Edição 1 623 -10/11/1999

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Europa

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lidera as estatísticas de crescimento na Europa

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consumidores com poder
de compra e apetite voraz


Nunca na História do seu país os portugueses viveram tão bem. Desde a era dos descobrimentos, há 500 anos, não tinham tantos motivos de que se orgulhar. E há muito tempo não se sentiam tão europeus. Os sinais de prosperidade são visíveis mesmo antes que se coloquem os pés em Lisboa. Do avião, já se avista a Ponte Vasco da Gama. A imponente construção, de 18 quilômetros sobre o Rio Tejo, é um dos ícones da nova economia portuguesa. Outro símbolo pode ser observado mais abaixo, na margem direita do rio. No local onde se realizou a Expo 98, no ano passado, agora está brotando um bairro inteiramente novo. As novidades ali incluem uma estação de trem de linhas arrojadas, um oceanário, salas de concertos, shoppings, bares, restaurantes e condomínios de apartamentos para a classe média.


PIB PER CAPITA

1987 - 3 400 dólares
1998 - 10 500 dólares

O contraste com Portugal da década de 80 é impressionante. Nos últimos dez anos, a renda per capita dos portugueses triplicou, a venda de automóveis explodiu, o mercado imobiliário floresceu e os investimentos estrangeiros no país dispararam. A economia vive em estado de graça. O desemprego é inexpressivo e a inflação está sob controle. Em Lisboa e no Porto, as duas principais cidades, tratores e guindastes trabalham 24 horas por dia para alimentar o boom da construção civil. Bairros inteiros surgem do nada. Os mapas rodoviários de dois anos atrás estão todos desatualizados por causa da abertura recente de pontes, túneis, viadutos e auto-estradas. É um cenário que as últimas gerações de brasileiros, habituadas a conviver com crise, nunca viram. E que, talvez, nem a próxima geração verá.

FROTA DE
AUTOMÓVEIS

1987 - 2,5 milhões
1998 - 6,0 milhões

Um relatório recente do banco central europeu aponta Portugal como um dos quatro pontos quentes do continente, ao lado de Irlanda, Espanha e Finlândia. Nesses países, a economia cresce sem parar há mais de uma década, e a um ritmo superior à média européia. O produto interno bruto português deve dar um salto de 3,5% neste ano, bem acima do 1,9% do resto da Europa. Só no ano passado, o setor de serviços cresceu nada menos que 72%. Só mesmo em Portugal. Em dez anos, as vendas das 500 maiores empresas portuguesas aumentaram 140%. É uma prova do poder de compra dos novos e vorazes consumidores portugueses.

Philippe Renault
Lisboa: novas luzes se misturam
à
paisagem tradicional

A seguir assim, a riqueza nacional dobra em apenas vinte anos. Com tudo isso, a idéia de que a Europa começa a partir dos Pireneus, um chavão repetido por muitos turistas brasileiros no passado, já não faz o menor sentido. Até mesmo o velho complexo de inferioridade e a autocrítica exacerbada dos portugueses estão se esvaindo. O Nobel de Literatura concedido a José Saramago no ano passado e a Expo 98 deram o ânimo que faltava. Para completar, o país acaba de ganhar o direito a sediar o Euro 2004, o campeonato de futebol europeu. "No passado, tínhamos um sério problema de auto-estima. Felizmente, é uma idéia que está caindo em desuso", diz Manuel Villaverde Cabral, coordenador do Instituto de Ciências Sociais e vice-reitor da Universidade de Lisboa.

INFLAÇÃO ANUAL
(em %)

1984 - 29
1989 - 13
1994 - 5
1999 - 2,5*
(* Previsão)

O que está acontecendo em Portugal é uma combinação única de fatores que levam ao crescimento, a começar por uma circunstância geográfica. O velho e atrasado Portugal de alguns anos atrás tem a sorte de estar situado num continente chamado Europa. E é nesse continente que se realiza hoje uma das mais fascinantes experiências da História recente. Ao todo, quinze países de línguas, culturas, tradições e raízes diferentes estão derrubando suas fronteiras, eliminando suas moedas e abrindo mão de parte das próprias leis e regulamentos para se juntar numa grande comunidade que, a partir de 2002, vai funcionar como uma entidade única, regida por normas e princípios comuns. O euro, a moeda européia, estreou em janeiro passado e hoje já é um sucesso. Por enquanto, serve de referência nas transações bancárias, nos balanços das empresas e na contabilidade dos governos. Dentro de dois anos, vai substituir fisicamente todas as atuais moedas, de modo que quem viajar pela Europa não mais precisará trocar escudos por francos, liras por marcos ou pesetas por xelins.

Graças à moeda única e à disciplina monetária exigida dos países para chegar a ela, a Europa, que até uma década atrás parecia condenada a perder para os Estados Unidos e o Japão a corrida pela hegemonia econômica, hoje está dando a volta por cima. As empresas européias estão cada vez mais competitivas. O consórcio Airbus já vende mais aviões do que a poderosa Boeing americana. A união só foi bem-sucedida porque os países mais ricos – caso de Alemanha, França e Inglaterra – toparam o desafio de financiar os mais pobres, de modo que pudessem recuperar parte do terreno que os separava anos atrás. E poucos países foram tão beneficiados nesse aspecto quanto Portugal. Durante anos, milhões e milhões de dólares da Comunidade Européia jorraram para a economia portuguesa a fundo perdido, na forma de verbas para educação, transporte, saúde, obras de infra-estrutura, preservação do meio ambiente e uma infinidade de outras atividades.

