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Privatização
"Nós somos pobres"
Antônio Ermírio dispara contra
o governo por ter financiado
empresa estrangeira na privatização
César Nogueira
Miro  |
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Ermírio: interesse contrariado no leilão
da Companhia Tietê
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Antônio Ermírio de Moraes, dono de um império
empresarial e figura constante nas listas dos homens mais
ricos do mundo, é famoso pelo dinheiro que tem e por
dizer o que lhe dá na telha. Sempre que lhe pisam no
calo, Ermírio fala grosso, do alto de seus 5 bilhões
de reais de patrimônio. Na semana passada, o calo dolorido
era a Companhia de Geração Elétrica Tietê,
que foi vendida a uma empresa americana com financiamento
do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social,
o BNDES. Ermírio achou um absurdo e saiu-se com uma
de suas melhores tiradas de indignação: "Nós
somos pobres. Eles são milionários". Aproveitou
para pregar a máxima de que dinheiro do governo só
deve ser usado para financiar empresas brasileiras. A cena
foi curiosa, não só por Ermírio ser a
quintessência do milionário, mas também
porque o ataque partiu de um dos maiores beneficiários
dos cofres do BNDES. Só de 1997 até hoje, o
banco financiou a participação de uma das empresas
de Antônio Ermírio em privatizações
a VBC Energia, na qual ele é sócio do
Bradesco e da Camargo Corrêa em 1,8 bilhão
de reais. Isso equivale a 33% do total de financiamentos do
banco para compras de estatais.
A polêmica levantada pelo empresário tem outros
aspectos interessantes e bem menos abstratos. Antônio
Ermírio reclamou da ação do BNDES porque
ela acabou estragando as suas chances de fazer um ótimo
negócio na privatização da Companhia
Tietê. Depois de analisar as pedras no tabuleiro, a
VBC Energia vislumbrou a possibilidade de levar a empresa
pelo preço mínimo sem enfiar a mão no
bolso, só com o dinheiro do BNDES. Para que isso acontecesse,
no entanto, era preciso que a pedra do BNDES ficasse onde
estava ou seja, que o banco mantivesse a política
de financiar apenas empresas nacionais. Havia outra condição.
Como a VBC só queria um pedaço da estatal, dependia
de uma parceria, que foi negociada com uma empresa estrangeira,
a belga Tractebel. Isso mesmo, uma empresa tão estrangeira
quanto as que Ermírio acusa de querer enfiar a mão
no dinheiro nacional. A coisa ganha ares de comédia
quando se sabe que, num certo momento, para aumentar a dotação
do BNDES ao consórcio de Ermírio, a própria
VBC consultou o banco sobre a possibilidade de estender o
financiamento à sua parceira de fora. "Tenho uma respeitosa
apreciação pela posição do doutor
Antônio. Mas ele deveria estar mais bem informado sobre
os negócios de sua própria empresa", diz o presidente
do BNDES, Andrea Calabi.
Pelo lado do governo, o leilão da Companhia Tietê
também provocou um desencontro entre o discurso e a
prática. Quando assumiu a Pasta do Desenvolvimento,
que, por sua vez, comanda o BNDES, o ministro Alcides Tápias
enfatizou sua determinação de privilegiar as
empresas nacionais. Na hora de pôr o discurso em prática,
no entanto, enroscou-se num problema. Se a regra ficasse valendo,
as empresas estrangeiras não participariam do leilão
e haveria apenas um competidor o consórcio de Ermírio.
A empresa seria vendida pelo preço mínimo e
o governador de São Paulo, Mário Covas, ficaria
com o mico do mau negócio. Para o ministro a situação
teria sido ainda pior do ponto de vista político. Antes
de ir para o ministério, Tápias era executivo
da Camargo Corrêa, sócia de Ermírio na
VBC. Diante do risco de não haver concorrência
no leilão, o governador Covas esperneou, ameaçando
cancelá-lo. Resultado: na última hora, o BNDES
resolveu mudar as regras, para atrair os estrangeiros. No
fim das contas, o governo não conseguiu fazer aquilo
a que se propunha e foi criticado pelo empresário,
embora concordasse em tese com ele. "Ermírio tem razão
quando diz que os recursos do país devem ser colocados
à disposição das empresas nacionais",
diz Tápias. Andrea Calabi arredondou a bola: "Nacional
tem de ser o desenvolvimento, não apenas o dono da
empresa". Ermírio rebate: "Não sou ávido
por dinheiro, mas não está certo mudar as regras
na última hora".
As empresas nacionais acostumaram-se a criticar o BNDES
por não liberar dinheiro para seus projetos. "O banco
tem dado pouca atenção às empresas nacionais",
diz o presidente da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo, Fiesp, Horácio Lafer
Piva. Confrontadas com os números do banco, porém,
essas críticas valem tanto quanto uma gravação
de secretária eletrônica. Segundo o presidente
do BNDES, o banco tem dinheiro de sobra para emprestar
cerca de 18 bilhões de reais. O que falta são
projetos.
Com reportagem de
Eliana Simonetti
O porquê
do bate-boca
As razões pelas quais empresas
nacionais
e estrangeiras brigam para conseguir
empréstimos com o BNDES
Por que nas privatizações
as empresas estrangeiras, que têm crédito
abundante e barato lá fora, vêm pegar dinheiro
no BNDES? A razão principal é minimizar
o chamado "risco Brasil". Caso a saúde de seus
negócios no país seja ameaçada
por mudanças cambiais drásticas ou estatizações
"à Itamar", elas têm um trunfo: podem simplesmente
deixar de pagar o empréstimo. Se tomam dinheiro
lá fora, têm de pagar em quaisquer circunstâncias.
Para as empresas nacionais, o
dinheiro do BNDES é o mais barato disponível
na praça. Os recursos, em sua maior parte, vêm
do Fundo de Amparo ao Trabalhador, FAT. Elas pagam a
taxa de juros de longo prazo, TJLP, que é de
12,5%, mais uma taxa de risco que pode chegar a 4%.
Um empréstimo para capital de giro nos bancos
privados não custa menos que 37% ao ano.
Nenhuma
instituição no Brasil oferece financiamento
por prazos tão longos quanto os do BNDES. Eles
variam, em geral, de cinco a oito anos.
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