Edição 1 623 -10/11/1999

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Lições da tragédia

O empresário diz que é cedo para comparar
a queda do Fokker da TAM com a do jato
da EgyptAir e conta por que não paga as viúvas

Ricardo Galuppo

"A frota mundial aumenta a cada ano. É esperado que a quantidade de acidentes cresça."

Paulo Fridman


O acidente com o Boieng 767 da EgyptAir, que caiu pouco depois de decolar do aeroporto de Nova York na semana passada, despertou uma curiosidade especial nos brasileiros. Entre as primeiras especulações sobre a causa do acidente estava a possibilidade da abertura em pleno vôo do reversor de um dos motores do avião. O mau funcionamento desse dispositivo, um freio aerodinâmico que só deve abrir no momento do pouso, derrubou o Fokker 100 da TAM três anos atrás, numa tragédia que fez 99 vítimas, entre passageiros, tripulantes e pessoas atingidas no solo. Outra coincidência une os dois desastres. O Boeing da EgyptAir caiu no dia em que se completavam três anos da queda do avião da TAM, uma data marcada pela publicação nos jornais de anúncios em que as famílias das vítimas exigiam "justiça e reparação". Na semana passada, o presidente da TAM, Rolim Amaro, recebeu VEJA para falar das coincidências entre os dois acidentes, para explicar por que não paga o que as famílias estão pedindo e para discutir o momento da aviação comercial brasileira.

Veja – Há indícios de que a causa da queda do Boeing 767 da EgyptAir pode ter sido um problema no reversor da turbina, o mesmo dispositivo que falhou na queda do Fokker 100 da TAM, há três anos. Haveria alguma relação entre os dois acidentes?

Amaro – Em matéria de acidente aéreo é um erro levantar especulações e estabelecer hipóteses. Com base no que se sabe até agora, é muito pouco provável que haja alguma relação. Os sistemas de comando dos reversores dos jatos construídos pela Boeing e dos aviões da Fokker são diferentes. A localização dos motores não é a mesma. O momento do acidente também foi outro. Nosso avião teve o problema no instante da decolagem. O do Boeing da EgyptAir, meia hora depois de deixar o aeroporto. Houve o caso de um Boeing 767 da Lauda Air que caiu em 1991 na Tailândia, e a causa provável do acidente foi a abertura do reversor em vôo. O que mostra minha experiência, adquirida da pior forma possível, é que na aviação não há dois acidentes iguais. Cada caso é único e exige uma apuração detalhada, e cada apuração pode demorar anos. É preciso esperar a conclusão das investigações sobre esse acidente nos Estados Unidos antes de fazer comparações.

Veja – Por que o número de desastres aéreos tem aumentado tanto?

Amaro – Daqui por diante, veremos cada vez mais acidentes freqüentar as páginas dos jornais. A frota mundial aumenta ano a ano e é natural que a quantidade absoluta de acidentes também aumente. E mais: os aviões estão cada vez maiores. Na década de 60, os aparelhos tinham em média sessenta lugares. Nos anos 70, essa média subiu para oitenta assentos. Na década seguinte, foi para 100 e agora está em 160. Ou seja, há mais acidentes com aviões maiores. Mesmo assim, as estatísticas de segurança vêm melhorando. Se tivéssemos o tráfego de hoje e as condições de segurança de dez anos atrás, o número de acidentes seria dez vezes maior. O importante é que todo acidente provoca uma reação dos fabricantes, das companhias de aviação e dos governos. E isso sempre leva à solução de algum problema.

Veja – O acidente com o vôo 402 acaba de completar o terceiro aniversário. Por que a TAM não paga as indenizações às viúvas das vítimas?

Amaro – Há um grande e complicado cenário em torno dessa questão. Ele é composto de aspectos jurídicos, das relações entre as seguradoras e, finalmente, de problemas relacionados com as famílias de algumas das vítimas. Além disso, não temos condição de atribuir valor a uma vida humana. Propusemos um acordo, mas muitas famílias não o aceitaram. Nesses casos, temos de esperar pela decisão da Justiça. A segunda dificuldade decorre de problemas que existem dentro das próprias famílias. A questão, em alguns casos, é definir a quem pagar. Havia vítimas no avião que estavam no segundo ou no terceiro casamento e tinham filhos em variadas situações. Pagaremos o valor que a Justiça definir e a quem ela determinar que paguemos. Não há outra forma de resolver o problema.

Veja – Não há má vontade por parte da empresa?

