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O horror fora da tela
Estudante de medicina dispara
metralhadora, mata três pessoas
e fere cinco num cinema de shopping
Maurício Lima e Rosana Zakabi
Mário Rodrigues
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A polícia achou 300 cartuchos,
37 saquinhos de cocaína
e três bilhetes na casa
de Mateus, como o que
está acima
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Era só o que faltava. Na semana passada, o Brasil se
horrorizou com a chegada por aqui de um tipo de crime até
então inédito no país e que já se
tornou uma das grandes preocupações da polícia
dos Estados Unidos: o assassinato em massa. Diferentemente do
que ocorre nas chacinas, em geral motivadas por vingança
ou acerto de contas, e nos assassinatos em série, feitos
secretamente, com intervalos de meses ou até anos entre
um e outro, o homicida por atacado age em público, movido
pela própria paranóia, e tenta fazer o maior número
de vítimas possível. Foi exatamente isso o que
aconteceu na noite de quarta-feira numa das salas de cinema
do MorumbiShopping, em São Paulo, onde o estudante de
medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos, descarregou um pente
de submetralhadora na platéia, matando três pessoas
e ferindo outras cinco.
As 28 pessoas que assistiam à última sessão
do filme Clube da Luta viveram um terror que lhes parecia
interminável. Mais tarde, Meira diria que há
sete anos vem pensando em cometer um crime assim. Marcado
por uma personalidade esquizóide e muito introvertido,
o estudante criou as condições ideais para realizar
sua obsessão. Há pelo menos dois meses vinha
consumindo cocaína e desde o final de outubro deixou
de tomar o medicamento Zyprexa, antipsicótico usado
para diminuir sintomas de delírios, alucinações,
irritabilidade e agressividade (veja
quadro).
Meira já tinha até uma pistola 380 para fazer
seu massacre. Mas acabou optando por outra arma. O estudante,
então, encomendou a um traficante de drogas um artefato
mais pesado, uma submetralhadora americana Cobray M-11/9 calibre
9 milímetros. Ficou eufórico na manhã
de terça-feira ao saber que a arma havia chegado. Agiu
meticulosamente. Às 17h10, hospedou-se no quarto 915
do Príncipe Hotel, um três-estrelas localizado
na Avenida São João, no centro da capital paulista.
A diária, de 66 reais, dava direito a televisão,
ar-condicionado, telefone e frigobar. À noite, saiu
para dar uma volta e retornou menos de uma hora depois. Pediu
um filé grelhado ao serviço de quarto. Na tarde
do dia seguinte, encontrou-se com o mecânico Marcos
Paulo Almeida Santos para pegar a submetralhadora que encomendara.
Pagou 5.000 reais, entregou sua
pistola 380 e voltou para o hotel. Minutos depois, saiu sem
fechar a conta, levando apenas uma mochila nas costas. Tomou
um táxi, rumo ao MorumbiShopping local onde, acreditava,
poderia cometer o crime sem levantar suspeitas, já
que estava bem longe de casa e dificilmente alguém
o reconheceria por ali.
Chegou ao shopping por volta das 9h15 da noite e desceu
ao piso lazer, passou pela praça de alimentação
e entrou no banheiro masculino. Olhou para o segurança
particular Hernandes Correia e disse: "Você toma anabolizante,
isso é droga e vai te matar. Sou médico e sei
o que é isso". Os dois começaram a discutir.
Correia saiu, procurou um segurança do shopping e avisou
que havia uma pessoa alterada lá dentro. Enquanto isso,
Meira já se dirigia ao cinema. Chegou à bilheteria
e comprou um ingresso para a sala 5. Cinqüenta e cinco
minutos antes de sua entrada já havia começado
a projeção de Clube da Luta, de David
Fincher filme estrelado pelo ator americano Brad Pitt.
A fita retrata a vida de alguns homens desajustados, que montam
uma organização clandestina na qual parecem
reencontrar a própria virilidade trocando socos e pontapés.
Meira disse ter escolhido o filme por saber do que se tratava,
mas garante não ter assistido a ele antes.
Antonio Milena
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Fabiana Freitas: dois
tiros no tórax |
Quinze minutos mais tarde, Meira levantou-se e foi ao banheiro
do cinema. Olhou para o espelho. Parou. Abriu a bolsa e tirou
a submetralhadora e a carregou. Mirou para a sua própria
imagem e disparou. O espelho permaneceu inteiro na parede, com
um furo de bala e todo estilhaçado. A arma estava no
modo intermitente, isto é, dava um tiro de cada vez.
