Edição 1 623 -10/11/1999

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Eu, você e o pobre

Ilustração Pepe Casals


Cinco médicos mataram o filho de uma amiga minha. Ele tinha 2 anos de idade. Começou a passar mal numa véspera de feriado. A minha amiga telefonou inúmeras vezes para o pediatra de seu filho, mas ele tinha aproveitado a folga para viajar, esquecendo-se do bip. O médico encarregado de atender os pacientes durante a sua ausência também desapareceu. Como a criança continuava a piorar, a minha amiga decidiu levá-la ao pronto-socorro, onde três médicos diagnosticaram as mais variadas doenças antes de descobrir que era meningite. Tarde demais. O filho da minha amiga morreu. Ela suspeita que isso seja comum. Que os casos de negligência médica cresçam enormemente durante os feriados. Alguém já investigou o fato? Por acaso o Ministério da Saúde tem algum dado? Todo mundo sabe que, nos feriados, aumenta o número de vítimas de acidentes de trânsito, de homicídios, de suicídios. Nada impede que os mortos por negligência médica também aumentem. Vale a pena fazer uma sindicância. E vale a pena abolir três ou quatro feriados do nosso calendário.

Claro que o pediatra do filho da minha amiga era particular. Custava caro. Nunca lhe deu um recibo. O pronto-socorro em que a criança foi atendida também era particular. Pronto-socorro de gente rica. Esse talvez seja o maior equívoco em torno da sociedade brasileira: o de que os ricos podem manter o subdesenvolvimento fora de casa, erguendo uma barreira que, de certa maneira, os mantém incontaminados. Problemas de saúde? Paga-se o médico particular e um seguro que garanta atendimento de emergência com helicóptero. Problemas com a delinqüência urbana? Compra-se um carro blindado e contrata-se uma empresa de vigilância. Problemas escolares? Coloca-se o filho na escola que cobra 1.000 reais por mês. Problemas com a estabilidade financeira do país? Remete-se todo o dinheiro para um paraíso fiscal. Tudo parece sob controle. Tudo parece entrar nos eixos. Até o dia em que irrompe o mais torpe subdesenvolvimento, arruinando a sua vida.

Foi o que aconteceu à minha amiga. Os cinco médicos de seu filho eram particulares, mas o descaso e o sentimento de impunidade com que agiram pertencem a um mundo primitivo, selvagem, idêntico ao que atinge os menores da Febem. Da mesma forma, pode-se tentar combater a pequena delinqüência, mas sempre aparece um grande delinqüente que causa mais prejuízos do que todos os pequenos juntos. Pode-se colocar o filho na melhor escola disponível, mas ele vai crescer ouvindo analfabetos na TV, no rádio. No Brasil vive-se num apartheid, em que os pobres têm todas as desvantagens e os ricos poucos dos benefícios. Existe um problema cultural. O problema de entender que a miséria é furtiva, que permeia todas as coisas, que é impossível isolá-la ou esterilizá-la. Enquanto não se resolve esse problema, espero que, ao menos, sejam processados os cinco médicos que mataram o filho da minha amiga.