|
|
Europa
O milagre português
Portugal triplica a riqueza em uma década
e
lidera as estatísticas de crescimento na Europa
Laurentino Gomes, de Lisboa,
e Eduardo Salgado, de Londres
Claudio Larangeira
 |
Shopping das Amoreiras:
consumidores com poder
de compra e apetite voraz |
Nunca na História do seu país os portugueses viveram tão bem.
Desde a era dos descobrimentos, há 500 anos, não tinham tantos
motivos de que se orgulhar. E há muito tempo não se sentiam
tão europeus. Os sinais de prosperidade são visíveis mesmo
antes que se coloquem os pés em Lisboa. Do avião, já se avista
a Ponte Vasco da Gama. A imponente construção, de 18 quilômetros
sobre o Rio Tejo, é um dos ícones da nova economia portuguesa.
Outro símbolo pode ser observado mais abaixo, na margem direita
do rio. No local onde se realizou a Expo 98, no ano passado,
agora está brotando um bairro inteiramente novo. As novidades
ali incluem uma estação de trem de linhas arrojadas, um oceanário,
salas de concertos, shoppings, bares, restaurantes e condomínios
de apartamentos para a classe média.
|
PIB PER CAPITA
1987 - 3 400
dólares
1998 - 10 500 dólares
|
O contraste com Portugal da década de 80 é impressionante.
Nos últimos dez anos, a renda per capita dos portugueses triplicou,
a venda de automóveis explodiu, o mercado imobiliário floresceu
e os investimentos estrangeiros no país dispararam. A economia
vive em estado de graça. O desemprego é inexpressivo e a inflação
está sob controle. Em Lisboa e no Porto, as duas principais
cidades, tratores e guindastes trabalham 24 horas por dia
para alimentar o boom da construção civil. Bairros inteiros
surgem do nada. Os mapas rodoviários de dois anos atrás estão
todos desatualizados por causa da abertura recente de pontes,
túneis, viadutos e auto-estradas. É um cenário que as últimas
gerações de brasileiros, habituadas a conviver com crise,
nunca viram. E que, talvez, nem a próxima geração verá.
|
FROTA DE
AUTOMÓVEIS
1987 - 2,5 milhões
1998 - 6,0 milhões
|
Um relatório recente do banco central europeu aponta Portugal
como um dos quatro pontos quentes do continente, ao lado de
Irlanda, Espanha e Finlândia. Nesses países, a economia cresce
sem parar há mais de uma década, e a um ritmo superior à média
européia. O produto interno bruto português deve dar um salto
de 3,5% neste ano, bem acima do 1,9% do resto da Europa. Só
no ano passado, o setor de serviços cresceu nada menos que
72%. Só mesmo em Portugal. Em dez anos, as vendas das 500
maiores empresas portuguesas aumentaram 140%. É uma prova
do poder de compra dos novos e vorazes consumidores portugueses.
Philippe Renault
 |
Lisboa: novas luzes se misturam
à paisagem tradicional |
A seguir assim, a riqueza nacional dobra em apenas vinte anos.
Com tudo isso, a idéia de que a Europa começa a partir dos Pireneus,
um chavão repetido por muitos turistas brasileiros no passado,
já não faz o menor sentido. Até mesmo o velho complexo de inferioridade
e a autocrítica exacerbada dos portugueses estão se esvaindo.
O Nobel de Literatura concedido a José Saramago no ano passado
e a Expo 98 deram o ânimo que faltava. Para completar, o país
acaba de ganhar o direito a sediar o Euro 2004, o campeonato
de futebol europeu. "No passado, tínhamos um sério problema
de auto-estima. Felizmente, é uma idéia que está caindo em desuso",
diz Manuel Villaverde Cabral, coordenador do Instituto de Ciências
Sociais e vice-reitor da Universidade de Lisboa.
|
INFLAÇÃO
ANUAL
(em %)
1984 - 29
1989 - 13
1994 - 5
1999 - 2,5* (*
Previsão)
|
O que está acontecendo em Portugal é uma combinação única
de fatores que levam ao crescimento, a começar por uma circunstância
geográfica. O velho e atrasado Portugal de alguns anos atrás
tem a sorte de estar situado num continente chamado Europa.
