|
|
Espanha
Mira na direita
Algoz de Pinochet, o juiz Garzón enquadra
os militares argentinos, mas esquece Fidel e Kadafi
A pretexto de tornar o mundo menor para os ditadores, o
juiz espanhol Baltasar Garzón está armando um
enorme palco para si mesmo. Na semana passada, ele virou o
centro das atenções com a notícia de
que, depois de processar o general chileno Augusto Pinochet,
quer levar a julgamento 98 oficiais argentinos. Garzón
os acusa de crimes de tortura, prisão ilegal e morte
de adversários políticos cometidos durante os
quase dez anos de ditadura militar naquele país. Os
generais argentinos estão a salvo das sanções
do juiz Garzón. Tanto o atual presidente, Carlos Menem,
quanto o presidente eleito, Fernando de la Rúa, já
adiantaram a decisão de não permitir a extradição
dos militares. Transpirou também, na semana passada,
do círculo de assessores de Garzón, a informação
de que já se prepara na Espanha o indiciamento de autoridades
brasileiras acusadas de envolvimento em crimes contra opositores
nos 21 anos do regime militar, iniciado em 1964. Militares
bolivianos, paraguaios e uruguaios seriam os próximos
da lista do justiceiro espanhol.
Como os militares argentinos Jorge Rafael Videla e Emilio
Massera, citados por Garzón na semana passada, os principais
alvos do promotor espanhol se apossaram ilegalmente do poder.
A título de combater insurgentes, quebraram as mais
rudimentares regras da civilização, deixando
que agentes do Estado utilizassem os mesmos métodos
dos terroristas que combatiam: o seqüestro e o assassinato.
Nem mesmo Pinochet nega que tais crimes tenham sido cometidos.
Numa carta enviada no dia 28 de outubro passado ao juiz chileno
Juan Gúzman, o general se coloca à disposição
para ajudar a esclarecer as violações de direitos
humanos no Chile. Não nega os crimes. Limita-se a dizer
que não teve participação neles. O problema
com Garzón, portanto, não é ter escolhido
alvos inocentes. São militares com pesada culpa no
cartório dos direitos humanos. O que enfraquece a causa
de Garzón é o fato de invariavelmente o braço
da Justiça que ele manipula recair sobre um único
tipo de malfeitor, os ditadores de direita da América
do Sul. "A motivação dele é puramente
ideológica e neocolonialista", disse Menem.
Garzón apresentou-se ao mundo há um ano como
o vingador dos massacrados por ditaduras, sejam elas de esquerda,
de direita, religiosas ou laicas, militares ou civis. Só
mira, porém, nos quepes dos direitistas latino-americanos.
Podia começar fazendo o dever em casa, processando
o general Gutiérrez Mallado e Manuel Fraga Iribarne,
envolvidos com a tortura na Guarda Civil dos tempos do generalíssimo
Francisco Franco. Garzón prestaria um grande serviço
à Justiça se tentasse deter Fidel Castro ou
o coronel líbio Muamar Kadafi, ditadores longevos e
em franca atividade. E por que não localizar, processar
e prender os milhares de torturadores, assassinos e seqüestradores
da extinta União Soviética e de seus satélites,
que envelhecem na santa paz do Senhor em seus países
reconduzidos à democracia? A missão de Garzón
ficaria mais clara.
|