Edição 1 623 -10/11/1999

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Privatização

"Nós somos pobres"

Antônio Ermírio dispara contra
o governo por ter financiado
empresa estrangeira na privatização

César Nogueira

Miro

Ermírio: interesse contrariado no leilão da Companhia Tietê


Antônio Ermírio de Moraes, dono de um império empresarial e figura constante nas listas dos homens mais ricos do mundo, é famoso pelo dinheiro que tem e por dizer o que lhe dá na telha. Sempre que lhe pisam no calo, Ermírio fala grosso, do alto de seus 5 bilhões de reais de patrimônio. Na semana passada, o calo dolorido era a Companhia de Geração Elétrica Tietê, que foi vendida a uma empresa americana com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Ermírio achou um absurdo e saiu-se com uma de suas melhores tiradas de indignação: "Nós somos pobres. Eles são milionários". Aproveitou para pregar a máxima de que dinheiro do governo só deve ser usado para financiar empresas brasileiras. A cena foi curiosa, não só por Ermírio ser a quintessência do milionário, mas também porque o ataque partiu de um dos maiores beneficiários dos cofres do BNDES. Só de 1997 até hoje, o banco financiou a participação de uma das empresas de Antônio Ermírio em privatizações – a VBC Energia, na qual ele é sócio do Bradesco e da Camargo Corrêa – em 1,8 bilhão de reais. Isso equivale a 33% do total de financiamentos do banco para compras de estatais.

A polêmica levantada pelo empresário tem outros aspectos interessantes e bem menos abstratos. Antônio Ermírio reclamou da ação do BNDES porque ela acabou estragando as suas chances de fazer um ótimo negócio na privatização da Companhia Tietê. Depois de analisar as pedras no tabuleiro, a VBC Energia vislumbrou a possibilidade de levar a empresa pelo preço mínimo sem enfiar a mão no bolso, só com o dinheiro do BNDES. Para que isso acontecesse, no entanto, era preciso que a pedra do BNDES ficasse onde estava – ou seja, que o banco mantivesse a política de financiar apenas empresas nacionais. Havia outra condição. Como a VBC só queria um pedaço da estatal, dependia de uma parceria, que foi negociada com uma empresa estrangeira, a belga Tractebel. Isso mesmo, uma empresa tão estrangeira quanto as que Ermírio acusa de querer enfiar a mão no dinheiro nacional. A coisa ganha ares de comédia quando se sabe que, num certo momento, para aumentar a dotação do BNDES ao consórcio de Ermírio, a própria VBC consultou o banco sobre a possibilidade de estender o financiamento à sua parceira de fora. "Tenho uma respeitosa apreciação pela posição do doutor Antônio. Mas ele deveria estar mais bem informado sobre os negócios de sua própria empresa", diz o presidente do BNDES, Andrea Calabi.

Pelo lado do governo, o leilão da Companhia Tietê também provocou um desencontro entre o discurso e a prática. Quando assumiu a Pasta do Desenvolvimento, que, por sua vez, comanda o BNDES, o ministro Alcides Tápias enfatizou sua determinação de privilegiar as empresas nacionais. Na hora de pôr o discurso em prática, no entanto, enroscou-se num problema. Se a regra ficasse valendo, as empresas estrangeiras não participariam do leilão e haveria apenas um competidor – o consórcio de Ermírio. A empresa seria vendida pelo preço mínimo e o governador de São Paulo, Mário Covas, ficaria com o mico do mau negócio. Para o ministro a situação teria sido ainda pior do ponto de vista político. Antes de ir para o ministério, Tápias era executivo da Camargo Corrêa, sócia de Ermírio na VBC. Diante do risco de não haver concorrência no leilão, o governador Covas esperneou, ameaçando cancelá-lo. Resultado: na última hora, o BNDES resolveu mudar as regras, para atrair os estrangeiros. No fim das contas, o governo não conseguiu fazer aquilo a que se propunha e foi criticado pelo empresário, embora concordasse em tese com ele. "Ermírio tem razão quando diz que os recursos do país devem ser colocados à disposição das empresas nacionais", diz Tápias. Andrea Calabi arredondou a bola: "Nacional tem de ser o desenvolvimento, não apenas o dono da empresa". Ermírio rebate: "Não sou ávido por dinheiro, mas não está certo mudar as regras na última hora".

As empresas nacionais acostumaram-se a criticar o BNDES por não liberar dinheiro para seus projetos. "O banco tem dado pouca atenção às empresas nacionais", diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp, Horácio Lafer Piva. Confrontadas com os números do banco, porém, essas críticas valem tanto quanto uma gravação de secretária eletrônica. Segundo o presidente do BNDES, o banco tem dinheiro de sobra para emprestar – cerca de 18 bilhões de reais. O que falta são projetos.

Com reportagem de Eliana Simonetti

 

O porquê do bate-boca

As razões pelas quais empresas nacionais
e estrangeiras brigam para conseguir
empréstimos com o BNDES

Por que nas privatizações as empresas estrangeiras, que têm crédito abundante e barato lá fora, vêm pegar dinheiro no BNDES? A razão principal é minimizar o chamado "risco Brasil". Caso a saúde de seus negócios no país seja ameaçada por mudanças cambiais drásticas ou estatizações "à Itamar", elas têm um trunfo: podem simplesmente deixar de pagar o empréstimo. Se tomam dinheiro lá fora, têm de pagar em quaisquer circunstâncias.

Para as empresas nacionais, o dinheiro do BNDES é o mais barato disponível na praça. Os recursos, em sua maior parte, vêm do Fundo de Amparo ao Trabalhador, FAT. Elas pagam a taxa de juros de longo prazo, TJLP, que é de 12,5%, mais uma taxa de risco que pode chegar a 4%. Um empréstimo para capital de giro nos bancos privados não custa menos que 37% ao ano.

Nenhuma instituição no Brasil oferece financiamento por prazos tão longos quanto os do BNDES. Eles variam, em geral, de cinco a oito anos.