Amaro – Eu tenho a convicção de que a TAM agiu corretamente e fez o que de melhor podia fazer. Começamos por oferecer o acordo financeiro, uma quantia em dinheiro que pudesse garantir certa tranqüilidade material a quem perdeu, em alguns casos, o responsável pela principal fonte de renda da família. Oferecemos, na época, 145.000 dólares a cada família. O valor é dez vezes maior do que o estipulado pelo Código Brasileiro do Ar. A oferta da Swissair às famílias das vítimas do MD-11 que caiu em setembro do ano passado no Canadá foi de 140.000 dólares. A EgyptAir está oferecendo 100.000 dólares às famílias das vítimas do acidente da semana passada com seu Boeing 767.

Veja – Alguns parentes dizem que a TAM foi relapsa. Outros consideraram a atitude da empresa arrogante...

Amaro – Acho que cometi alguns erros na condução desse processo. Não deveríamos ter deixado que os advogados tomassem a dianteira e falassem em nosso nome desde o primeiro momento. Deveríamos nós mesmos ter feito as primeiras negociações e ter chamado os advogados apenas para os casos em que não houvesse acordo. Também deveríamos ter providenciado, ainda no Instituto Médico Legal, algum amparo espiritual às pessoas que iam reconhecer o corpo de seuc pabentes. Não ter convidado reverendos, padres e pastores para ir ao IML foi uma falha que me pesa na consciência até hoje. Procurei visitar as famílias. Não pude ir a todas as casas porque, na medida em que eu demorava, o ânimo dos parentes das vítimas começou a mudar.

Veja – A demora na solução traz algum prejuízo à empresa?

Amaro – A demora prejudica mais as famílias do que a empresa. A TAM tem demonstrado a máxima boa vontade com quem deseja fazer o acerto e, posso garantir, a máxima disposição no sentido de manter aberto o canal de diálogo com as famílias.

Veja – O senhor, que tem sido um defensor da desregulamentação da aviação comercial brasileira, apoiaria essa medida mesmo que ela significasse a presença da American Airlines e da Air France na ponte aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro?

Amaro – Desde que as companhias brasileiras pudessem operar na ponte de Washington a Nova York e também entre Londres e Paris, eu não veria problema. Mas me diga o nome da empresa estrangeira que faz vôos domésticos nos Estados Unidos. Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Para você ter uma idéia, a British Airways comprou 23% da USAir e o governo americano não admitiu que o negócio fosse levado adiante. A KLM, da Holanda, comprou 16% da Northwest e o governo não aceitou. O pessoal que defende esse tipo de idéia é muito liberal. Mas com a mulher dos outros.

Veja – Quem defende esse tipo de idéia?

Amaro – São as empresas americanas e os representantes de companhias como a KLM, da Holanda, e a TAP, de Portugal, países tão pequenos que não têm mercado interno para explorar. Eu vejo a repetição desse discurso e me preocupo. Vamos dizer que o Brasil queira fazer diferente e aceite empresas estrangeiras nos vôos domésticos no país. Desde que elas trabalhem sob as mesmas regras tributárias válidas para as empresas brasileiras, tudo bem, podem vir. O que não pode é uma empresa sujeita a impostos americanos competir com outra que paga tributos brasileiros. O que não pode é pagarmos 35% de imposto sobre um bilhete aéreo e as empresas americanas pagarem em torno de 6%. Isso não é competição. É massacre.

Veja – Uma medida que vem sendo apontada como a solução para os problemas do mercado aeronáutico brasileiro é a fusão entre algumas das empresas. Como o senhor vê a idéia?

Amaro – Alguns passos precisam ser dados antes disso. O governo está procurando resolver os problemas da aviação civil brasileira com a criação de uma agência reguladora ligada ao Ministério da Defesa. Seria bom que isso acontecesse antes de qualquer fusão. O setor reclama de liberdade empresarial, que é nula. Há excesso de regulamentação. O governo espera criar uma nova década de progresso no setor através da criação dessa agência. Se essa idéia vingar, a fusão pode vir a ser um bom negócio.

Veja – O que a criação dessa agência tem a ver com a fusão?

Amaro – Tratar da fusão como o objetivo final do programa de reestruturação da aviação civil brasileira é tratar apenas dos efeitos dos problemas do setor. Precisamos atacar as causas, e essa seria a função da agência. Essas causas são muito claras: excesso de regulamentação pelo governo da nossa atividade, impostos muito elevados que podem ser cobrados até por Estados e municípios e as dificuldades apresentadas às empresas por funcionarem num país de economia tão mutável quanto a brasileira. Agora, o que não podemos é nos furtar a examinar a fusão a partir de agora. Assim, quando as causas das distorções forem corrigidas, poderemos atacar seus efeitos. E há muita gente interessada em discutir esse problema com seriedade. A comissão que estuda a reforma tributária está empenhada em dar racionalidade à política tributária que pesa sobre o setor. E acho que o governo tem demonstrado uma preocupação real em criar as condições necessárias para a modernização do setor.

