Edição 1 623 -10/11/1999

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Emigração

Rica escapada

Canadá é o país favorito dos empresários
que querem sair do Brasil
e investir no exterior

Rogerio Wassermann

Para alguns brasileiros, a emigração pode ser uma história verdadeira de sucesso. Com dinheiro no bolso e espírito de aventura, empresários vêm encontrando as portas abertas onde muitos emigrantes munidos apenas de cara e coragem enfrentam barreiras. Cansado de sobressaltos econômicos, o empresário Homero Gouveia decidiu deixar Campinas, no interior de São Paulo, e mudar-se para a Nova Zelândia, levando junto sua empresa, que fabrica equipamentos de medição para controle de qualidade. "O clima é parecido com o do Brasil, mas num ambiente de Primeiro Mundo", compara. Seu pedido de visto de entrada ainda está em tramitação, mas ele dificilmente verá frustrado o plano de desembarcar por lá em julho, por um motivo simples: "Só em equipamentos, estou levando mais de 1 milhão de dólares". Leis que prevêem concessão de vistos de residência a quem leva investimentos na bagagem não são exclusividade de rincões distantes como a Nova Zelândia. Há oportunidades semelhantes nos Estados Unidos e na Inglaterra, entre outros países (veja quadro ao lado).

Nenhum lugar, porém, é tão convidativo aos emigrantes de negócios como o Canadá, com sua grande extensão territorial, pequena população (densidade demográfica de três habitantes por quilômetro quadrado, um sexto da brasileira) e a economia em ótima forma. O interessado em abrir uma empresa no Canadá tem prazo de dois anos, após a concessão do visto, para decidir o que fazer. Não há investimento mínimo estipulado, mas, naturalmente, quanto maior o patrimônio transferido maiores as chances de sucesso na obtenção do visto. A nova empresa deve contratar, pelo menos, um residente no país, canadense ou não. Não é preciso sequer dominar perfeitamente os idiomas locais (inglês ou francês, dependendo da região). Com tamanha flexibilidade, mais os atrativos irresistíveis da qualidade de vida, classificada como a melhor do mundo pela Organização das Nações Unidas, todos os anos mais de uma dezena de empresários brasileiros toma o rumo do Canadá.
Fotos Iri Tommasini
Moreira e família em Toronto:
"Difícil pensar em voltar"



Dinheiro e lazer – Quando deixou a cidade de Bragança Paulista com a mulher e três filhos para viver no Canadá, em 1997, o empresário Wilson Moreira fugia da falta de segurança. Durante um assalto, ele só não perdeu a vida porque a arma que o ladrão apontava contra sua cabeça falhou. Hoje, diz que não troca Toronto por nenhum outro lugar. "Com a vida que temos aqui, fica difícil pensar em voltar", diz Maria Lúcia, mulher de Moreira. Além da prosperidade, a mudança significou também mais tempo para o lazer. "Agora me sobra tempo para jogar golfe e velejar", comemora o empresário. Ele ainda vem ao Brasil, a cada dois meses, vistoriar sua fábrica de componentes para aparelhos de telecomunicações, mas as visitas se tornarão mais esparsas. "Já consigo coordenar os negócios aqui mesmo no Canadá, com ajuda do computador", diz.

O clima muito frio, o temperamento mais reservado dos canadenses e a ameaça de tédio que paira no ar podem ser vistos como empecilhos ou não, dependendo da experiência e do gosto de cada um. "No início, as pessoas são um pouco fechadas, mas, depois de conhecê-las, as amizades são bastante verdadeiras", avalia o engenheiro carioca Eduardo Stivelman, que reside há oito anos em Toronto.Suas três filhas nasceram lá e têm dupla nacionalidade. "Quando estava no Brasil, não sabia se queria ter filhos, por causa do clima de violência", lembra. "Aqui é possível uma infância tão saudável quanto a minha, no Brasil, o que não se encontra mais." Com experiência no setor bancário, Stivelman abriu em Toronto uma rede de agências de serviços financeiros para pessoas de baixa renda. "Esse é um tipo de negócio que não existe no Brasil e que eu não conhecia quando vim para cá", diz Stivelman. Especialistas em gerenciamento do departamento de imigração prestaram assistência na empreitada.
Stivelman, dono de uma rede de financeiras: filhos e novo rumo
para a carreira

