Edição 1 623 -10/11/1999

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CPI

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O que a CPI já descobriu

A CPI do barulho

Ela é a sensação do momento,
mas ainda está longe de desvendar
o narcotráfico no país

Alexandre Oltramari e Vladimir Netto

Aos 43 anos, o delegado da Polícia Federal Moroni Torgan, deputado em segundo mandato pelo PFL do Ceará, tem duas obsessões na vida. Uma delas é a Bíblia. A outra é a cocaína. Casado, pai de dois filhos e mórmon fervoroso, Torgan tornou-se o novo xerife do país ao assumir o cargo de comandante-em-chefe da sensação do momento no Brasil: a Comissão Parlamentar de Inquérito do Narcotráfico. Desde abril, quando começou a funcionar, a CPI apresenta um desempenho impressionante. Já pediu, e conseguiu, a prisão de 39 pessoas envolvidas em grupo de extermínio, roubo de cargas e até tráfico de drogas. O sucesso é tanto que, na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou a prorrogação da CPI até abril do ano que vem. No feriado da última terça-feira, enquanto descansava em seu sítio de Ibiúna, em São Paulo, o presidente Fernando Henrique resolveu pegar uma carona na popularidade da comissão. Elogiou o trabalho da CPI e pediu um basta à criminalidade."O Brasil cansou dessa coisa de máfia, de crime organizado, de contrabando e tráfico. Isso é inaceitável", afirmou o presidente. Nesta terça-feira, FHC reúne-se com os integrantes da CPI para discutir formas de o governo ajudar nas investigações.

Ana Araújo

O deputado Moroni Torgan
visita a Baía de Guanabara :
estilo diferente

A CPI do Narcotráfico, de fato, merece ser elogiada, pois ela chamou a atenção para um problema gravíssimo. Quando foi criada, há oito meses, ninguém dava um centavo por ela. Na época, os holofotes estavam voltados para as CPIs do Sistema Financeiro e do Judiciário, que foram definhando, definhando, até cair no esquecimento. A comissão do narcotráfico foi a única que avançou, apesar de ainda não ter chegado perto dos grandes tubarões da droga. Ela cassou o deputado Hildebrando Pascoal, aquele que usava uma motosserra para fatiar suas vítimas, e levou outras 28 pessoas de seu grupo à prisão. Mas, a partir daí, o trabalho da comissão parece ter sido ofuscado pelo brilho dos holofotes. No Maranhão, a CPI concluiu que os deputados estaduais José Gerardo (PPB-MA) e Francisco Caíca (PSD-MA) comandavam uma máfia especializada em roubo de caminhões e de cargas que seriam trocados por cocaína na Bolívia. O autor dessa denúncia é o motorista Jorge Meres, integrante do grupo. Ele disse ter levado 86 caminhões roubados para a Bolívia a mando da quadrilha. Segundo ele, o deputado José Gerardo, o ex-deputado Hildebrando Pascoal, o deputado Augusto Farias (PPB-AL), irmão de PC Farias, assassinado em 1996, e um empresário de São Paulo, William Sozza, são os líderes do bando.

Cadê o pó? – Se as informações de Meres forem verdadeiras, ainda assim a CPI estará longe do que realmente interessa em se tratando de narcotráfico. É possível que essa associação criminosa, com ramificações no Acre, Alagoas, Maranhão e São Paulo, exista de fato. Mas, diante de tudo isso, cabe uma pergunta: onde está a cocaína? Afinal, está-se falando de uma CPI do Narcotráfico. "A CPI não foi criada para apreender droga alguma, mas com o claro objetivo de chegar aos financistas do narcotráfico", explica o deputado Moroni Torgan, relator da CPI, que mantém um arsenal de armas em casa para se proteger das ameaças que vem recebendo. O problema é que, nesse campo, a investigação ainda não decolou. No único caso relevante de tráfico de drogas, envolvendo oficiais da Força Aérea Brasileira, a FAB, quem desarticulou o grupo que carregava 33 quilos de cocaína em um avião do governo para a Espanha foi a Polícia Federal. Com a divulgação do caso, os parlamentares da CPI convocaram os oficiais presos para depor. No meio do interrogatório, um agente da PF passava perguntas por escrito aos deputados da comissão. No caso do ex-deputado Hildebrando Pascoal, que a CPI cassou por quebra de decoro parlamentar, a PF já investigava o assunto havia pelo menos dois anos. O grupo de José Gerardo, do Maranhão, também já vinha sendo investigado pela Secretaria de Segurança do Estado antes de a CPI entrar no caso.

Nada disso significa que a CPI do Narcotráfico seja inútil. Ao contrário. Ao fazer barulho, ela põe na ordem do dia um problema gravíssimo, o narcotráfico. Sem a CPI, o ex-deputado Hildebrando Pascoal, por exemplo, provavelmente não seria cassado. Mas é imprudente que deputados saiam por aí afirmando, antes de acumular elementos consistentes de prova, que uma única e gigantesca organização criminosa, liderada por Pascoal, comandava o narcotráfico em dezesseis Estados do país, como vem sendo noticiado. Se essa quadrilha tem uma organização que supera a do mafioso americano Al Capone, melhor é rastreá-la sem fazer tanto alarde e colocar seus elementos atrás das grades antes que eles possam apagar as pistas que devem ter deixado por aí. Por enquanto, a investigação da CPI aponta a existência de duas quadrilhas, uma no Acre e outra no Maranhão, que mantinham um animado canal de comunicação e recebiam suporte técnico de um empresário paulista para lavar o dinheiro sujo. "Acho que a CPI é boa e tem de ser permanente, mas ainda não pegou nenhum tubarão, nenhum grande capitalista da droga", afirma o general Alberto Cardoso, chefe do Gabinete de segurança institucional do Palácio do Planalto. "Tem de tudo nessa quadrilha. Ladrão de carga, deputado que serrava gente e até um ou outro vendedor de papelote de cocaína", diz um delegado da PF que auxilia a CPI. "Mas narcotraficante graúdo até agora não tem."