O estudante não conseguiu regulá-la para que os
tiros saíssem em rajadas. Voltou à sala e parou
perto da tela. Como contaria depois, não sabia o que
fazer. "Pensei: e agora? Para onde atiro?" Disparou para cima.
"Nessa hora, acreditei que fosse uma pegadinha, como as do Silvio
Santos ou do Faustão", conta o estudante de direito Miguel
Beltran Neto, 20 anos, que estava na platéia. Meira andou
cerca de 3 metros e atirou contra a parede oposta. Entre os
28 espectadores da fita, estavam a fotógrafa Fabiana
Lobão de Freitas e seu namorado, o produtor de cinema
Carlos Eduardo de Oliveira, ambos de 25 anos. Não era
a primeira vez que eles assistiam ao filme. Decidiram revê-lo
para acompanhar o amigo e sócio, José Eduardo
Alexandre da Silva. "Olhei para meu amigo e disse, desesperada,
que tinha alguém atirando e não era do filme",
conta a engenheira agrônoma Andrea Cury Lang, 28 anos.
Reprodução
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Júlio Zemaitis:
alvejado na cabeça |
O maníaco olhou para eles e começou a alvejá-los.
Andrea jogou-se no chão, tentou sair engatinhando,
mas foi atingida na coxa direita. Beltran Neto, que estava
na terceira fileira, viu sangue em sua calça. Olhou
para o lado e Fabiana estava caída morreu na
hora, com duas perfurações no tórax.
O namorado, Oliveira, havia se atirado sobre ela, tentando
protegê-la, e acabou ferido no braço e no pé
direito. Beltran Neto voltou-se para o outro lado e viu o
analista de sistemas Júlio Maurício Zemaitis,
28 anos, banhado em sangue. A bala havia perfurado uma das
lentes dos óculos do rapaz e atravessado a cabeça.
A morte dele foi confirmada na madrugada de quinta-feira,
na Santa Casa. No início da noite de sexta-feira, outra
vítima, a publicitária Herme Luiza Jatobá
Vadasz, 44, morreu no Hospital Albert Einstein.
Moacyr Lopes
Junior/Folha Imagem
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Marcelo Santa
Rosa/Folha Imagem
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O
desespero
dos parentes no enterro de Fabiana
e o velório de Júlio (à direita) |
Ao todo, oito pessoas foram atingidas pela maior parte dos
tiros disparados. O perito Heitor Bacchi Júnior contou
quinze tiros na área de maior concentração
de espectadores, entre a quarta e a sétima fileiras.
Bacchi calcula que tenham sido disparados 22 tiros no total.
Segundo ele, foram dezenove perfurações em doze
poltronas. Meira só parou de atirar quando acabou a
munição e aparentemente se atrapalhou com a
arma. Aproveitando esse momento de distração,
um grupo de espectadores avançou contra o estudante.
Atônito, ele não ofereceu resistência.
Os seguranças do shopping chegaram a tempo de evitar
o linchamento do rapaz, que, pouco depois, foi levado à
Delegacia Seccional Sul, no Brooklin.
Lá, contou que ouvia vozes ameaçando-o e sentia-se
perseguido em seu apartamento, motivo que o teria levado a
se hospedar no hotel na tarde de terça-feira. Em sua
residência, a polícia encontrou mais de 300 cápsulas
de submetralhadora, quatro papelotes com aproximadamente 1
grama de cocaína cada um e 33 pacotes vazios. Também
havia vestígios de crack.
Mario Rodrigues
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O delegado Olavo
Francisco: prisão
em menos de 24 horas
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O estudante confirmou que usava drogas constantemente e
as comprava do mecânico Marcos Paulo Almeida Santos,
o mesmo que lhe vendeu a submetralhadora, preso na madrugada
de quinta-feira. Segundo o delegado seccional Olavo Reino
Francisco, ele deve ser indiciado como co-autor do crime.
O país inteiro passou a semana discutindo as razões
que levaram Meira a cometer tal insanidade. Brotaram explicações
psicológicas e psiquiátricas de todos os tipos
para o comportamento do estudante. Não faltaram nem
mesmo as habituais menções à influência
dos filmes violentos, como se as pessoas que assistissem a
esses filmes saíssem sempre atirando na multidão.
Houve até especulações sobre a responsabilidade
do shopping pela segurança de seus freqüentadores
o que é um absurdo. "Não dá para
evitar", diz Cláudio Sallum, superintendente do MorumbiShopping.
"Isso só seria possível se as pessoas estivessem
dispostas a ser revistadas, o que não é o caso."
