Edição 1 623 -10/11/1999

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Espanha

Mira na direita

Algoz de Pinochet, o juiz Garzón enquadra
os militares argentinos, mas esquece Fidel e Kadafi

A pretexto de tornar o mundo menor para os ditadores, o juiz espanhol Baltasar Garzón está armando um enorme palco para si mesmo. Na semana passada, ele virou o centro das atenções com a notícia de que, depois de processar o general chileno Augusto Pinochet, quer levar a julgamento 98 oficiais argentinos. Garzón os acusa de crimes de tortura, prisão ilegal e morte de adversários políticos cometidos durante os quase dez anos de ditadura militar naquele país. Os generais argentinos estão a salvo das sanções do juiz Garzón. Tanto o atual presidente, Carlos Menem, quanto o presidente eleito, Fernando de la Rúa, já adiantaram a decisão de não permitir a extradição dos militares. Transpirou também, na semana passada, do círculo de assessores de Garzón, a informação de que já se prepara na Espanha o indiciamento de autoridades brasileiras acusadas de envolvimento em crimes contra opositores nos 21 anos do regime militar, iniciado em 1964. Militares bolivianos, paraguaios e uruguaios seriam os próximos da lista do justiceiro espanhol.

Como os militares argentinos Jorge Rafael Videla e Emilio Massera, citados por Garzón na semana passada, os principais alvos do promotor espanhol se apossaram ilegalmente do poder. A título de combater insurgentes, quebraram as mais rudimentares regras da civilização, deixando que agentes do Estado utilizassem os mesmos métodos dos terroristas que combatiam: o seqüestro e o assassinato. Nem mesmo Pinochet nega que tais crimes tenham sido cometidos. Numa carta enviada no dia 28 de outubro passado ao juiz chileno Juan Gúzman, o general se coloca à disposição para ajudar a esclarecer as violações de direitos humanos no Chile. Não nega os crimes. Limita-se a dizer que não teve participação neles. O problema com Garzón, portanto, não é ter escolhido alvos inocentes. São militares com pesada culpa no cartório dos direitos humanos. O que enfraquece a causa de Garzón é o fato de invariavelmente o braço da Justiça que ele manipula recair sobre um único tipo de malfeitor, os ditadores de direita da América do Sul. "A motivação dele é puramente ideológica e neocolonialista", disse Menem.

Garzón apresentou-se ao mundo há um ano como o vingador dos massacrados por ditaduras, sejam elas de esquerda, de direita, religiosas ou laicas, militares ou civis. Só mira, porém, nos quepes dos direitistas latino-americanos. Podia começar fazendo o dever em casa, processando o general Gutiérrez Mallado e Manuel Fraga Iribarne, envolvidos com a tortura na Guarda Civil dos tempos do generalíssimo Francisco Franco. Garzón prestaria um grande serviço à Justiça se tentasse deter Fidel Castro ou o coronel líbio Muamar Kadafi, ditadores longevos e em franca atividade. E por que não localizar, processar e prender os milhares de torturadores, assassinos e seqüestradores da extinta União Soviética e de seus satélites, que envelhecem na santa paz do Senhor em seus países reconduzidos à democracia? A missão de Garzón ficaria mais clara.