Os méritos, evidentemente, não são apenas da Comunidade Européia. Os portugueses também se convenceram a fazer o dever de casa. E o fizeram direito. Nos últimos anos, o governo cortou o déficit público, fez um gigantesco processo de privatização, desregulamentou a economia e tornou mais flexível a contratação de mão-de-obra. A inflação baixou. O Partido Socialista, do atual primeiro-ministro António Guterres, é uma agremiação de esquerda que, para espanto dos petistas brasileiros, defende a economia de mercado, a privatização e o controle dos gastos governamentais. Nas eleições parlamentares de outubro, Guterres fez uma campanha curiosa. Ele não prometeu aos portugueses mudança alguma de rumo nem melhoria substancial no padrão de vida. Disse simplesmente que manteria as coisas como estavam. Foi reeleito com folgada maioria e saiu das urnas com praticamente carta branca para fazer o que quiser nos próximos cinco anos.

Uma prova de que os portugueses têm méritos inegáveis nessas mudanças é que Espanha e Grécia, outros países que eram muito pobres em comparação aos demais quando entraram no bloco europeu, não obtiveram os mesmos êxitos. Pelo menos não na mesma proporção. As taxas de desemprego na Espanha são altíssimas há anos. Os gregos não só tiveram índices de crescimento da economia inferiores aos dos portugueses como também ficaram de fora do euro. Faltou disciplina monetária. Tudo isso contribuiu para reforçar a credibilidade de Portugal aos olhos dos investidores estrangeiros, que se viram atraídos também pela mão-de-obra mais barata em comparação com a dos outros países europeus. "Hoje, o risco de investir em Portugal é o mesmo que se verifica na França ou na Alemanha", diz Diego Hernando, diretor da BBV Midas, uma corretora de investimentos. Esse cenário, aliado a taxas de juros camaradas, é o que tem permitido a explosão de consumo desde máquinas de lavar roupa e telefones celulares até carros e apartamentos.

A vida está muito mais confortável. Em dez anos, o número de residências com freezer e máquina de lavar roupa dobrou. Carros luxuosos trafegam em estradas modernas em que os pedágios são cobrados por sensores eletrônicos, sem interromper o tráfego. O país, antes sonolento, hoje tem pressa. Levando-se em conta que nos anos 60 apenas a metade das casas em Portugal tinha luz elétrica, a década de 90 é a do milagre português. A quantidade de casas com telefones fixos aumentou 140%. Nada se compara, porém, ao número de telefones celulares. Portugal é o sexto país com maior número desses aparelhos. Há 42 para cada grupo de 100 habitantes, índice proporcionalmente maior do que nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França e na Alemanha. O som dos telefones celulares está por todo lado, em todos os tons e ritmos possíveis – da Nona, de Beethoven, ao samba de breque.

As mudanças não foram apenas do ponto de vista material. Na primeira metade da década de 90, o número de universitários diplomados a cada ano dobrou. Os portugueses, em geral, refinaram suas opiniões a respeito de assuntos que, no passado, eram tratados como tabu. A descriminação das drogas, a liberação do aborto, os direitos dos homossexuais são todos temas do momento em Portugal. Uma prova de que o grau de tolerância aumentou é o número crescente de associações, bares, publicações e eventos voltados para o público gay. A incorporação desses novos valores se deve, em grande parte, à integração de Portugal na Comunidade Européia. "As pessoas pensam da seguinte forma: se os europeus respeitam o direito dos homossexuais, nós, como europeus, também devemos respeitar", diz António de Oliveira Marques, autor de História de Portugal.

O que impressiona em Portugal é a velocidade com que as mudanças se processaram. No começo da década de 70, o sentimento reinante entre os portugueses era de grande pessimismo. Era uma época de incerteza. Depois de quarenta anos de ditadura, o regime salazarista agonizava. As colônias na África lutavam pela independência. Os pilares do império colonial desabavam. Criou-se um vácuo na perspectiva histórica dos portugueses. Haveria saída para um país pequeno e rural, fabricante de produtos de baixa qualidade na periferia da Europa? Para milhares de pessoas, a saída continuou sendo o aeroporto e as estações de trem e ônibus rumo a lugares mais promissores. O clima de desencanto com o futuro era tão acentuado e as oportunidades tão reduzidas que, nas décadas anteriores, nada menos que 4 milhões de portugueses tinham deixado o país.

O progresso de Portugal é incontestável, mas ainda há muita coisa a fazer. O país ainda é um dos mais pobres da Europa. A renda per capita é apenas a metade da média do continente. Embora a mortalidade infantil tenha diminuído, o índice de Portugal continua superior ao da União Européia como um todo. Os portugueses também são os campeões em acidentes e mortes no trânsito e têm uma elevada taxa de analfabetismo, quando comparada à de seus vizinhos. Estima-se que será necessário manter o atual ritmo de crescimento por mais quinze anos, pelo menos, até que se atinja o padrão de vida dos alemães, franceses e ingleses, os primos ricos do continente. "Portugal está diminuindo a distância que o separava dos países mais desenvolvidos, mas ainda temos muitos desafios pela frente", diz Nuno Valério, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade Técnica de Lisboa.

A julgar pelo estado de ânimo que se vê nas ruas, nas empresas, nas escolas e em todos os setores da sociedade portuguesa, não será difícil vencer esses obstáculos. Uma prova da recuperação da confiança e da auto-estima é que milhares e milhares de emigrantes estão começando a voltar para casa. Uma pesquisa recente entre os 700.000 portugueses que vivem na França mostrou que grande parte deles pretende retornar para embarcar no comboio de progresso que está impulsionando o país para o futuro.