E é nesse continente que se realiza hoje uma das mais fascinantes
experiências da História recente. Ao todo, quinze países de
línguas, culturas, tradições e raízes diferentes estão derrubando
suas fronteiras, eliminando suas moedas e abrindo mão de parte
das próprias leis e regulamentos para se juntar numa grande
comunidade que, a partir de 2002, vai funcionar como uma entidade
única, regida por normas e princípios comuns. O euro, a moeda
européia, estreou em janeiro passado e hoje já é um sucesso.
Por enquanto, serve de referência nas transações bancárias,
nos balanços das empresas e na contabilidade dos governos.
Dentro de dois anos, vai substituir fisicamente todas as atuais
moedas, de modo que quem viajar pela Europa não mais precisará
trocar escudos por francos, liras por marcos ou pesetas por
xelins.
Graças à moeda única e à disciplina monetária exigida dos
países para chegar a ela, a Europa, que até uma década atrás
parecia condenada a perder para os Estados Unidos e o Japão
a corrida pela hegemonia econômica, hoje está dando a volta
por cima. As empresas européias estão cada vez mais competitivas.
O consórcio Airbus já vende mais aviões do que a poderosa
Boeing americana. A união só foi bem-sucedida porque os países
mais ricos caso de Alemanha, França e Inglaterra toparam
o desafio de financiar os mais pobres, de modo que pudessem
recuperar parte do terreno que os separava anos atrás. E poucos
países foram tão beneficiados nesse aspecto quanto Portugal.
Durante anos, milhões e milhões de dólares da Comunidade Européia
jorraram para a economia portuguesa a fundo perdido, na forma
de verbas para educação, transporte, saúde, obras de infra-estrutura,
preservação do meio ambiente e uma infinidade de outras atividades.
Os méritos, evidentemente, não são apenas da Comunidade Européia.
Os portugueses também se convenceram a fazer o dever de casa.
E o fizeram direito. Nos últimos anos, o governo cortou o
déficit público, fez um gigantesco processo de privatização,
desregulamentou a economia e tornou mais flexível a contratação
de mão-de-obra. A inflação baixou. O Partido Socialista, do
atual primeiro-ministro António Guterres, é uma agremiação
de esquerda que, para espanto dos petistas brasileiros, defende
a economia de mercado, a privatização e o controle dos gastos
governamentais. Nas eleições parlamentares de outubro, Guterres
fez uma campanha curiosa. Ele não prometeu aos portugueses
mudança alguma de rumo nem melhoria substancial no padrão
de vida. Disse simplesmente que manteria as coisas como estavam.
Foi reeleito com folgada maioria e saiu das urnas com praticamente
carta branca para fazer o que quiser nos próximos cinco anos.
Uma prova de que os portugueses têm méritos inegáveis nessas
mudanças é que Espanha e Grécia, outros países que eram muito
pobres em comparação aos demais quando entraram no bloco europeu,
não obtiveram os mesmos êxitos. Pelo menos não na mesma proporção.
As taxas de desemprego na Espanha são altíssimas há anos.
Os gregos não só tiveram índices de crescimento da economia
inferiores aos dos portugueses como também ficaram de fora
do euro. Faltou disciplina monetária. Tudo isso contribuiu
para reforçar a credibilidade de Portugal aos olhos dos investidores
estrangeiros, que se viram atraídos também pela mão-de-obra
mais barata em comparação com a dos outros países europeus.
"Hoje, o risco de investir em Portugal é o mesmo que
se verifica na França ou na Alemanha", diz Diego Hernando,
diretor da BBV Midas, uma corretora de investimentos. Esse
cenário, aliado a taxas de juros camaradas, é o que tem permitido
a explosão de consumo desde máquinas de lavar roupa e telefones
celulares até carros e apartamentos.