Na mira – Na semana passada, os deputados tiveram uma boa oportunidade de chegar mais perto do problema. Um dos maiores traficantes do Rio, conhecido como Fernandinho Beira-Mar, manifestou o desejo de depor à CPI em troca de perdão judicial. Como a CPI não tem poder para anistiá-lo, ele recuou. Ainda assim, os deputados viajaram para o Rio e, na tarde da quarta-feira passada, protagonizaram um espetáculo curioso. Talvez animados com a presença das câmaras de TV, passearam pela Baía de Guanabara, por onde supostamente estaria entrando a droga consumida no Rio. Tiveram de abortar a missão porque havia a suspeita de que eles estavam na mira de traficantes armados. O problema do passeio pela Baía de Guanabara é que um relatório da Polícia Civil carioca indica que 60% da droga que abastece os traficantes cariocas chega ao Rio por via rodoviária. Na quinta-feira, o governador do Rio, Anthony Garotinho, entregou aos deputados da CPI um dossiê sobre o narcotráfico no Estado. O documento tem 400 páginas distribuídas em quatro volumes.

Segundo o governador, o dossiê, preparado nos últimos dez meses pelo serviço de inteligência da polícia fluminense, lista policiais e integrantes do Executivo, Legislativo e Judiciário envolvidos com o tráfico de drogas. A certa altura da visita ao Rio, o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), sub-relator da CPI, embaralhou tudo. Deu uma entrevista no Rio, mas se referia a um caso que apurou no Maranhão e pretendia esclarecer em Campinas. Ele afirmou que o médico-legista Fortunato Badan Palhares, que assinou o laudo da morte de PC Farias, será ouvido pelos deputados quando a CPI for a Campinas, no dia 16, para apurar o envolvimento do empresário William Sozza com a quadrilha. De acordo com o deputado, uma testemunha lhe contou que ouviu dizer que Badan Palhares teria assinado um laudo falso a mando do deputado José Gerardo, aquele acusado de roubar carreta e trocar por pó na Bolívia. O laudo teria sido falsificado para desviar as suspeitas sobre Gerardo num assassinato ocorrido no Maranhão há dez anos. É uma história interessante, mas, da forma como foi apresentada pelo deputado, ela mais confunde do que esclarece. Também foi anunciada batida em endereços de Campinas com muitos dias de antecedência. Assim, o elemento surpresa foi desativado quando circularam os jornais no dia seguinte.

Em meio a toda essa confusão, tem brilhado a estrela de Moroni Torgan, relator da CPI. Torgan foi o idealizador da CPI e é um dos poucos integrantes da comissão que não se deslumbraram com a publicidade do caso. Ele teve uma infância pobre. Foi vendedor ambulante e, quando casou, trabalhava como fiscal de ônibus durante o dia e cursava a faculdade de direito à noite. Em seguida, fez concurso para delegado da Polícia Federal e foi aprovado em terceiro lugar. Trabalhou em Fortaleza, onde era o titular do Departamento de Entorpecentes, e hoje vive entre Brasília e a capital cearense. Religioso, é um sacerdote da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, freqüentada pelos seguidores do mormonismo. A religião inspirou Torgan na hora de batizar os dois filhos, cujos nomes têm origem hebraica. Mesmo acreditando em proteção divina, não descuida de sua segurança. Tem um arsenal de grosso calibre, que inclui um escopeta calibre 12 e uma metralhadora capaz de disparar 900 tiros por minuto. Sua luta contra as drogas vem de longa data. Foi eleito pela primeira vez, em 1990, com o bordão "Não às drogas".

O narcotráfico, que era um problema associado pelos brasileiros a países produtores como a Colômbia, está agora fortemente encravado no Brasil. No mundo, a indústria da droga movimenta algo em torno de 1 trilhão de dólares a cada ano. A questão é particularmente delicada por aqui. Peru, Bolívia e Colômbia, que fazem fronteira com o Brasil, produzem 98% de toda a cocaína vendida no planeta. O governo estima que, no Brasil, o comércio da droga envolva 8 bilhões de dólares, 1% do PIB nacional, o total de bens e serviços produzidos no país. Parece pouco, mas é o bastante para gerar um problema imenso e ainda sem solução. Não há estatísticas confiáveis sobre o consumo de drogas no Brasil, mas sabe-se que ele aumenta a cada dia. Os esforços da polícia, por si só, dão poucos resultados. Droga, como se sabe, é um problema mais de saúde pública do que propriamente de polícia. E, nessa área, o Brasil está apenas engatinhando. As campanhas de prevenção ainda são tímidas. Neste ano, o governo liberou apenas 340.000 reais para o tratamento de dependentes químicos. É muito pouco. E o resultado do que se faz com esse dinheiro parece menos ainda.