Edição 1 623 -10/11/1999

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Paciência, determinação
e raiva para matar

O perfil psicológico de Mateus da Costa Meira, 24 anos, assemelha-se ao dos atiradores que infernizam o cotidiano das pessoas nos Estados Unidos. Um dos maiores estudiosos dos loucos que matam, o professor de psiquiatria e criminologia do Medical College of Wisconsin, George Palermo, enxerga um ponto comum na ação dos desajustados assassinos – o método. "A raiva que eles nutrem contra a sociedade fica armazenada durante anos. Esse tipo de ação pode até parecer impulsiva, mas, na verdade, é o clímax de algo planejado com paciência e determinação", disse Palermo a VEJA.

O psiquiatra já analisou cerca de sessenta casos como o da semana passada no MorumbiShopping, em São Paulo. O paciente mais famoso de Palermo foi Jeffrey Dahmer, o americano que estocava partes dos corpos de suas vítimas no freezer e as devorava aos poucos. "O assassino em massa atribui seu sofrimento aos outros e, por isso, matar para ele é simples, é como dar o troco", explica Palermo.

Um psiquiatra com o treino de Palermo não teria muitas dúvidas de que cedo ou tarde Mateus poderia tornar-se um perigo para a sociedade. Ele tinha um relacionamento frio e distante com os pais. Era irritado, depressivo, autoritário, paranóico e, sobretudo, inteiramente solitário. Mateus nunca teve uma namorada ou amigos nos lugares que freqüentou. Obviamente nem todas as pessoas com o perfil descrito acima se tornam criminosas, mas todos os assassinos em massa estudados por Palermo têm aquelas características. Somem-se a elas o uso de drogas pesadas e o acesso a armas de fogo e obtém-se, com boa dose de certeza, um criminoso. "Quem deu azar de estar naquela sala de cinema se tornou símbolo de tudo o que Mateus desprezava", descreve George Palermo. "Embora os pais o tratassem com carinho, ele os olhava com indiferença", atesta o psiquiatra José Cássio do Nascimento Pitta, que acompanhava o rapaz havia pouco mais de um mês.
Almeida Rocha/Folha Imagem
Pitta: indiferença
com os pais

Nos Estados Unidos, 80% dos assassinos em massa cometem suicídio no local da tragédia. Exatamente como Mateus, os que não se matam se rendem docilmente à polícia. Apresentam-se apáticos e não entendem a indignação dos parentes das vítimas. O perfil sociológico levantado pelo psiquiatra Palermo mostra que os assassinos em massa são, em geral, homens, de 25 a 40 anos (Mateus tem 24). Um dado que o aproxima ainda mais do perfil dos assassinos americanos já esquadrinhado por especialistas é o uso de drogas – em especial a cocaína. Apesar de não ser a responsável direta por explosões de violência, ela potencializa quadros psicóticos semelhantes ao de Mateus. "Uma hipótese razoável é que ele tenha um transtorno de personalidade esquizóide, distúrbio bastante conhecido", diz o psiquiatra forense José Geraldo Taborda, da Associação Mundial de Psiquiatria. Portadores desse transtorno são pessoas introvertidas, que as outras acham estranhas e que, como característica básica, não desenvolveram a habilidade mínima de se comunicar com os outros. Sob o efeito da droga, essas pessoas são como vulcões prontos para entrar em erupção.

Foi justamente a droga que levou Mateus ao consultório de um psiquiatra em setembro. A mãe ficou preocupada ao saber que o filho espatifara o carro, um Chrysler Neon. Ele voltava de um torneio esportivo para estudantes de medicina em Barra Bonita, no interior paulista. No evento, ao qual compareceu apenas como espectador, consumiu álcool e cocaína. Quando soube do episódio, a mãe de Mateus ligou para o psiquiatra pela primeira vez. Ele se convenceu da gravidade do problema do rapaz. Prescreveu um antipsicótico e recomendou que seus passos fossem vigiados 24 horas. Mateus abandonou o medicamento por sete dias seguidos. Foi vigiado por apenas alguns dias. "A ausência do remédio favoreceu o reaparecimento dos sintomas psíquicos que conduzem a um ato violento", afirma Pitta.

Usuários de drogas não são matadores potenciais. A maioria dos doentes mentais, mais de 80%, segundo o psiquiatra Wagner Gattaz, também não é violenta. O problema surge quando se misturam as duas condições. Na opinião do psiquiatra forense Talvane Marins de Moraes, da Associação Brasileira de Psiquiatria, a agressividade tem vida própria na personalidade das pessoas. A droga seria apenas a porta pela qual ela escaparia. O uso continuado ou em combinação com o álcool pode desencadear o chamado delírio paranóico: um distúrbio da percepção no qual a pessoa ouve vozes e vê coisas imaginárias. Mateus obedeceu a um longo ritual de preparação para a hora H. Deixou seu apartamento, hospedou-se num hotel, negociou a compra da submetralhadora e, preocupado em manter a boa aparência no momento em que faria os disparos, levou o ferro de passar roupa ao quarto. Alisou pacientemente a camiseta. Psiquiatras não vêem incompatibilidade entre a loucura e a premeditação de um crime. "O psicótico vai se retraindo, o delírio vai crescendo, as idéias vão se sucedendo", relata o psiquiatra José Alberto Del Porto, da Universidade Federal de São Paulo.

Cristina Poles e Sandra Boccia