor do mundo pela Organização das Nações
Unidas, todos os anos mais de uma dezena de empresários
brasileiros toma o rumo do Canadá.
Fotos Iri Tommasini
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Moreira e família em Toronto:
"Difícil pensar em voltar" |
Dinheiro e lazer Quando deixou a cidade de Bragança
Paulista com a mulher e três filhos para viver no Canadá,
em 1997, o empresário Wilson Moreira fugia da falta
de segurança. Durante um assalto, ele só não
perdeu a vida porque a arma que o ladrão apontava contra
sua cabeça falhou. Hoje, diz que não troca Toronto
por nenhum outro lugar. "Com a vida que temos aqui, fica difícil
pensar em voltar", diz Maria Lúcia, mulher de Moreira.
Além da prosperidade, a mudança significou também
mais tempo para o lazer. "Agora me sobra tempo para jogar
golfe e velejar", comemora o empresário. Ele ainda
vem ao Brasil, a cada dois meses, vistoriar sua fábrica
de componentes para aparelhos de telecomunicações,
mas as visitas se tornarão mais esparsas. "Já
consigo coordenar os negócios aqui mesmo no Canadá,
com ajuda do computador", diz.
O clima muito frio, o temperamento mais reservado dos canadenses
e a ameaça de tédio que paira no ar podem ser
vistos como empecilhos ou não, dependendo da experiência
e do gosto de cada um. "No início, as pessoas são
um pouco fechadas, mas, depois de conhecê-las, as amizades
são bastante verdadeiras", avalia o engenheiro carioca
Eduardo Stivelman, que reside há oito anos em Toronto.Suas
três filhas nasceram lá e têm dupla nacionalidade.
"Quando estava no Brasil, não sabia se queria ter filhos,
por causa do clima de violência", lembra. "Aqui é
possível uma infância tão saudável
quanto a minha, no Brasil, o que não se encontra mais."
Com experiência no setor bancário, Stivelman
abriu em Toronto uma rede de agências de serviços
financeiros para pessoas de baixa renda. "Esse é um
tipo de negócio que não existe no Brasil e que
eu não conhecia quando vim para cá", diz Stivelman.
Especialistas em gerenciamento do departamento de imigração
prestaram assistência na empreitada.
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Stivelman, dono de uma rede de financeiras: filhos
e novo rumo
para a carreira |
Frio demais Nem todo mundo se adapta tão
bem. O paulistano Abrão Feldman, que foi ao Canadá
sem recorrer aos benefícios oferecidos pelo governo,
está decidido a deixar Montreal, onde mora há
sete anos, e voltar para o Brasil. "Minha decisão não
tem nada a ver com o aspecto financeiro", afirma Feldman,
que há dois anos abriu uma empresa de serviços
telefônicos. Ele considera a cidade provinciana e detesta
os invernos congelantes: "Em Campinas, que tem cerca de um
terço da população de Montreal, acontece
mais coisa do que aqui".
Com renda per capita de 20.000
dólares anuais, que interesse tem o Canadá em
estimular tão entusiasticamente a chegada de imigrantes?
"Eles ajudam a compor nossa diversidade cultural", diz o cônsul
canadense em São Paulo responsável pelo departamento
de imigração, Jeremiah Shea. Mas não
é só isso, claro: "Os imigrantes qualificados
trazem intensificação do comércio com
os países de origem". O comércio bilateral ainda
é pífio, mas as importações de
produtos brasileiros pelo Canadá cresceram de 540 milhões
de dólares, em 1990, para quase 1 bilhão no
ano passado. No mesmo período, as exportações
tiveram um salto ainda maior, passando de 340 milhões
para 1 bilhão de dólares. Bom para os dois lados.
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Os valadarenses não desistem
Álbum de família
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| Araújo em sua carrocinha de cachorro-quente:
renda familiar de 5 000 reais |
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Para o brasileiro que sonha em melhorar de vida no
exterior, mas tem pouco dinheiro no bolso, as opções
são mais difíceis, mas sempre se dá
um jeitinho. Nas décadas de 70 e 80, a cidade
de Governador Valadares, em Minas Gerais, ficou famosa
pelo grande número de habitantes que emigravam
para os Estados Unidos. Durante vinte anos, cerca de
30 000 moradores deixaram a cidade atraídos pelos
salários em dólares. Com as portas da
aventura americana estreitadas desde que o governo dos
Estados Unidos limitou a emissão de vistos de
entrada para valadarenses, a população
da cidade acabou encontrando um novo mapa da mina. Desta
vez aponta para Portugal. Estima-se que, nos últimos
dois anos, pelo menos 3.000
valadarenses embarcaram para o país. A maioria
arruma empregos paralelos na construção
civil ou no setor de prestação de serviços.
A nova debandada está sendo saudada como solução
para a ressaca que se abateu sobre a cidade quando os
dólares enviados dos Estados Unidos escassearam.
Só neste ano, a agência local do Banco
do Brasil recebeu meio milhão de reais remetidos
de Portugal, seis vezes mais que em 1997. "Morar nos
Estados Unidos continua sendo o sonho dourado da maioria,
mas a bola da vez é Portugal", afirma Giuliana
Toledo, diretora da União das Agências
de Turismo de Governador Valadares.
O comércio da cidade já começa
a sentir os efeitos positivos. "Ainda não chega
aos pés dos tempos áureos, quando a cidade
recebia até 1 milhão de dólares
por mês, mas o movimento é crescente e
os comerciantes estão empolgados", diz Ceci Sendas,
presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de
Governador Valadares. Há pouco mais de cinco
anos, depois de ter seu visto para os Estados Unidos
recusado pelo consulado, o mecânico Fernando Araújo
resolveu tentar a sorte em terras lusitanas. Em Governador
Valadares, ganhava pouco mais de dois salários
mínimos. Hoje, mora com a família em Setúbal,
a 40 quilômetros de Lisboa, e é técnico
de manutenção numa indústria. Há
três anos, teve um filho, regularizou sua situação
e hoje é um trabalhador legal. Nos finais de
semana, complementa os rendimentos vendendo cachorro-quente
numa danceteria. Com o salário da mulher, que
trabalha como balconista, a renda da família
gira em torno de 5.000 reais.
"Tenho um padrão de vida que jamais teria no
Brasil", comemora Araújo, que recentemente conseguiu
emprego para dois parentes na cidade.
Leonardo Coutinho
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