Edição 1 623 -10/11/1999

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A animação da queda do avião

Mergulho mortal

Avião com 217 a bordo desce
e sobe vertiginosamente
antes de afundar no mar

E se o avião estiver caindo? Não há passageiro que não se tenha feito essa pergunta ao passar por uma situação de turbulência. Imagine-se então o terror entre os ocupantes do vôo 990 da EgyptAir, que mergulhou de nariz em direção ao mar na madrugada do domingo 31, meia hora depois de decolar do Aeroporto JFK, em Nova York, com destino ao Cairo. Nos minutos finais, a aeronave subiu e desceu duas vezes, em velocidade vertiginosa, antes de se quebrar no ar e cair na água aos pedaços. O Boeing 767-300 da companhia egípcia já estava em altitude de cruzeiro, a 10.000 metros, quando começou a montanha-russa. Primeiro, uma queda alucinante, de quase 5.000 metros, em quarenta segundos. Em seguida, deu uma guinada violenta de 60 graus e subiu de novo, recuperando 2.200 metros. Alguns segundos depois viria o mergulho derradeiro, para 3.000 metros da superfície do mar, quando a aeronave se partiu, segundo indícios de radar. Todos os 199 passageiros e dezoito tripulantes morreram.

Nenhum alerta ou pedido de socorro foi recebido pelos controladores de vôo durante a queda. No último contato, a situação era de absoluta normalidade. O que aconteceu nos cinco minutos seguintes, até a queda no mar, é um mistério envolto num enigma que talvez a abertura das duas caixas-pretas ajude a elucidar. Os equipamentos, que registram as informações técnicas do vôo e os diálogos da tripulação dentro da cabine, foram localizados por mergulhadores a uma profundidade de 75 metros e a mais de 100 quilômetros do último trecho de terra firme sobrevoado pelo avião, a ilha de Nantucket, em Massachusetts. O mau tempo e o mar agitado, porém, impediram o resgate dos aparelhos. Barcos da Marinha americana ainda aguardavam, na sexta-feira passada, um momento de calmaria que permitisse a operação.

Durante a semana, foram encontrados apenas pequenos pedaços de fuselagem, além dos costumeiros e trágicos vestígios de vidas bruscamente cortadas: sapatos, passaportes, brinquedos, roupas. Somente um corpo foi resgatado, no mesmo dia do acidente. Os demais provavelmente nunca aparecerão, seja porque foram destroçados pelo impacto com o mar em alta velocidade, seja pela decomposição após vários dias submersos. A situação prolongou a dor e a revolta dos parentes das vítimas, entre eles várias famílias egípcias que viajaram para Nova York na esperança de poder, pelo menos, enterrar seus mortos. Dos passageiros, 131 eram americanos, 62 egípcios, três sírios, dois sudaneses e um chileno. Um quarto dos americanos a bordo eram turistas aposentados rumo a férias no Egito.

Raramente se tem notícia de uma acrobacia aérea involuntária como a realizada pelo vôo 990. As hipóteses sobre o que levou os comandantes a perder o controle do avião acumularam-se quase na mesma velocidade, de atentado a bomba a problemas mecânicos, passando por tentativa de seqüestro. Os governos egípcio e americano insistiram em negar indícios de atentado. Sendo o Egito um país de governo pró-americano, mas conturbado por grupos terroristas muçulmanos cujo alvo favorito são justamente turistas, a suspeita nada tinha de fantasiosa. Mas prevaleceu o bom senso. O FBI, a polícia federal americana, escaldado com os erros do passado, adotou a cautela como palavra de ordem. Em 1996, quando um Boeing da empresa americana TWA caiu no mar também após decolar do Aeroporto de Nova York, os agentes da Polícia Federal teimaram tanto na teoria de terrorismo que entraram em atrito com os investigadores da aviação civil. Só voltaram atrás a partir do momento em que ficou evidente que o avião havia explodido por causa de um vazamento no tanque de combustível. A hipótese de atentado no avião da EgyptAir tornou-se mais remota depois que se revelou o ziguezague desenhado no ar. A explosão de uma bomba teria despedaçado a aeronave imediatamente.

É a estatística, medroso

Estatísticas positivas em geral só funcionam do lado de fora dos aviões para quem sempre sente um friozinho na barriga quando está dentro deles. Mas os números comprovam que a segurança em viagens aéreas é cada vez maior, inclusive no Brasil. Em 1988, com um total de 7.531 aviões, o país registrou 242 acidentes, segundo o Departamento de Aviação Civil, DAC. No ano passado o número foi reduzido a 71, apesar do aumento da frota para 10.587. De janeiro a setembro deste ano, houve 35 acidentes, nenhum com aviões de grande porte. Entre esses aviões, a ocorrência de acidentes com morte para cada milhão de decolagens compara-se à dos países desenvolvidos. Entre 1995 e 1998, a marca foi de 0,64, enquanto Estados Unidos e Canadá mantiveram-se em 0,5.