Frio demais – Nem todo mundo se adapta tão bem. O paulistano Abrão Feldman, que foi ao Canadá sem recorrer aos benefícios oferecidos pelo governo, está decidido a deixar Montreal, onde mora há sete anos, e voltar para o Brasil. "Minha decisão não tem nada a ver com o aspecto financeiro", afirma Feldman, que há dois anos abriu uma empresa de serviços telefônicos. Ele considera a cidade provinciana e detesta os invernos congelantes: "Em Campinas, que tem cerca de um terço da população de Montreal, acontece mais coisa do que aqui".

Com renda per capita de 20.000 dólares anuais, que interesse tem o Canadá em estimular tão entusiasticamente a chegada de imigrantes? "Eles ajudam a compor nossa diversidade cultural", diz o cônsul canadense em São Paulo responsável pelo departamento de imigração, Jeremiah Shea. Mas não é só isso, claro: "Os imigrantes qualificados trazem intensificação do comércio com os países de origem". O comércio bilateral ainda é pífio, mas as importações de produtos brasileiros pelo Canadá cresceram de 540 milhões de dólares, em 1990, para quase 1 bilhão no ano passado. No mesmo período, as exportações tiveram um salto ainda maior, passando de 340 milhões para 1 bilhão de dólares. Bom para os dois lados.

 

Os valadarenses não desistem

Álbum de família
Araújo em sua carrocinha de cachorro-quente: renda familiar de 5 000 reais

Para o brasileiro que sonha em melhorar de vida no exterior, mas tem pouco dinheiro no bolso, as opções são mais difíceis, mas sempre se dá um jeitinho. Nas décadas de 70 e 80, a cidade de Governador Valadares, em Minas Gerais, ficou famosa pelo grande número de habitantes que emigravam para os Estados Unidos. Durante vinte anos, cerca de 30 000 moradores deixaram a cidade atraídos pelos salários em dólares. Com as portas da aventura americana estreitadas desde que o governo dos Estados Unidos limitou a emissão de vistos de entrada para valadarenses, a população da cidade acabou encontrando um novo mapa da mina. Desta vez aponta para Portugal. Estima-se que, nos últimos dois anos, pelo menos 3.000 valadarenses embarcaram para o país. A maioria arruma empregos paralelos na construção civil ou no setor de prestação de serviços. A nova debandada está sendo saudada como solução para a ressaca que se abateu sobre a cidade quando os dólares enviados dos Estados Unidos escassearam. Só neste ano, a agência local do Banco do Brasil recebeu meio milhão de reais remetidos de Portugal, seis vezes mais que em 1997. "Morar nos Estados Unidos continua sendo o sonho dourado da maioria, mas a bola da vez é Portugal", afirma Giuliana Toledo, diretora da União das Agências de Turismo de Governador Valadares.

O comércio da cidade já começa a sentir os efeitos positivos. "Ainda não chega aos pés dos tempos áureos, quando a cidade recebia até 1 milhão de dólares por mês, mas o movimento é crescente e os comerciantes estão empolgados", diz Ceci Sendas, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Governador Valadares. Há pouco mais de cinco anos, depois de ter seu visto para os Estados Unidos recusado pelo consulado, o mecânico Fernando Araújo resolveu tentar a sorte em terras lusitanas. Em Governador Valadares, ganhava pouco mais de dois salários mínimos. Hoje, mora com a família em Setúbal, a 40 quilômetros de Lisboa, e é técnico de manutenção numa indústria. Há três anos, teve um filho, regularizou sua situação e hoje é um trabalhador legal. Nos finais de semana, complementa os rendimentos vendendo cachorro-quente numa danceteria. Com o salário da mulher, que trabalha como balconista, a renda da família gira em torno de 5.000 reais. "Tenho um padrão de vida que jamais teria no Brasil", comemora Araújo, que recentemente conseguiu emprego para dois parentes na cidade.

Leonardo Coutinho