A vida está muito mais confortável. Em dez anos, o número
de residências com freezer e máquina de lavar roupa dobrou.
Carros luxuosos trafegam em estradas modernas em que os pedágios
são cobrados por sensores eletrônicos, sem interromper o tráfego.
O país, antes sonolento, hoje tem pressa. Levando-se em conta
que nos anos 60 apenas a metade das casas em Portugal tinha
luz elétrica, a década de 90 é a do milagre português. A quantidade
de casas com telefones fixos aumentou 140%. Nada se compara,
porém, ao número de telefones celulares. Portugal é o sexto
país com maior número desses aparelhos. Há 42 para cada grupo
de 100 habitantes, índice proporcionalmente maior do que nos
Estados Unidos, na Inglaterra, na França e na Alemanha. O
som dos telefones celulares está por todo lado, em todos os
tons e ritmos possíveis da Nona, de Beethoven, ao
samba de breque.
As mudanças não foram apenas do ponto de vista material.
Na primeira metade da década de 90, o número de universitários
diplomados a cada ano dobrou. Os portugueses, em geral, refinaram
suas opiniões a respeito de assuntos que, no passado, eram
tratados como tabu. A descriminação das drogas, a liberação
do aborto, os direitos dos homossexuais são todos temas do
momento em Portugal. Uma prova de que o grau de tolerância
aumentou é o número crescente de associações, bares, publicações
e eventos voltados para o público gay. A incorporação desses
novos valores se deve, em grande parte, à integração de Portugal
na Comunidade Européia. "As pessoas pensam da seguinte
forma: se os europeus respeitam o direito dos homossexuais,
nós, como europeus, também devemos respeitar", diz António
de Oliveira Marques, autor de História de Portugal.
O que impressiona em Portugal é a velocidade com que as mudanças
se processaram. No começo da década de 70, o sentimento reinante
entre os portugueses era de grande pessimismo. Era uma época
de incerteza. Depois de quarenta anos de ditadura, o regime
salazarista agonizava. As colônias na África lutavam pela
independência. Os pilares do império colonial desabavam. Criou-se
um vácuo na perspectiva histórica dos portugueses. Haveria
saída para um país pequeno e rural, fabricante de produtos
de baixa qualidade na periferia da Europa? Para milhares de
pessoas, a saída continuou sendo o aeroporto e as estações
de trem e ônibus rumo a lugares mais promissores. O clima
de desencanto com o futuro era tão acentuado e as oportunidades
tão reduzidas que, nas décadas anteriores, nada menos que
4 milhões de portugueses tinham deixado o país.
O progresso de Portugal é incontestável, mas ainda há muita
coisa a fazer. O país ainda é um dos mais pobres da Europa.
A renda per capita é apenas a metade da média do continente.
Embora a mortalidade infantil tenha diminuído, o índice de
Portugal continua superior ao da União Européia como um todo.
Os portugueses também são os campeões em acidentes e mortes
no trânsito e têm uma elevada taxa de analfabetismo, quando
comparada à de seus vizinhos. Estima-se que será necessário
manter o atual ritmo de crescimento por mais quinze anos,
pelo menos, até que se atinja o padrão de vida dos alemães,
franceses e ingleses, os primos ricos do continente. "Portugal
está diminuindo a distância que o separava dos países mais
desenvolvidos, mas ainda temos muitos desafios pela frente",
diz Nuno Valério, professor do Instituto Superior de Economia
e Gestão, da Universidade Técnica de Lisboa.
A julgar pelo estado de ânimo que se vê nas ruas, nas empresas,
nas escolas e em todos os setores da sociedade portuguesa,
não será difícil vencer esses obstáculos. Uma prova da recuperação
da confiança e da auto-estima é que milhares e milhares de
emigrantes estão começando a voltar para casa. Uma pesquisa
recente entre os 700.000 portugueses que vivem na França mostrou que grande
parte deles pretende retornar para embarcar no comboio de
progresso que está impulsionando o país para o futuro.
|