O desempenho brasileiro surpreende ainda mais no cotejo com as estatísticas planetárias. Os acidentes são notoriamente ligados ao grau de desenvolvimento dos continentes, o que dá à África o trágico título de campeã. Segundo a Flight Safety Foundation, organização formada por companhias de aviação para melhorar a segurança dos vôos, os países de Primeiro Mundo têm 84% do tráfego mundial e apenas 30% dos acidentes graves. Nos subdesenvolvidos, com apenas 16% do movimento, ocorrem 70% dos desastres. Se a redução do perigo parece não se comprovar na prática é apenas porque, com passagens mais baratas mundo afora, há mais aviões no céu.

Outra hipótese foi a abertura, em pleno vôo, do reversor, uma placa metálica que inverte o fluxo de ar na saída da turbina e diminui a velocidade na medida necessária para que o avião pouse. Acionado involuntariamente, o reversor estupora o vôo. A principal pista que levou a essa teoria foi a causa do único acidente mecânico fatal com um modelo 767-300 da Boeing ocorrido na Tailândia em 1991. O reversor de um avião da empresa austríaca Lauda Air abriu durante o vôo e se espatifou, matando 223 pessoas. Um dado reforça a hipótese de defeito no modelo: os dois aviões, da Lauda Air e da EgyptAir, saíram da linha de montagem um em seguida do outro. Essa teoria, porém, também perdeu força. Os registros dos radares indicam que a velocidade do avião não diminuiu durante a queda, como aconteceria caso o reversor tivesse entrado em funcionamento. Ao contrário, a velocidade aumentou até 1.100 quilômetros por hora, uma marca que provoca intensa vibração a ponto de arrancar pedaços da asa e da cauda, deixando o avião incontrolável.

Uma terceira hipótese seria de intervenção externa – um seqüestrador ou maluco que tivesse invadido a cabine de comando. Em julho, um Boeing 747 da All Nippon Airways perdeu altura durante o vôo, chegando a ficar a apenas 300 metros do solo, depois que um maníaco por simuladores de vôo invadiu a cabine, matou o piloto e assumiu os comandos. Ele acabou dominado e o co-piloto retomou o controle para pousar com segurança em Tóquio. Uma ação desse tipo seria comprovada pelos registros das caixas-pretas e o mistério estaria solucionado, o que não vem sendo regra nos grandes acidentes aéreos dos últimos anos. Seis dias depois da queda do avião da EgyptAir, até mesmo os registros dos radares já começavam a ser contestados. Os que têm medo de voar ganham portanto vários elementos para rechear seus pesadelos. Alguns deles não ficam apenas no plano do irracional. Na antevéspera da queda do vôo 990, soube-se que a Boeing, um dia modelo de qualidade da indústria americana, escondeu durante dezenove anos conclusões de seus próprios funcionários sobre as deficiências do tanque de combustível do modelo 747, exatamente a causa da queda do avião da TWA há três anos. E na segunda-feira passada a companhia anunciou o adiamento da entrega de 34 novos aviões de quatro diferentes modelos, após constatar uma possível falha no sistema de vedação das cabines. Junte-se a tudo isso superstições como a do "novo Triângulo das Bermudas" (veja quadro abaixo) – a conclusão é que a navegação marítima está recebendo publicidade gratuita.

 

O novo triângulo

Enquanto as investigações sobre o acidente com o Boeing da EgyptAir demoram, surgem inevitavelmente as teorias que prescindem de comprovação. Num escorregão supersticioso, muita gente vem considerando o Atlântico Norte como um "novo Triângulo das Bermudas". Ao longo de décadas, constatou-se uma grande incidência de naufrágios e quedas de aviões na região do Caribe próximo ao Arquipélago das Bermudas. Estapafúrdias forças de sucção e teorias fantásticas sobre extraterrestres vieram à baila para explicar um fenômeno mais relacionado com o clima e com um dado de rara aceitação, a coincidência.

Na mesma região do acidente da semana passada, ocorreram a queda do 747 da TWA, em 1996, com 230 mortos, e a de um MD-11 da Swissair, em 1998, com 229. Ambos haviam decolado do Aeroporto JFK, em Nova York. Para os que preferem a teoria da maldição da família Kennedy, o círculo se fecha com o acidente, em julho, do monomotor pilotado por John Kennedy Jr., filho do presidente que dá nome ao aeroporto. Morreram ele, a mulher, Carolyn Bessette, e uma cunhada. A explicação mais simples para a concentração de acidentes é que o tráfego aéreo na região é um dos maiores do mundo. Kennedy Jr. entrou na história porque teimou em enfrentar o mau tempo sem saber pilotar muito bem. Trágico, mas prosaico.