Talvez a melhor maneira de descobrir por que Meira fez o que
fez seja examinar sua vida. Ele nasceu em Salvador, na Bahia,
numa família de classe média alta. Seus pais,
Deolino Vanderlei Meira, 61 anos, e Alina da Costa Meira,
57, vivem num amplo apartamento de quatro quartos com piscina,
quadra poliesportiva, sauna, localizado no charmoso bairro
do Chame-Chame. Deolino é um médico oftalmologista
de renome na capital baiana. Meira e a irmã Ana Emília
Meira, 21 anos, sempre tiveram de tudo. Estudaram em bons
colégios particulares e até hoje Meira recebia
uma mesada de 800 reais. A vida, portanto, era de padrão
muito bom. Mas o rapaz sempre foi um desajustado. Na infância,
foi submetido a tratamento psiquiátrico. Nunca teve
um relacionamento muito afetuoso com os pais. Às vezes
tinha alguns bate-bocas fortes e a decisão de morar
em São Paulo foi encarada por todos como uma boa solução.
Nos seus seis anos de São Paulo, Meira não
cultivou uma amizade sequer. Nunca foi visto com namorada.
Quando andava pelos corredores da Santa Casa de Misericórdia,
onde cursava o 6º ano de medicina, mantinha sempre o
olhar baixo. Nunca foi a um churrasco de turma ou a uma festinha
de faculdade. Não freqüentava a lanchonete da
Santa Casa, a Toca, onde os alunos costumam bater papo e namorar.
Todas as vezes em que um grupo maior se formava e as piadas
começavam, ele saía sorrateiramente de cena.
Quando o chamavam de "baiano", abandonava o lugar imediatamente
e emudecia durante dias. No 1º ano, foi um estudante
excepcional. Suas notas estavam entre as melhores da turma.
No 2º, foi apenas um bom aluno. No 3º, medíocre.
Ele repetiu o 4º ano, fez apenas uma matéria no
5º e no 6º. Na semana que vem, participaria da formatura
de sua turma no Esporte Clube Pinheiros, clube tradicional
de São Paulo. "Caso não tivesse provocado essa
tragédia, ele dificilmente seria lembrado. Tinha uma
atuação apática", diz o professor Ivan
Pistelli.
Na Santa Casa, poucos alunos gostam de dar plantão
aos sábados e domingos ou em horários noturnos.
Mas Meira oficializou essa opinião para os professores.
Ele chegava a pagar para alguns alunos cumprirem o plantão
por ele. Quando foi descoberto, encaminharam-no a um centro
de apoio psiquiátrico da universidade. Ele compareceu
a uma consulta com a doutora Patrícia Belloddi e se
dizia revoltado com a punição. Foi então
encaminhado ao psiquiatra José Cássio do Nascimento
Pitta, que se apressou em agendar uma consulta e abriu um
horário extra para atender a mãe dele. Ao final
do encontro, Pitta ficou convencido de que ele precisava iniciar
o tratamento imediatamente. Como ia viajar, recomendou o jovem
à sua colega, a psiquiatra Luciana Sarin. Dias depois,
Meira piorou e a médica decidiu interná-lo na
Clínica Psiquiátrica Parque Julieta, na Granja
Julieta, bairro nobre de São Paulo, à revelia
do paciente. Quando Pitta voltou de viagem, encontrou-o quieto
e retraído, depois de sete dias de internação.
Ele não mais apresentava os sintomas de irritabilidade
e agitação que demonstrara antes.
Foi então que o psiquiatra ouviu da voz pausada e
monocórdia de Meira relatos sobre alguns acontecimentos
de sua vida. "Ele não chorou e conseguiu durante todo
o tempo expor suas idéias de forma clara e precisa",
conta Pitta. Ficou marcada uma nova visita à clínica
para o dia 19 de outubro, uma terça-feira. Na época,
o pai de Meira estava em São Paulo acompanhando o tratamento
do filho. A sua permanência na cidade, ao lado do estudante,
foi a condição imposta pelo psiquiatra para
dar alta. Meira alegava que queria retomar os estudos. Dois
dias depois, na quinta-feira, o pai de Meira ligou para o
psiquiatra e disse que ele retomara as atividades normais
na escola e dormia bem. Um bom sinal, já que a insônia
era freqüente. Mas o pior ainda estava por acontecer.
Uma semana mais tarde, o pai de Meira levou-o ao consultório
de Pitta. "Ele me disse que tinha assuntos urgentes a resolver
em Salvador e viajaria naquele mesmo dia", relata o médico.