Veja – Com qual das empresas que estão aí a TAM se fundiria?

Amaro – Isso é como um casamento. Vou casar com quem eu sentir atração.

Veja – Com qual das três, comandante?

Amaro – Casaria com aquela que tivesse mais afinidade em termos de frota, malha, freqüência, cultura.

Veja – Vasp, Varig e Transbrasil. Qual das três seria a noiva mais cobiçada pela TAM?

Amaro – Eu diria que qualquer uma delas poderia nos atrair. Mas talvez a mais adequada à TAM seja a Transbrasil. Temos o mesmo enfoque em relação ao cliente e uma série de pontos em comum. Nós nunca nos sentamos para tratar objetivamente desse assunto. O que estamos procurando é pavimentar o caminho para que a fusão, se acontecer, seja algo natural.

Veja – O que falta para a negociação começar para valer?

Amaro – Eu reclamo é da falta de uma política de longo prazo. Um avião encomendado hoje só chegará daqui a três anos. Uma linha que eu abrir hoje só começará a operar em equilíbrio dentro de dezoito meses. Isso tudo exige uma política de longo prazo. Se isso não acontecer, o Brasil pode dar adeus à veleidade de ter empresas aéreas.

Veja – Como assim?

Amaro – Não é mais possível o Brasil ser beijado por todas as empresas aéreas de países do Mercosul, que vêm aqui todos os dias buscar passageiros para alimentar seus vôos para o exterior. Nós não podemos fazer o mesmo. Quer dizer, teoricamente, até que podemos. Os aviões de uma empresa da Argentina podem sair de Buenos Aires, pousar em São Paulo, deixar passageiros, apanhar outros e seguir para os Estados Unidos e para a Europa. A rigor, poderíamos fazer o mesmo. Mas, na prática, é inviável. Pousaríamos em Buenos Aires e seguiríamos para onde? Para a Patagônia? Para o Pólo Sul? Esse acordo só beneficia a empresa da Argentina.

Veja – Qual é a solução? Proibir as Aerolineas Argentinas de pousar nos aeroportos brasileiros?

Amaro – Nós, das companhias brasileiras, temos de nos organizar, de nos capitalizar para ser os donos dessas empresas. Temos de ser os donos da aviação do Mercosul. No Brasil, que tem mais de 70% do território dos países do bloco, estão 55% dos passageiros. Eles não podem sair de Buenos Aires para ir a qualquer lugar do mundo sem passar em cima do Brasil. E por isso descem aqui para catar passageiros. Se nós fôssemos donos das empresas, a balança de serviços brasileira seria positiva.

Veja – Voltando ao tema da fusão, ela vem sendo discutida sem preocupação alguma com as causas do problema. Isso não seria uma forma de perpetuar a ineficiência do setor?

Amaro – O setor é ineficiente porque carrega uma carga tributária muito grande.

Veja – Só por isso?

Amaro – O setor é ineficiente porque o controle sobre ele é excessivo.

Veja – Só por isso?

Amaro – Alguns problemas do país ajudam a minar nossa eficiência. Vou dar um exemplo. A TAM resolveu renovar sua frota e investiu 1 bilhão de dólares nesse projeto. Havíamos acabado de receber nossos primeiros Airbus A-330, de 100 milhões de dólares cada um, e os nossos primeiros Airbus A-319, quando o dólar foi de 1,20 real para mais de 2 reais. Ou seja, nossa dívida em dólares passou a exigir muito mais reais para ser paga. Isso de uma hora para outra. É esse tipo de situação que nos deixa perdidos em alguns momentos. A conseqüência disso é que muitas empresas resolvem combater essas distorções com outras distorções. Como controla demais e regulamenta demais, o governo não cobra das empresas os impostos que elas devem. Não é o caso da TAM, mas o setor tem dívidas acumuladas com a Previdência que são altíssimas.

Veja – Há alguns anos o senhor teve diagnosticado um câncer na garganta. Como a doença evoluiu?

Amaro – Graças a Deus, estou curado. Pouco antes da cirurgia, antes de a anestesia fazer efeito, fiz uma reflexão. Pensei: nasci nu e não preciso de nada do que eu tenho para morrer. Ali, naquele momento, descobri que a única coisa que gostaria de ter era um pouco mais de tempo para mim. Em momento algum me preocupei com a família. Meus filhos estavam criados e minha mulher tem uma ótima cabeça. Com eles não me preocupei. Decidi que, saindo dali e me curando, dedicaria mais tempo para mim. Andaria mais de moto e pilotaria mais meu monomotor. Decidi também que nunca mais daria liberdade às pessoas, mesmo as mais queridas, de perguntar onde estou hoje e onde estarei amanhã. Dar esse tipo de satisfação me irrita profundamente.