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Eu, você e o pobre
Ilustração Pepe Casals
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Cinco médicos mataram o filho de uma amiga minha. Ele tinha
2 anos de idade. Começou a passar mal numa véspera
de feriado. A minha amiga telefonou inúmeras vezes para o
pediatra de seu filho, mas ele tinha aproveitado a folga para viajar,
esquecendo-se do bip. O médico encarregado de atender os
pacientes durante a sua ausência também desapareceu.
Como a criança continuava a piorar, a minha amiga decidiu
levá-la ao pronto-socorro, onde três médicos
diagnosticaram as mais variadas doenças antes de descobrir
que era meningite. Tarde demais. O filho da minha amiga morreu.
Ela suspeita que isso seja comum. Que os casos de negligência
médica cresçam enormemente durante os feriados. Alguém
já investigou o fato? Por acaso o Ministério da Saúde
tem algum dado? Todo mundo sabe que, nos feriados, aumenta o número
de vítimas de acidentes de trânsito, de homicídios,
de suicídios. Nada impede que os mortos por negligência
médica também aumentem. Vale a pena fazer uma sindicância.
E vale a pena abolir três ou quatro feriados do nosso calendário.
Claro que o pediatra do filho da minha amiga era particular. Custava
caro. Nunca lhe deu um recibo. O pronto-socorro em que a criança
foi atendida também era particular. Pronto-socorro de gente
rica. Esse talvez seja o maior equívoco em torno da sociedade
brasileira: o de que os ricos podem manter o subdesenvolvimento
fora de casa, erguendo uma barreira que, de certa maneira, os mantém
incontaminados. Problemas de saúde? Paga-se o médico
particular e um seguro que garanta atendimento de emergência
com helicóptero. Problemas com a delinqüência
urbana? Compra-se um carro blindado e contrata-se uma empresa de
vigilância. Problemas escolares? Coloca-se o filho na escola
que cobra 1.000 reais por mês.
Problemas com a estabilidade financeira do país? Remete-se
todo o dinheiro para um paraíso fiscal. Tudo parece sob controle.
Tudo parece entrar nos eixos. Até o dia em que irrompe o
mais torpe subdesenvolvimento, arruinando a sua vida.
Foi o que aconteceu à minha amiga. Os cinco médicos
de seu filho eram particulares, mas o descaso e o sentimento de
impunidade com que agiram pertencem a um mundo primitivo, selvagem,
idêntico ao que atinge os menores da Febem. Da mesma forma,
pode-se tentar combater a pequena delinqüência, mas sempre
aparece um grande delinqüente que causa mais prejuízos
do que todos os pequenos juntos. Pode-se colocar o filho na melhor
escola disponível, mas ele vai crescer ouvindo analfabetos
na TV, no rádio. No Brasil vive-se num apartheid, em que
os pobres têm todas as desvantagens e os ricos poucos dos
benefícios. Existe um problema cultural. O problema de entender
que a miséria é furtiva, que permeia todas as coisas,
que é impossível isolá-la ou esterilizá-la.
Enquanto não se resolve esse problema, espero que, ao menos,
sejam processados os cinco médicos que mataram o filho da
minha amiga.
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