No dia seguinte, Meira interrompeu a medicação
e passou a ser dono de seu destino. Não voltou mais
ao consultório do psiquiatra.
Meira morava sozinho. Não recebia ninguém
em seu apartamento. Costumava não atender ao interfone
nem à porta, mesmo estando dentro de casa. Segundo
seus vizinhos, tinha um comportamento muito estranho. Por
duas ocasiões, quebrou o vidro da porta de entrada
com a cabeça. Numa madrugada, irrompeu na casa do zelador,
batendo na porta e dizendo que queria a chave da caixa de
luz porque a voz que o perseguia estava lá dentro.
Chegou a ameaçar o zelador. Meira estava devendo dois
meses de condomínio. "O cara fechava a porta do elevador
rápido para não subir com ninguém. Era
um bicho do mato", diz Fernando Davi, 21 anos, morador do
prédio. Era um aficionado de jogos de estratégia,
como War, e de memória, como Master.
O garoto calado e sem amigos era também um pirata da
informática. Em seu apartamento foram apreendidos quatro
computadores e mais de 1.000 CDs
virgens que usava para copiar softwares. Na verdade, ele mantinha
em casa uma empresa virtual, fantasma, com endereço
na internet e cadastrada com dados falsos. Em 1997 foi procurado
pela polícia, mas nem chegou a ser processado por crime
de pirataria. Sabe-se, porém, que parte do dinheiro
que empregou na compra da arma foi obtida com a venda desses
CDs. Uma empresa provedora de internet chegou a reclamar com
seu pai porque ele enviava mensagens pornográficas
por e-mail para centenas de pessoas.
Na última sexta-feira Meira recebeu a reportagem
de VEJA para uma entrevista na sala de testemunhas. Bastante
arredio e confuso, quis interromper a conversa algumas vezes.
Durante o tempo todo, não olhava nos olhos, expressava-se
com monossílabos e tinha voz pastosa. Não demonstrava
nenhuma emoção. "Sei que outros pais perderam
seus filhos, mas eu sei que meu filho fez isso porque está
fora de si", lamentou o pai, Deolino. Ao chegar à delegacia,
onde o filho estava preso, perguntou como ele estava. O rapaz
disse que estava tudo bem. E só. Não se abraçaram.
Depois conversaram pouco. Mas muito pouco.
"Estão colocando esse cara como doente, mas ele é
um monstro, um assassino cruel e tem de pagar por isso", indigna-se
o músico Orlando Moraes, amigo de Herme, uma das vítimas
fatais. Um crime de homicídio doloso pode ser punido
com até trinta anos de prisão. Meira cometeu
três. A punição por lesão corporal
de natureza grave é de dois a oito anos (o estudante
deixou cinco pessoas feridas). Na teoria, a pena para ele
poderia chegar a 130 anos de cadeia dos quais não
cumpriria mais que trinta anos, o máximo previsto no
Código Penal. Na prática, porém, a grande
discussão jurídica será em torno de seu
estado de inimputabilidade no momento em que cometia o crime.
Em outras palavras, estará em pauta se ele tinha condições
ou não de compreender o caráter de sua conduta
quando disparava contra a platéia do cinema. Pode-se
discutir que Meira tenha problemas psíquicos, mas ele
não é nenhum louco varrido. Afinal, alguém
que está no 6º ano de uma conceituada faculdade
de medicina não se enquadra naquele tipo de louco que
sai por aí rasgando dinheiro na rua.
Um laudo preparado a pedido da Justiça será
o principal documento do processo. Se for considerado inimputável
por esse documento, ou seja, incapaz de compreender seus atos,
ele será encaminhado a um hospital psiquiátrico.
Caso seja considerado semi-imputável, situação
em que a pessoa tem capacidade reduzida de entendimento, será
julgado normalmente e sua pena final poderá ser reduzida
de um a dois terços. "É como se ele soubesse
que aquilo não é certo, mas sem exata noção
do que estava acontecendo", explica o advogado Luiz Flávio
Borges D'Urso, presidente da Associação Brasileira
dos Advogados Criminalistas. Outro exame que pode decidir
a sorte do rapaz é o toxicológico, requerido
pelo delegado que comanda as investigações.
Caso seja constatado o uso de entorpecentes, será avaliada
a possibilidade de Meira ter consumido drogas para tomar coragem
para praticar o crime. "Nesse caso, ele não está
isento de responsabilidade, mesmo se tiver alguma doença,
pois é um indicador de que o crime foi premeditado",
afirma D'Urso.
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